Refugiada somali retoma estudos em escola criada pela ONU no Quênia

Sempre que consegue uma pausa durante o dia, a jovem de 16 anos lê e escreve contos. Foto: ACNUR/Hannah Maule-ffinch

A jovem somali Mumina passa todo seu tempo livre viajando o mundo por meio da literatura. Sempre que consegue uma pausa durante o dia, a menina de 16 anos lê e escreve contos, os quais são compartilhados com amigos no campo de refugiados de Kakuma, no Quênia.

Para ela, ler e contar histórias é muito mais do que apenas um passatempo. Mumina procura lições de vida em todos os livros que lê. Lições que ela mesma consiga aplicar em sua vida ou passar adiante.“Eu sou uma contadora de histórias”, afirma, com um sorriso no rosto.

Mumina encontrou muitos paralelos entre sua vida e a dos personagens dos livros que lê. Seu favorito, “The Delegate”, conta a história de uma menina de família pobre que foge de casa para escapar do casamento forçado. Encontra a felicidade quando, por meio da educação, viaja o mundo e conhece coisas novas.

“Estudar é tudo! É o passaporte para o mundo”, diz Mumina entusiasmada, inspirada pela protagonista do livro.

A jovem acabou de concluir seu último ano em uma das instituições de ensino mais prestigiadas do Quênia e único internato do país para crianças em idade escolar localizado em um campo de refugiados.

Agora formada, ela relembra com carinho as experiências transformadoras que viveu nos quatro anos que passou no local.

Anos atrás, Mumina descobriu o internato e disse para si mesma que estudaria ali. Em 2016, se inscreveu e disputou uma vaga com mais de 500 candidatos. Foi uma das 60 alunas selecionadas com base na vulnerabilidade e no comprometimento acadêmico.

“Minha mãe chegou em casa e me disse que eu estava entre as melhores alunas e que tinha conseguido uma vaga. Fiquei muito empolgada. Pensei: ‘se consegui entrar na melhor escola, posso ter um futuro melhor’.”

A escola foi criada pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e parceiros em 2002, em resposta às baixas taxas de matrícula e altas taxas de evasão entre meninas em situação de vulnerabilidade social ​​em Kakuma. Os alunos não pagam nenhuma taxa, e a agência das Nações Unidas e parceiros os apoiam com alojamento e alimentação, materiais pessoais e escolares.

Mumina e as amigas Mary e Merinas se divertem no dormitório do internato onde estudam. Foto: ACNUR/Hannah Maule-ffinch

“A concorrência para conseguir uma vaga aqui é muito alta. Recebemos inscrições de muitas pessoas de diferentes nacionalidades, tanto do campo como da comunidade anfitriã”, explica Sabella, professora da escola desde 2005.

No internato, Mumina se acostumou a uma rotina intensa. Seus dias começaram às cinco da manhã e são preenchidos com aulas e atividades extracurriculares até às 22 horas, hora em que ela dorme.

Adora o fato de ter os dias repletos de atividades. “Minha parte preferida é que este é um colégio interno, então você tem tempo suficiente para estudar sem interrupções”, diz.

Essa agenda lotada, mas bem estruturada, foi uma mudança bem-vinda depois de um passado agitado.

Antes de chegar ao campo de refugiados de Kakuma, em 2009, Mumina viveu na Somália com sua família, até que um dia seu tio-avô foi morto em uma explosão de bomba. Com medo, Mumina, sua mãe e seus três irmãos fugiram do país.

Depois de atravessar a fronteira com o Quênia, a família foi levada com segurança pelo ACNUR para o campo de refugiados de Dadaab, onde seus membros foram registrados como refugiados. Logo depois, no entanto, a família sofreu outro baque: o pai de Mumina, que ela não via e do qual não ouvia falar havia muitos anos, tinha encontrado a família e levado seu irmão.

Com medo de perder os outros filhos, a mãe de Mumina levou as filhas para Kakuma, a mais de 1.100 quilômetros de distância. Na época, Mumina tinha apenas 6 anos. Ela demorou um tempo até se adaptar.

“Foi difícil me acostumar com o ambiente e com a comida”, relembra. “Eu costumava chorar muito e pedir para minha mãe nos levar de volta para casa. Minha irmã me confortava, dizendo: ‘um dia você será o que quiser, ser refugiado é apenas algo temporário.”

Mumina seguiu o conselho da irmã. Fez amigos no acampamento e logo Kakuma tornou-se seu lar. Suas amigas são de diferentes países — a escola tem estudantes de nove nacionalidades — algo que Mumina e sua alma de contadora de histórias apreciam profundamente.

“Quero aprender com os outros, ver o que as outras pessoas experimentam. É por isso que interajo com pessoas de outras nacionalidades.”

Isso também é o que motiva seu amor pelos livros. “Quando você lê uma história, você aprende sobre a experiência de outra pessoa e pode tomar isso como exemplo ou usá-la para motivar outras pessoas”, afirma.

Com tudo o que aprendeu, Mumina está determinada a incentivar as pessoas, em especial outras meninas, a não desistir do futuro. “Aprender é bom para todos. Educação é poder”, diz ela, que ainda está descobrindo para onde esse poder a levará.

A jovem foi aprovada nos exames nacionais do ensino fundamental e, agora que tem seu certificado em mãos, começa a pensar nas próximas fases de sua educação.

Existem apenas sete escolas secundárias no campo de refugiados de Kakuma e milhares de estudantes desejam uma vaga, o que torna esse período de transição particularmente desafiador para os jovens refugiados. Mas a ambição de Mumina continua forte.

“Gostaria de ser engenheira, porque então poderia projetar minha vida, minha casa e minha nação como quisesse, além de poder construí-los por conta própria. Engenheiros são os construtores de um país. Mas eu também gostaria de ser jornalista, porque, como jornalista, você pode explorar seu país, sua própria vida e a vida de outras pessoas, tornando-se um embaixador de onde você é.”

O maior desejo de Mumina é deixar sua mãe orgulhosa. “Gosto quando sou a causa de sua alegria. Fico feliz em trazer de volta o sorriso que ela perdeu há muitos anos.”

Não importa o que ela acabe fazendo, uma coisa é certa: Mumina continuará deixando sua mãe orgulhosa, seja usando suas habilidades para criar um mundo melhor ou para informar outras pessoas, como jornalista.

Os estudantes contam com o apoio de tablets durante as aulas. Foto: ACNUR/Hannah Maule-ffinch