Refugiada palestina de 84 anos lembra vida no exílio

Nascida em 1934 na Palestina, Um Qasem abandonou seu vilarejo há mais de 70 anos, quando sua vida de refugiada teve início. Começava então uma série de deslocamentos que teriam por destino final o acampamento de Khan Dunoun, na zona rural de Damasco, na Síria, onde a idosa reside até hoje.

Um Qasem é mãe de oito filhos e avó de mais de 30 netos, todos nascidos em situação de deslocamento. Ao longo das décadas na diáspora, a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) sempre esteve lá para apoiar a refugiada e sua família.

Khazneh Said, conhecida como Um Qasem, vista no acampamento de Khan Dunoun, na zona rural de Damasco, na Síria. Foto: UNRWA/Taghrid Mohmmad

Khazneh Said, conhecida como Um Qasem, vista no acampamento de Khan Dunoun, na zona rural de Damasco, na Síria. Foto: UNRWA/Taghrid Mohmmad

Nascida em 1934 na Palestina, Um Qasem abandonou seu vilarejo há mais de 70 anos, quando sua vida de refugiada teve início. Começava então uma série de deslocamentos que teriam por destino final o acampamento de Khan Dunoun, na zona rural de Damasco, na Síria, onde a idosa reside até hoje.

Um Qasem é mãe de oito filhos e avó de mais de 30 netos, todos nascidos em situação de deslocamento. Ao longo das décadas na diáspora, a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) sempre esteve lá para apoiar a refugiada e sua família.

Ela fugiu por medo dos eventos que estavam acontecendo em várias partes da Palestina em 1948. Foi seu primeiro êxodo, o início de uma vida de dor, miséria e injustiças indescritíveis. “Deus abençoe os bons e velhos tempos quando nós estávamos em nossa casa em al-Zwayeh, na Palestina. Nós éramos felizes. Nós tínhamos fazendas”, lembra.

Como todos os refugiados palestinos que perderam suas casas e meios de subsistência como resultado das hostilidades na Palestina, Um Qasem sobreviveu por conta da natureza muito unida da comunidade palestina e graças às doações emergenciais de comida da URNWA. “Nossa vida era simples antigamente. Nós saímos (de nossa comunidade) apenas com nossas roupas. Meu vilarejo al-Zwayeh foi ocupado em maio de 1948 e era mais conhecido por suas fazendas. Era um pequeno vilarejo com cerca de 2 mil habitantes”, conta a idosa, com um grande e pesado suspiro.

Ela tinha 14 anos quando fugiu da Palestina para Khyam al-Walid, um vilarejo palestino ao nordeste de Safad, ao longo da fronteira com a Síria. Quando deixou sua terra pela primeira vez, foi informada de que ficariam fora por somente dez dias, até a situação melhorar. “Eu nunca irei me esquecer do dia em que tive que fugir. Disse a mim mesma que seria temporário – minha fuga da Palestina”. Mas seu vilarejo foi queimado.

À medida que as memórias voltam, uma sombra se abate sobre seu rosto, marcado pelo tempo. Um Qasem teve que se mudar para as Colinas de Golã em busca de segurança quando moradores de Khyam al-Walid fugiram da área por medo de uma ofensiva militar, ainda em maio de 1948. Nas Colinas de Golã, ela trabalhou em plantações colhendo algodão, para ganhar dinheiro para a família.

Após a guerra árabe-israelense em junho de 1967, Um Qasem e sua família decidiram buscar asilo em um lugar mais seguro. Foi o começo de uma longa jornada, que terminou no acampamento de Khan Dunoun, onde encontraram abrigo em uma estalagem em ruínas. Mais tarde, construíram sua própria casa e receberam serviços da UNRWA, incluindo educação, saúde e assistência.

“Nós somos parte daquela grande onda, uma vasta multidão de seres humanos se movendo para outro lugar. Foi o segundo êxodo imposto sobre nós, embora nunca tenhamos machucado ninguém. Minha família e eu deixamos as Colinas de Golã em um caminhão que seguia para Damasco, levando nossos itens pessoais, colchões, cobertores e alguns utensílios de cozinha que conseguimos carregar. A vida era muito difícil naquela época. Nós lutamos para sobreviver”, conta a palestina.

Agora com 84 anos e mãe de oito filhos, Um Qasem é a matriarca de cabelos brancos de uma família refugiada há três gerações. Ela tem mais de 30 netos, mas até mesmo seus parentes não têm certeza do número exato. Quando o conflito na Síria começou em 2011, a UNRWA estava lá novamente para apoiar a família, fornecendo alimentos e assistência financeira de emergência para ajudá-los a sobreviver.

Engenhosas e determinadas, as famílias palestinas refugiadas lutam há mais de 70 anos para manter tradições e dar um futuro melhor para seus filhos, enfrentando adversidades enormes.

O único desejo de Um Qasem é ir à ocupada Ein el-Teeneh, nas Colinas de Golã, sudoeste da Síria, para ver e sentir o cheiro de sua Palestina.

“Onde iremos encontrar um dia uma casa de verdade? Estamos condenados a viver em exílio?”

“O que todos esperamos é que a paz prevaleça e que o sol ilumine nosso caminho. A Palestina está sempre em meus pensamentos. A Palestina é a beleza, vinhedos, pomares, laranjeiras e jardins”, afirma Um Qasem, com lágrimas nos olhos.


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