Recuperação de áreas degradadas em Sergipe ajuda no combate à desertificação

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Os municípios de Canindé de São Francisco e Poço Redondo ficam no Alto Sertão Sergipano, a cerca de 200 quilômetros da capital do estado, Aracaju. Ambos os municípios têm baixo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). Apesar da proximidade com o rio São Francisco, um dos problemas mais sérios dos moradores desses municípios é a desertificação e a degradação da terra, agravadas pelos efeitos da seca.

É nesse contexto que faz toda a diferença o projeto Manejo do Uso Sustentável de Terras do Semiárido do Nordeste Brasileiro (Sergipe), implementado por meio de parceria entre o Ministério do Meio Ambiente, o Governo do Estado de Sergipe e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), com recursos do Fundo para o Meio Ambiente Global (GEF).

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Os municípios de Canindé de São Francisco e Poço Redondo ficam no Alto Sertão Sergipano, a cerca de 200 quilômetros da capital do estado, Aracaju. Ambos os municípios têm baixo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) — 0,567 e 0,529, respectivamente —, segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano do Brasil, de 2010. Apesar da proximidade com o rio São Francisco, um dos problemas mais sérios dos moradores desses municípios é a desertificação e a degradação da terra, agravadas pelos efeitos da seca.

O manejo adequado dos solos é fundamental para que os pequenos agricultores locais possam conviver de forma harmônica com o semiárido, a partir da preservação do meio ambiente e de uma produção sustentável. O uso sustentável dos recursos existentes na região e a recuperação de áreas degradadas são indispensáveis para a sustentabilidade ambiental, a melhoria da qualidade de vida e o desenvolvimento dos habitantes desses municípios.

É nesse contexto que faz toda a diferença o projeto Manejo do Uso Sustentável de Terras do Semiárido do Nordeste Brasileiro (Sergipe), implementado por meio de parceria entre o Ministério do Meio Ambiente, o Governo do Estado de Sergipe e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), com recursos do Fundo para o Meio Ambiente Global (GEF).

Ações do projeto

“Este é um projeto que tem dois componentes principais. O primeiro é referente à governança. Temos tentado fortalecer a estrutura de governança no que diz respeito ao combate à desertificação não só no estado de Sergipe, mas também no Nordeste como um todo. Um segundo é uma ação mais estruturada para a recuperação de áreas degradadas em algumas comunidades no alto sertão sergipano”, explica a gerente de projetos do PNUD, Patrícia Benthien.

As atividades da região foram divididas em três eixos integrados: ambiental, produtivo e social. No eixo ambiental, destacam-se ações como recuperação de nascentes, instalação de barragens (chamadas barragens de base zero) e cordeamento de pedras para evitar a erosão no solo.

Na área produtiva, houve o fomento ao pequeno agricultor, tendo em vista processos de manejo adequado do solo, como nas áreas Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e Sistemas Agroflorestais (SAFs). Finalmente, no eixo social, as ações privilegiaram a instalação de banheiros com fossas ecológicas para viabilizar o saneamento básico, a instalação e recuperação de cisternas, a construção de fogões ecológicos e treinamentos para que a população se aproprie das tecnologias e boas práticas utilizadas e oportunamente possa replicá-las.

“Eu nunca imaginei que tinha uma nascente aqui, porque a gente passava sempre por aqui e não via nada, só terra, soterrado. A partir de quando o projeto veio para cá, ficamos sabendo que tinha recuperação de nascente, e eu fiquei pensando ‘o que é uma nascente?’ Eu não sabia o que era uma nascente”, conta Daysiane Souza de Lima, moradora do assentamento Florestan Fernandes, no município de Canindé de São Francisco.

Para que a nascente fosse limpa, foi preciso mobilizar a comunidade, onde muitos não acreditavam que sua recuperação seria possível. “A gente tem uma nascente, que há mais ou menos dez anos estava abandonada por motivo de fortes chuvas, ela soterrou e a comunidade não tinha nem um recurso para reativá-la. Através do projeto, recuperamos nossa nascente, que hoje está garantindo um volume de água espetacular para nossos animais. Não pensei que isso seria possível um dia”, conta Geldino Cassiano de Lima, morador do assentamento Florestan Fernandes.

 

Já as BBZ são Barragens de Base Zero, instaladas no leito de pequenos córregos para evitar o assoreamento de rios e a formação de voçorocas (buracões). “O intuito delas é impedir o assoreamento de terra, que ia diretamente ao Rio São Francisco. Então, esses riachos já não levam mais terra para o rio”, conta Geldino.

“As barragens de base zero também auxiliam na recuperação de solos. São uns cordões de pedra, sobretudo em áreas onde passam pequenos córregos ou onde tem pequenas voçorocas, onde a água já está causando alguma erosão”, complementa Daniela Bento, da ONG Sociedade de Apoio Sócio-Ambientalista Cultural (SASAC).

As BBZ são construídas a partir de uma tecnologia simples, que utiliza as pedras da região, formando com elas uma barreira em formato de cone sobre os mananciais, sendo, assim, uma metodologia de fácil replicação.

“Um investimento simples, que você vai pegar a pedra da própria natureza e vai fazer com que a barragem fique quatro, cinco anos sem encher de novo com areia. O cara gasta com máquina pesada todo ano para limpar uma barragem, sendo que uma técnica simples de uma barragem de base zero filtra a água e mantém o solo com a vegetação normal, sem voçoroca, sem erosão, e ainda vai sustentar a água por mais tempo. Isso é maravilhoso”, explica Pedro França, morador do assentamento Modelo, em Canindé de São Francisco.

O conhecimento para a realização das barragens pode ser repassado e replicado facilmente. Pedro conta que participou dos treinamentos e aprendeu a construir as BBZs não apenas para seu assentamento, mas para passar o conhecimento adiante. “Aprendi as tecnologias não só para fazer neste momento, mas para passarmos para outras pessoas que queiram também aprender. Eu sempre vou a outras propriedades, outros assentamentos, ajudar o pessoal a medir o terreno para fazer BBZ”, afirma.

Além das barragens, os fogões ecológicos também têm papel importante no projeto. Eles estão sendo construídos levando em consideração a necessidade de redução da degradação ambiental a partir de menos consumo doméstico de lenha nativa, a necessidade de as famílias consumirem menos gás e, principalmente, eliminar a fumaça para o exterior da residência, evitando, assim, problemas respiratórios

Como as demais ações, a comunidade passou por treinamento para aprender como construir e utilizar os novos fogões, além de obter o conhecimento sobre a eficiência do produto e discutir quais seriam as famílias que primeiro receberiam o produto e o acabamento que ele teria para melhor representar a comunidade. A construção dos fogões ecológicos envolve mão de obra local, contribuindo para gerar renda e dar à comunidade a capacidade de replicar o uso dessa tecnologia social.

“Era o meu sonho ter um fogão desse na minha casa, porque eu tenho muitos netos, muitos filhos e, quando chegam, aí gasta muito gás. Com um fogão desse, a economia é grande. Além disso, não vem fumaça para dentro da casa, sai tudo pela chaminé”, relata Josefa Golveia da Silva, a primeira moradora a receber o fogão.

Josefa também conta que as mulheres foram muita ativas nas capacitações de conscientização sobre a importância do manejo de lenha. “Todas as mulheres aqui participaram do treinamento, opinaram sobre a produção do fogão. Elas gostaram muito, é o sonho delas esse fogão aqui”.

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“Sabemos que nas áreas do semiárido temos um consumo altíssimo da caatinga, então temos as atividades produtivas mais ecológicas, que são as implementações dos sistemas de integração pecuária, lavoura e florestas, os ILPFs e os sistemas agroflorestais, os SAFs, que integram produção agrícola juntamente com a caatinga”, explica Daniela Bento.

Os SAF têm como objetivo principal proteger a vegetação local e reflorestar áreas devastadas. Já as áreas de ILPF integram a lavoura, floresta e pecuária sob os cuidados da comunidade, para o desenvolvimento da agricultura familiar. A própria comunidade, então, aprende como manejar o solo, realizar as curvas de nível e otimizar o plantio de sementes.

“Para a gente, o ILPF é uma geração de riqueza, porque além de garantir a nossa segurança alimentar, fornece os insumos que para garantir alimentos para os nossos animais. Através disso aqui, a gente vai talvez até ampliar o nosso rebanho, porque a gente vai ter um alimento de mais qualidade e mais nutrição para os animais”, conta Geldino.

Todas as ações na comunidade se realizam de maneira horizontal, com a participação dos assentados nas discussões e implementações sobre as atividades. “Aqui, o trabalho coletivo está muito forte, fluindo mesmo, já faz parte da identidade da comunidade, e esse projeto veio para somar com isso, é um projeto que tem uma capacidade de envolver muito a comunidade”, afirma Daniela.

Essa participação é importante para que o projeto seja sustentável e consiga chegar a outras famílias e comunidades da região. “Uma vez implementadas essas ações, o projeto visa conscientizar as pessoas para que elas conscientizem outras pessoas, ou seja, é um processo de formiguinha. A gente traz uma proposta para a comunidade, e essa comunidade vai ser uma vitrine para as comunidades vizinhas”, explica o analista ambiental do MMA, Claudio Rodrigues dos Santos.

“A comunidade está com a autoestima lá em cima, inclusive os trabalhos coletivos que fazemos aqui, as comunidades todas interagindo, quando temos uma atividade prática, a comunidade está toda junta, seja na área de intervenção de BBZ, de recuperação de nascente, nas áreas dos SAFs, então o projeto é muito positivo para nós”, conclui Geldino.

Unidades de recuperação de áreas degradadas e redução da vulnerabilidade climática na região semiárida brasileira

Para a implementação dessas tecnologias sociais e boas práticas de manejo sustentável da terra (SLM) nas quatro comunidades rurais no Alto Sertão Sergipano, foi adotada a metodologia das URADs (Unidades de Recuperação de Áreas Degradadas), que trabalha com os três eixos – ambiental, social e produtivo – de maneira integrada, para promover estratégias de recuperação de áreas degradadas e implementação de tecnologias de adaptação e de redução da vulnerabilidade às secas e à desertificação.

“É importante levar essa metodologia para as comunidades porque, por meio das ações ambientais, podemos trabalhar a conversão, o manejo sustentável dos solos, também tendo em vista as ações produtivas, de forma a aproveitar as tecnologias de conservação dos solos para potencializar essa área e melhorar as condições produtivas”, afirma o analista ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Cláudio Rodrigues dos Santos.

João Alexandre de Freitas Neto, da ONG Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC), parceiro do projeto nas intervenções de campo, explica que as famílias gostam da proposta trazida pela URAD, pois têm espaço para que apontem suas necessidades e discutam as ações implementadas. “Já pudemos evidenciar diversos ganhos aqui dentro do assentamento, como a questão do envolvimento das pessoas, do sentimento de trabalho coletivo, de assessoria técnica, que vem se envolvido bastante nas atividades”, complementa.

Empoderamento feminino

Para a implementação das ações, o apoio da comunidade é fundamental. A participação das mulheres, contudo, foi essencial em todas as atividades. “Elas não ajudam, elas trabalham realmente no campo, dão conta da casa, das crianças, e conseguem estar junto com o esposo fazendo esse trabalho braçal, que é o trabalho da agricultura familiar”, conta Geldino.

Maria Izabel Guedes, moradora do assentamento Modelo, complementa que o projeto tem uma capacidade de envolver bastante a comunidade, mas que as mulheres tomaram a liderança em diversas atividades. “Os meninos iam junto com a gente para as reuniões, mas éramos nós que decidíamos, que participávamos mesmo dos encontros. E, na hora de colocar a mão da massa, todo mundo trabalhou em conjunto, mas foram as mulheres que mais trabalharam”, conta.

“As mulheres foram os machos mesmo, foram maria-macho, pegavam o balde com água e jogavam, nem os homens faziam o que as mulheres faziam, então eu acho importante isso, porque hoje em dia tem muito preconceito que a mulher não faz isso e não faz aquilo, mas é a mulher que está interagindo hoje mais do que o homem, temos mais uma independência para fazer as coisas”, finaliza Daysiane.

Objetivos de desenvolvimento sustentável

O projeto está alinhado com a Agenda 2030 e busca apoiar a região do Alto Sertão Sergipano para o desenvolvimento sustentável. Para isso, vários dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) se integram de forma transversal.

“Esse projeto de fato se insere em vários ODS. Primeiro, de uma forma mais macro, pensamos no Objetivo 1, de erradicação da pobreza, com famílias de reforma agrária, que estão trabalhando para a promoção de uma agricultura sustentável ao mesmo tempo que estão conservando a caatinga, integrando assim com o ODS 2, porque a gente está aumentando a sustentabilidade da vida no campo, dessas pessoas estarem na terra produzindo e diminuindo a pobreza dessas famílias”, ressalta a coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Sustentável (Cluster Planeta) do PNUD, Rose Diegues.

Além disso, outros ODS estão contemplados com a implementação de algumas atividades nos assentamentos. “Há um componente também de saneamento básico, de instalação de unidades sanitárias constituídas de um abrigo sanitário e uma fossa séptica. Então, observamos um alinhamento com o ODS 6. Além disso, por ser um projeto envolvido com o combate à desertificação e conservação de biodiversidade, a gente está implementando o ODS 15, que é de proteção à vida na terra”.

O projeto também alcança temas transversais, como a igualdade de gênero, com o empoderamento das mulheres camponesas, abrangendo, dessa forma, a implementação do ODS 5. E, para que todas as atividades sejam executadas de forma integrada, é preciso parceria entre os órgãos envolvidos, desde a escala municipal e estadual, o Governo Federal, as ONG locais e o PNUD como agência implementadora, observando, assim, a importância do ODS 17.


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