Quatro ucranianos contam como é viver em guerra no inverno do Leste Europeu

Desde 2014, conflitos na Ucrânia forçaram 1,5 milhão de pessoas a deixar suas casas. Para os afetados pela violência, o inverno pode tornar a vida particularmente difícil, com temperaturas que podem cair até -20 °C. Depois de cinco anos de confrontos, muitos dos deslocados esgotaram seus recursos e frequentemente são forçados a escolher entre comprar comida e remédios ou pagar por aquecimento.

Olena e sua bebê de sete meses de idade. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Olena e sua bebê de sete meses de idade. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Desde 2014, conflitos na Ucrânia forçaram 1,5 milhão de pessoas a deixar suas casas. Para os afetados pela violência, o inverno pode tornar a vida particularmente difícil, com temperaturas que podem cair até -20 °C. Depois de cinco anos de confrontos, muitos dos deslocados esgotaram seus recursos e frequentemente são forçados a escolher entre comprar comida e remédios ou pagar por aquecimento.

Em 2018, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) aumentou as suas distribuições de assistência, doando roupas, combustível e dinheiro para milhares de famílias no leste da Ucrânia. Em parceria com outras instituições, o organismo das Nações Unidas também está melhorando os abrigos já existentes e as tendas aquecidas que ficam nos postos de controle, ao longo da chamada linha de contato — o perímetro que divide as áreas controladas pelo governo e os grupos armados não estatais.

O ACNUR reuniu depoimentos de quatro ucranianos que tiveram de abandonar suas casas por causa da situação de guerra. Com o apoio da agência e ONGs, esses deslocados não terão de passar frio no rigoroso inverno do Leste Europeu.

Stefania, de 71 anos

Stefania e seu cachorro do lado de fora da casa do vizinho, onde reside, em Mykolayivka, Donetsk. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Stefania e seu cachorro do lado de fora da casa do vizinho, onde reside, em Mykolayivka, Donetsk. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Eu vivo em Mykolayivka, Donetsk, há muitos anos. O inverno aqui é gelado e venta muito. A temperatura pode chegar a -10 °C.

O bombardeio dificulta as coisas nesta época do ano. Quando começa, a primeira coisa que você faz é correr até o porão, mas é muito frio lá. Quando minha casa foi bombardeada em 2015, eu trouxe todas as roupas quentes e cobertores que eu tinha. Mesmo assim, estava frio.

Depois fui checar minha casa. Estranhamente, muitas coisas não quebraram, incluindo a geladeira e a televisão. Mas o teto estava faltando. O cheiro era terrível. Muitas coisas estavam queimando e eu tive que morar com um vizinho.

Depois daquele inverno, desenvolvi problemas nos meus rins e coração.

Este ano, recebi materiais emergenciais de abrigo do ACNUR. Também recebi quatro toneladas de carvão.

Eu sonho em estar de volta à minha própria casa. E dormir na minha cama de camisola. Nós estamos dormindo com as mesmas roupas há tantos anos. Quando eles começam a bombardear, você imediatamente corre para o porão – não tem tempo para se vestir.

Espero que a luta pare e meus filhos voltem para casa. O meu neto tem apenas dois anos, mas ele tem muitos problemas de saúde causados por estresse e medo. Ele não pode olhar para fogos de artifício porque tem medo de que seja um bombardeio.

Eu espero muito que um dia eles voltem.

Vladyslav, de 64 anos

Uma assistência em dinheiro do ACNUR ajuda Vladyslav a pagar pela eletricidade e aquecer seu fogão. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Uma assistência em dinheiro do ACNUR ajuda Vladyslav a pagar pela eletricidade e aquecer seu fogão. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Sou de Avdiivka, em Donetsk. Minha esposa morreu anos atrás e minhas duas filhas vivem na Crimeia com seus filhos. Muitas pessoas fugiram da nossa cidade.

Depois que minha casa foi bombardeada em 2015, eu me mudei para o porão porque o telhado e grande parte do interior foram destruídos. Os vizinhos ficaram comigo. À noite, você podia ouvir os bombardeios e tubos de gás explodindo. Lembro-me de cortar árvores no jardim para me aquecer.

Não havia pão, luz ou gás. Nós comíamos as batatas que plantamos no verão e, se alguém saísse, perguntávamos para onde estavam indo, para saber onde encontrá-las se fossem mortas.

Eu quero paz.
Não quero que as
pessoas morram de
fome e congelem.

Agora não posso ficar sozinho. Estou com medo. Sou grato aos meus vizinhos. Durante as tardes, vou à casa deles e me aqueço. Os preços do carvão estão altos e eu quase não como no verão para poder comprar carvão para o inverno. Uma doação em dinheiro do ACNUR vai ajudar a pagar pela eletricidade. Eu não posso pagar com a minha pensão, que é apenas 1.900 UAH (cerca de 67 dólares ou 250 reais) por mês.

Sinto muita falta das minhas filhas. Infelizmente, há problemas com as linhas telefônicas na minha rua, então não consigo ligar para elas há cerca de um mês.

Eu quero paz. Não quero que as pessoas morram de fome e congelem. Não quero que as crianças ouçam explosões. Eu tenho esperanças de que a paz finalmente chegará.

Olena, de 23 anos

Olena em seu apartamento com a pequena Yelyzaveta, de sete meses de idade. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Olena em seu apartamento com a pequena Yelyzaveta, de sete meses de idade. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Eu moro na aldeia de Majorsk, em Donetsk, com minha filha Yelyzaveta, que tem sete meses de idade.

Me mudei para cá depois que minha mãe morreu em 2017. Eu estava muito deprimida. Não queria viver, então quando uma amiga minha me convidou para se juntar a ela, fiquei feliz em aceitar o convite.

Mas esse tem sido um inverno difícil. Tendo me mudado para perto da linha de contato, com uma criança pequena em meus braços, eu sinto o peso do que está acontecendo.

Não há aquecimento central no meu prédio por causa do conflito, então fiquei muito feliz quando o ACNUR e a Proliska, uma ONG parceira, me trouxeram um fogão. A coisa mais importante é o aquecimento. Outras organizações também ajudam. É difícil quando você tem um filho.

Espero que possamos nos mudar para outro lugar mais seguro do que o que estamos agora. Não há hospital ou farmácia por perto e eu sempre me preocupo com o quão rápido a ambulância chegaria se algo acontecesse.

Nadiya, de 59 anos

Nadiya com duas de suas filhas adotivas em sua casa, em Chasiv Yar. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Nadiya com duas de suas filhas adotivas em sua casa, em Chasiv Yar. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Você não pode imaginar o que vivemos desde o começo do conflito.

Pelos primeiros dois anos, nós vivemos na aldeia Zhovanka, bem perto da linha de contato, e fomos bombardeados quase todos os dias. A casa foi danificada e nossos cães foram mortos. Nós não podíamos nem andar em nenhum lugar por causa das minas terrestres.

Era especialmente difícil no inverno. As janelas estavam quebradas e lutávamos para manter a nossa casa aquecida. Quando chovia, o nosso telhado vazava e não havia eletricidade na maior parte do tempo. Todos estávamos com medo, mas não tínhamos para onde ir.

Em 2016, graças à ONG Proliska, pudemos nos mudar para um lugar mais seguro em Chasiv Yar. Eles foram a primeira organização a nos apoiar e ficamos muito gratos. Eles traziam comida e roupas quentes, carvão e remédios.

Juntos, meu marido e eu criamos 15 filhos adotivos e nossa própria filha. A maioria das nossas crianças tem necessidades especiais. Alguns deles cresceram e começaram suas próprias famílias.

No último ano, o ACNUR nos deu casacos de inverno para todas as crianças, assim como cobertores quentes, roupa de cama, toalhas e um conjunto de utensílios de cozinha.

Recentemente, fui a um concerto. Enquanto o público aproveitava, comecei a chorar. A vida é tão injusta! Algumas pessoas têm a chance de viver felizes, enquanto outras são privadas de serviços básicos em suas aldeias ao longo da linha de contato.

Espero que o conflito termine em breve. Os soldados irão para casa e se reunirão com suas famílias e as pessoas aqui no leste voltarão à vida normal e pacífica.


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