Proteger refugiados na Líbia é ‘trabalho mais desafiador que já tive’, diz representante da ONU

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Há quase 25 anos trabalhando pelos direitos de pessoas deslocadas por conflitos, o italiano Roberto Mignone ocupa atualmente o posto de representante da Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) para a Líbia. Em entrevista à equipe de comunicação do organismo internacional, o dirigente explica os desafios que enfrenta no país do Magrebe e lembra por que decidiu se tornar um agente humanitário.

Roberto Mignone em acampamento para sobreviventes do terremoto que atingiu o Equador em 2016. Foto: ACNUR/Santiago Arcos Veintimilla

Roberto Mignone em acampamento para sobreviventes do terremoto que atingiu o Equador em 2016. Foto: ACNUR/Santiago Arcos Veintimilla

Há quase 25 anos trabalhando pelos direitos de pessoas deslocadas por conflitos, o italiano Roberto Mignone ocupa atualmente o posto de representante da Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) para a Líbia. Em entrevista à equipe de comunicação do organismo internacional, o dirigente explica os desafios que enfrenta no país do Magrebe e lembra por que decidiu se tornar um agente humanitário.

Mignone já serviu ao ACNUR em Moçambique, Guatemala, Colômbia, Suécia, Austrália, Índia, Costa Rica e em Genebra, na Suíça, onde fica localizada a sede da instituição. De lá, coordenou a equipe do ACNUR responsável por implementar respostas humanitárias a situações de emergência.

Por que você se tornou um trabalhador humanitário?

Eu estava fazendo um mochilão pela Ásia e encontrei crianças da tribo karen, refugiadas de Mianmar, em uma aldeia no norte da Tailândia. Estava distribuindo alguns doces e pensei: “espero que, um dia, eu possa voltar com algo melhor”. Foi quando soube que queria trabalhar nessa área.

Os karen foram os primeiros indígenas deslocados que conheci. Mas desde que ingressei no ACNUR, em 1993, trabalhei com outros povos indígenas na Guatemala, Panamá, Colômbia, Costa Rica e Filipinas.

Trabalhar com eles tornou-se minha prioridade e área de trabalho favorita, pois eles são particularmente vulneráveis e desproporcionalmente afetados por conflitos. Não há dúvidas de que eles precisam de proteção.

Qual é o aspecto mais gratificante ou desafiador do seu trabalho?

Ser representante para a Líbia é o trabalho mais desafiador que já tive. Nosso acesso ao país é muito, muito limitado. Devido às restrições de segurança, só podemos enviar uma pessoa de cada vez da nossa base na Tunísia para entrar na Líbia. Aí vem toda a parafernália para se deslocar. Você precisa de dois veículos armados, dois guarda-costas da polícia diplomática, o que dificulta bastante essa movimentação. Então, este é um grande desafio que implica o gerenciamento remoto de nossa equipe nacional lá.

Existe mais de um governo. O que trabalha conosco está em Trípoli, mas há também outras autoridades por todo o país. Não temos um memorando de entendimento, mas a nossa presença é tolerada. Se eu pudesse mudar algo, seria poder trabalhar de lá.

Os mais de seis anos de revolta violenta na Líbia começaram com o levante que removeu o governante Muammar Gaddafi em 2011. Trabalhamos com meio milhão de pessoas deslocadas no país por causa de conflitos. Destes, 200 mil estão deslocados, e os outros 300 mil foram deslocados e retornaram recentemente, porém seguem em situação de vulnerabilidade.

Trabalhamos ainda com refugiados em movimentos migratórios mistos, o que também é muito complicado, porque as autoridades não reconhecem essas pessoas como refugiadas e, consequentemente, não reconhecem nosso papel. Por isso decidimos evacuar milhares de refugiados da Líbia porque lá a situação é muito perigosa para eles.

Embora seja um desafio, estamos tendo progresso. Até o final de 2017, 950 pessoas foram libertadas de centros de detenção horríveis. Entre elas, havia um menino de oito anos. Eu escrevi uma carta recentemente para outros 2280 (indivíduos) que ainda serão libertados. Conseguir retirar essas pessoas da detenção será o melhor trabalho possível de proteção.

Entre os casos que se destacam, está aquele no qual cerca de 30 mulheres foram escravizadas por extremistas em Sirte. Quando a cidade foi libertada, elas foram detidas pelas autoridades da Líbia sob o argumento de que eram companheiras dos extremistas. Nós conseguimos que as liberassem e, depois, as reassentamos em um país seguro.

Qual foi o melhor dia que você teve no trabalho?

Quando eu estava na Colômbia, realizei 250 missões de campo a cavalo, a pé, de barco, indo para comunidades remotas na selva.

Uma vez, lembro que fomos para a região do Chocó, na costa do Pacífico que faz fronteira com o Panamá. Tivemos que viajar de barco por dois dias, pelo oceano e depois por um rio, até o local onde indígenas emberá foram confinados por narcotraficantes. Quando chegamos à aldeia, todos fugiram porque, na época, as únicas pessoas que as visitavam lhes faziam mal. Então, passamos alguns dias lá e, pouco a pouco, eles começaram a confiar em nós. Nós explicamos: “estamos aqui para protegê-los, não somos pessoas más”. Eles entenderam isso.

Roberto Mignone em missão a uma aldeia emberá, na região de Chocó, na Colômbia, onde foi vice-representante nacional do ACNUR. Foto: ACNUR/Lorena Nieto

Roberto Mignone em missão a uma aldeia emberá, na região de Chocó, na Colômbia, onde foi vice-representante nacional do ACNUR. Foto: ACNUR/Lorena Nieto

Eu tenho uma foto tirada na aldeia. Estou sentado e uma pequena garota está atrás de mim, e ela colocou a mão no meu ombro. Isso significa que mesmo as crianças entenderam que estávamos lá para protegê-los e não, para prejudicá-los. Esse foi o meu melhor dia no trabalho.

Eu gosto de trabalhar em áreas remotas. Quando estava na Colômbia, na Guatemala e em Moçambique, eu costumava pensar: “eles estão me pagando para fazer isso?”. Se eles me dissessem “não, não vamos pagar nada, você tem que pagar”, eu pagaria para realizar aquele trabalho.

Qual foi o seu pior dia no trabalho?

Meu pior dia foi na Guatemala em 1995. Foi durante a guerra civil e eu estava trabalhando para proteger os refugiados maias que retornaram do México para participar do processo de paz.

A maioria dos que morreram no conflito, que durou de 1960 a 1996, eram maias que foram mortos por militares. E nós éramos como escudos-humanos entre o exército e os repatriados indígenas. Eles costumavam nos avisar quando soldados entravam em suas aldeias porque tinham medo deles.

Neste dia específico, recebemos um telefonema desta comunidade que nos disse que o exército os tinha cercado. Eu dirigi como louco por estradas não pavimentadas e, durante todo o trajeto, podíamos ouvir o que estava acontecendo pelo rádio. Os soldados estavam matando pessoas.

Quando estávamos chegando, encontramos a patrulha que estava de saída. Eles tinham acabado de matar 11 pessoas, incluindo uma criança. Era como se estivessem em transe. Eles levantaram as armas e poderiam facilmente ter atirado em nós. Aí chegamos à aldeia e foi como o Inferno de Dante. Havia gente chorando, tinha muito sangue e corpos.

Normalmente, impedíamos essas situações, estando lá, fisicamente presentes. Mas naquela vez, chegamos tarde demais. Porém, isso nos mostrou que o que fizemos em outras aldeias funcionou. Caso contrário, poderia ter havido mais situações como esta.


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