Projeto ‘Empoderando Refugiadas’ encerra segunda edição com 21 contratações

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Em uma sala de cinema e diante de plateia atenta, dez refugiadas de diferentes nacionalidades e que hoje vivem em São Paulo se emocionaram. Retratadas pelo documentário “Recomeços — sobre mulheres, refúgio e trabalho”, elas dialogaram com o público sobre suas trajetórias e conquistas.

Coordenado pela Rede Brasil do Pacto Global e realizado em conjunto com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e a ONU Mulheres, o projeto “Empoderando Refugiadas” encerrou sua segunda edição com 21 refugiadas contratadas por empresas no Brasil, e dezenas de outras treinadas e aconselhadas profissionalmente.

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Em uma sala de cinema e diante de plateia atenta, dez refugiadas de diferentes nacionalidades e que hoje vivem em São Paulo se emocionaram. Retratadas pelo documentário “Recomeços — sobre mulheres, refúgio e trabalho”, elas dialogaram com o público sobre suas trajetórias e conquistas, esbanjando força e perseverança.

“Mulheres refugiadas são guerreiras, pois não é fácil sair do seu país. Agora sou mais independente e tenho orgulho de mim mesma”, disse Aicha, sobre suas conquistas no mercado de trabalho brasileiro. “Deparar-se com tanta gente querendo ouvir sua história é gratificante. Obrigado por seu tempo”, agradeceu Lara.

“Estudo, trabalho e sustento minha família, e isso me faz crescer pessoalmente e intelectualmente”, atestou Lúcia, que acaba de conseguir seu primeiro emprego e frequenta a universidade.

Assertivas, as refugiadas encantaram o público durante o encerramento da segunda edição do projeto “Empoderando Refugiadas”, coordenado pela Rede Brasil do Pacto Global e realizado em conjunto com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e a ONU Mulheres. O evento aconteceu no Espaço Itaú de Cinema na terça-feira (29), em São Paulo.

Implementado em novembro de 2015, o projeto trouxe impactos positivos para a vida das 80 refugiadas que se envolveram nas duas últimas edições: 21 delas foram contratadas por diferentes empresas e outras abriram seus próprios negócios. Todas tiveram acesso gratuito a treinamentos oferecidos por empresas parceiras, sendo que 40 receberam aconselhamento profissional individualizado por meio de sessões de coaching.

“O Pacto Global da ONU é a maior iniciativa de sustentabilidade corporativa do mundo e tem a obrigação de influenciar as empresas sobre a questão dos refugiados, no momento em que vivemos a maior crise humanitária da história”, afirmou o secretário-executivo da Rede Brasil do Pacto Global, Carlo Pereira.

“Fizemos um trabalho maior em termos de coordenação e articulação. Nesse processo, nossos parceiros foram fundamentais para o projeto ter atingido resultados tão positivos”, salientou Vanessa Tarantini, coordenadora do GT de Direitos Humanos da Rede Brasil do Pacto Global.

“As mulheres refugiadas trazem com elas bagagem profissional, energia e uma força extraordinária para refazer suas vidas em outro país”, disse a representante do ACNUR no Brasil, Isabel Marquez. Para ela, o setor privado tem papel fundamental na resposta à crise de refugiados e “precisa olhar para estas mulheres não como vítimas, mas como pessoas que podem contribuir para o crescimento das empresas com seu talento, sonhos, tradições e riqueza cultural”.

Também presente na cerimônia, a gerente dos Princípios de Empoderamento das Mulheres da ONU Mulheres, Adriana Carvalho, afirmou que “o empreendedorismo é uma alternativa para as mulheres refugiadas e uma excelente oportunidade para as empresas comprometidas com esta causa, pois também ganham com suas habilidades”.

Sobre o projeto

Criado pelo grupo temático de Direitos Humanos e Trabalho da Rede Brasil do Pacto Global, o projeto reúne empresas interessadas em questões e soluções relacionadas ao tema do refúgio.

A iniciativa considera o trabalho uma condição fundamental para a independência financeira e uma vida digna, além de ser fator primordial para a integração das pessoas refugiadas à sociedade.

Segundo o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), cerca de 9,5 mil pessoas são reconhecidas como refugiadas no Brasil, de 82 nacionalidades. No ano passado, 32% das solicitações de refúgio foram feitas por mulheres.

O “Empoderando Refugiadas” age em duas frentes para aumentar o acesso das mulheres refugiadas ao emprego formal. A primeira é conscientizá-las sobre seus direitos e fornecer habilidades e ferramentas para a independência e empoderamento econômico.

Ao longo do projeto, elas participaram de encontros mensais sobre temas como planejamento financeiro e profissional; direitos de refugiadas, mulheres e trabalhadoras; habilidades práticas para melhorar o português; e empreendedorismo feminino.

A segunda frente diz respeito à conscientização e sensibilização das empresas sobre documentação e processos de contratação. Nesse sentido, uma cartilha com perguntas e respostas frequentes dos empregadores foi produzida e distribuída aos convidados do evento de terça-feira.

São parceiros estratégicos do projeto a Caritas Arquidiocesana de São Paulo, o Consulado da Mulher, a Fox Time Recursos Humanos, o ISAE, o Migraflix e o Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados (PARR). A segunda edição contou com a parceria das empresas Carrefour, EMDOC, Facebook, Lojas Renner e Sodexo.

Documentário

No documentário “Recomeços – sobre mulheres, refúgio e trabalho”, realizado por Fellipe Abreu e Thays Prado, as refugiadas refletem sobre os impactos do trabalho em suas relações familiares, sociais e em seu próprio entendimento dos papéis de gênero desempenhados por elas.

“Nossa intenção é mostrar que independente de qualquer aresta, as mulheres refugiadas são pessoas trabalhadoras, capacitadas, inovadoras, empreendedoras e que podem acrescentar muito à nossa sociedade”, defende Fellipe.

Para Thays Prado, narrativas como essa são capazes de mudar o mundo. “Quando damos voz a pessoas que geralmente são silenciadas, como é o caso das mulheres refugiadas, conseguimos perceber melhor as nossas semelhanças e acolher as diferenças”, comentou a roteirista. O documentário “Recomeços” está disponível no YouTube.

O encerramento da segunda edição teve um momento de interação entre refugiadas e representantes de empresas presentes, durante o qual foi oferecido um buffet de comida árabe preparado pelas refugiadas Salsabil e Razan – participantes do projeto e estrelas do documentário. Na recepção, estava Prudence, que participou da edição anterior. Tami, outra ex-participante, montou sua barraca de artesanato e vendeu produtos aos convidados.

A presença de empresas indica o interesse do setor privado no projeto. Algumas já possuem um histórico de contratações de refugiados, como o Carrefour, que desde 2013 tem incluído pessoas nessa condição em seu quadro de colaboradores.

Outras trataram do tema pela primeira vez. “Temos muito orgulho do nosso envolvimento com o projeto, pois fazemos uma diferença real na vida destas mulheres”, disse Djalma Scartezini, gerente de diversidade da Sodexo, que já contratou duas refugiadas por meio da iniciativa.

“Aprendemos como as mulheres refugiadas são fortes, capazes, criando oportunidades quando estão juntas”, avaliou Camila Fusco, diretora de empreendedorismo do Facebook para a América Latina. A empresa realizou um dos workshops, produziu e divulgou um vídeo sobre o projeto e orientou a criação de páginas para divulgar os negócios autônomos das refugiadas.

Para o presidente da EMDOC, João Marques, o projeto concretiza a responsabilidade social das empresas. Por meio do Programa de Apoio à Recolocação de Refugiados (PARR), a consultoria facilita o encaminhamento de currículos de refugiados e solicitantes de refúgio para empresas interessadas em sua contratação.

Isaura Morel, analista de responsabilidade social do Instituto Lojas Renner, acredita que o emprego proporcionado às mulheres refugiadas “traz autonomia, empoderamento e inclusão da maneira mais humana”. No total, cinco refugiadas trabalham nas empresas associadas à empresa.

Para a edição de 2018, Pacto Global, ACNUR e ONU Mulheres querem aumentar o número de participantes e de empresas parceiras. A ideia tem o apoio das refugiadas que participaram da segunda edição.

“Quero que as pessoas fiquem do nosso lado, para ajudar as refugiadas até a gente crescer”, disse Razan. “Abram suas portas e nos deem oportunidades, pois podemos agregar, unir culturas e ajudar as empresas a crescer”, afirmou Lara, refletindo a opinião das refugiadas empoderadas pelo projeto.


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