Professor do Sudão do Sul dedica sua vida para ensinar crianças refugiadas

Mesmo com turmas superlotadas – às vezes com até 100 crianças em uma sala – e livros insuficientes, o professor Koat Reath (41) utiliza a música para conseguir manter a atenção dos estudantes. A energia do professor muitas vezes é a mesma de seus alunos, que possuem entre cinco e 15 anos de idade.

A precariedade do acesso à educação nos campos de refugiados na Etiópia é uma das preocupações do chefe do escritório da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) em Gambella, Patrick Kawuma.

Apenas dois terços das crianças do Sudão do Sul que estão na Etiópia têm acesso à escola primária e a grande maioria – 86% – não frequenta o ensino médio. A reportagem é do ACNUR.

“Uso a música para que elas se divirtam e não se sintam entediadas”, Koat Reath, professor sul-sudanês do campo de refugiados Jewi, na Etiópia. Foto: ACNUR | Eduardo Soteras Jalil.

“Uso a música para que elas se divirtam e não se sintam entediadas”, Koat Reath, professor sul-sudanês do campo de refugiados Jewi, na Etiópia. Foto: ACNUR | Eduardo Soteras Jalil.

O coro das vozes das crianças vindas da sala de aula do professor Koat Reath aumenta cada vez mais, ameaçando atrapalhar outras aulas na escola primária onde trabalha, no campo de Jewi para refugiados do Sudão do Sul, localizado no oeste da Etiópia.

Com quase dez anos de experiência, o professor Koat captura a atenção dos alunos, batendo palmas e recitando o alfabeto em Nuer, sua língua nativa, seguindo com algumas frases cantadas em inglês. Ele acredita que as crianças aprendem melhor quando suas aulas são animadas e divertidas.

“Ensinar as crianças não é fácil. Uso a música para que elas se divirtam e não se sintam entediadas. É assim que transmito a minha mensagem”, explica Koat, cuja seriedade no rosto às vezes não faz jus ao seu entusiasmo pela educação.

Koat passou as férias de verão dando aulas extras a seus alunos, através de um projeto da Plan International e de outros parceiros do ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados. A iniciativa resgata o acesso das crianças à educação, comprometida em função dos conflitos no Sudão do Sul.

Sul-sudaneses reconstroem a vida na Etiópia

Assim como seus alunos, Koat também é vítima de uma guerra que fez com que mais de dois milhões de pessoas do Sudão do Sul se tornassem refugiados. Ele e sua família de cinco filhos fugiram para a Etiópia em 2015, depois que sua casa no estado de Jonglei foi totalmente destruída.

O conflito do Sudão do Sul teve um impacto particularmente devastador sobre as crianças. No campo de Jewi, que abriga 54 mil refugiados do Sudão do Sul, cerca de dois terços são crianças. Elas não apenas perderam suas casas e viram seus parentes mortos, mas anos de violência também os impediram de ter acesso à educação. Alguns nunca tiveram a chance de ir à escola e muitos desistiram.

Ciente da desvantagem que as crianças enfrentam, Koat e seus colegas estão determinados a fazer o possível para ajudar a diminuir este déficit educacional. “Estamos aqui hoje porque queremos ensinar nossos filhos a serem os campeões de amanhã. Se não estudarem, não terão sucesso. Se estudarem, poderão ser os futuros presidentes, os futuros médicos, os futuros pilotos do Sudão do Sul”, afirmou o professor.

Lutando pela educação de refugiados

No entanto, a escassez de salas de aula, professores qualificados e material didático são grandes obstáculos para que as crianças refugiadas do Sudão do Sul tenham acesso à educação. Enquanto os professores do Sudão do Sul trabalham para se adaptar ao currículo etíope, os alunos aprendem em sua língua nativa, o Nuer, e também em inglês.

Ao contrário de Koat, muitos dizem que os 805 birr (27 dólares americanos) que recebem mensalmente como incentivo para ensinar não são suficientes. Apesar dessas dificuldades, Koat permanece confiante.

À tarde, ele deixa seus alunos da escola primária e segue para uma escola improvisada, onde oferece aulas particulares a adultos por 10 birr cada (0,34 centavos de dólar americano) por mês.

Os estudantes se uniram para construir a escola, que tem paredes de palha e um teto de lona que vaza durante as chuvas. No seu interior há um ar silencioso de concentração, quando cerca de 20 adultos, incluindo um avô de 64 anos e uma jovem mãe com seu bebê em uma cesta, fazem anotações no quadro-negro.

Apesar de cansado pela sua dupla jornada, Koat não desiste. “Estou ensinando essas crianças a serem o futuro do Sudão do Sul. Eles mudarão as coisas ruins no Sudão do Sul”, avaliou.

O chefe do escritório do ACNUR em Gambella, Etiópia, Patrick Kawuma, se preocupa com o futuro de jovens do Sudão do Sul que estão crescendo sem acesso à educação.

Kawuma explica que muitos jovens estão ociosos e podem ser facilmente explorados por qualquer grupo interessado. “A maior necessidade dessas crianças é a educação, não há dúvida sobre isso”, concluiu.