Prática do jiu-jitsu une jovens brasileiros e venezuelanos em Pacaraima (RR)

Pontualmente às seis da tarde os alunos do professor Tigrão já estão posicionados para começar mais uma aula de jiu-jitsu na pequena cidade de Pacaraima (RR), que faz fronteira com a Venezuela. O projeto Jiu-Jitsu Anjos do Esporte conta com a participação de mais de 25 refugiados e migrantes venezuelanos do total de 65 alunos. A iniciativa tem apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Este slideshow necessita de JavaScript.

Pontualmente às seis da tarde os alunos do professor Tigrão já estão posicionados para começar mais uma aula de jiu-jitsu na pequena cidade de Pacaraima (RR), que faz fronteira com a Venezuela. O projeto Jiu-Jitsu Anjos do Esporte conta com a participação de mais de 25 refugiados e migrantes venezuelanos do total de 65 alunos.

O projeto existe há nove anos e por estar em uma cidade fronteiriça sempre contou com a presença de alunos venezuelanos.

Com o agravamento da situação no país vizinho e a consequente intensificação do fluxo de pessoas em busca de proteção internacional no Brasil, Pacaraima acabou se tornando o destino ou mesmo a passagem de muitos venezuelanos.

Até novembro de 2019, mais de 224 mil venezuelanos entraram no Brasil, sendo que 119 mil deles são solicitantes da condição de refugiado.

Diante desta circunstância, o professor Elke Junior, mais conhecido como Tigrão, enxergou no esporte uma forma de poder contribuir para o convívio social de algumas das milhares de crianças e jovens que atualmente residem em Pacaraima.

“O esporte não é só entretenimento ou atividade física. O esporte é educação de todas as faculdades do ser humano”, enfatiza Tigrão.

Para o professor, apaixonado por seu ofício, “o jiu-jitsu trabalha a disciplina, respeito e companheirismo, e em um contexto onde duas nacionalidades se misturam, isso é essencial para se desenvolver uma convivência respeitosa e pacífica”.

O projeto é oferecido gratuitamente para os alunos, que devem estar comprometidos com a frequência, pontualidade e bons resultados – tanto no jiu-jitsu quanto na escola. O próprio professor é quem busca recursos para manter a escolinha acessível aos alunos e alunas com menos recursos financeiros.

Para auxiliar o projeto, o ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) doou quimonos (traje das lutas marciais) e bebedouros com o apoio financeiro da União Europeia, que investe no fortalecimento da resposta aos venezuelanos na região Norte do Brasil com projetos que promovem a proteção de populações em maior situação de vulnerabilidade e a convivência pacífica com a comunidade de acolhida.

A troca de experiências entre os alunos ajuda a romper barreiras que possam ter sido formadas pelo desconhecimento da situação do outro. O jovem venezuelano Jhosniel Campos, de 15 anos, veio para o Brasil há quase um ano com sua família de cinco pessoas.

Fugindo da situação em que se encontrava na Venezuela, Jhosniel afirma que “estar aqui me ajuda a não ficar pensando muito no futuro, além de aprender um pouco mais de português durante as aulas”.

Jhosniel ainda tem que ir todos os dias de Pacaraima para a cidade vizinha na Venezuela, Santa Elena Uairén, para continuar seus estudos – um percurso de 17 km. “Ainda preciso fazer esse caminho, mas ano que vem já estarei estudando aqui em Pacaraima”, afirma o jovem.

A adolescente brasileira Adileide Lopes, de 12 anos, participa do projeto há mais de dois anos e acompanhou a crescente chegada dos novos alunos venezuelanos. “No começo, ficamos meio receosos de como seria praticar junto com eles. Não entendíamos porque eles estavam vindo para o nosso país, nem como era a sua cultura. Mas em poucos meses nos tornamos amigos”, lembra.

O professor explica que as crianças refugiadas venezuelanas chegam muito tímidas por conta do idioma e da situação que elas se encontram. Iniciativas como essas ajudam a diminuir as desavenças e as diferenças já que por meio do esporte, todos conseguem se comunicar em uma mesma língua.

“Acreditamos que o esporte é um ótimo vetor para quebrar barreiras entre as duas populações e promover uma convivência pacífica” afirma o chefe do escritório do ACNUR em Pacaraima, Rafael Levy.

“Durante as aulas, não só as crianças, mas as famílias acabam se conhecendo e convivendo em um ambiente seguro. Essa troca que é facilitada pelo esporte se espalha para as outras esferas da vida e da comunidade”, complementa.

As autoridades brasileiras estimam que cerca de 224 mil venezuelanos vivem atualmente no país. Uma média de 500 venezuelanos continua a atravessar fronteira com o Brasil todos os dias, tendo em Pacaraima a principal fronteira de entrada da população que busca proteção e garantia de seus direitos.