Posicionamento da diretora-geral da UNESCO sobre a Cidade Velha de Jerusalém e seus Muros

Diretora-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) emite posicionamento sobre a Cidade Velha de Jerusalém e seus Muros.

Em Jerusalém Oriental, forças de segurança israelenses armadas invadiram hospital na semana passada. Foto: WikiCommons / Berthold Werner

Vista de Jerusalém. Foto: WikiCommons / Berthold Werner

Leia abaixo comunicado da diretora-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) sobre a Cidade Velha de Jerusalém e seus Muros:

“Como eu já declarei em diversas situações e mais recentemente durante a 40ª Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, Jerusalém é a cidade sagrada para as três religiões monoteístas – o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. É em reconhecimento a sua excepcional diversidade e sua coexistência cultural e religiosa, que o sítio foi inscrito na Lista do Patrimônio Mundial.

O patrimônio em Jerusalém é indivisível e cada uma de suas comunidades tem direito ao reconhecimento explícito de suas histórias e relações com a cidade. Negar, esconder ou apagar qualquer uma das tradições judaicas, cristãs ou muçulmanas minam a integridade do sítio e contraria os motivos que justificaram sua inscrição na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO.

Mais que em qualquer outro lugar, é em Jerusalém que o patrimônio e as tradições judaicas, cristãs e muçulmanas compartilham espaço e se entrelaçam ao ponto de se apoiarem mutuamente. Estas tradições culturais e espirituais embasadas em textos e referências conhecidos por todos são uma parte intrínseca das identidades e história dos povos. Na Torá, Jerusalém é a capital do Rei Davi, onde Salomão construiu seu templo e alocou a Arca da Aliança. Na Bíblia, Jerusalém é a cidade da paixão e ressurreição de Jesus Cristo. No Corão, Jerusalém é o terceiro local mais sagrado para o Islã, onde Maomé chegou após sua jornada de Al Haram Mosq (Meca) para Al Aqsa.

Neste microcosmo da diversidade espiritual da humanidade, diferentes povos cultuam os mesmos locais, às vezes sob diferentes nomes. O reconhecimento, a utilização e o respeito a esses diferentes nomes é primordial. A mesquita Al Aqsa/ Al-Haram al-Sharif, o santuário sagrado para os muçulmanos, também é o Har Habayit — ou Monte do Templo —, cujo o Muro Ocidental é o local mais sagrado no Judaísmo, a poucos passos de distância do Santo Sepulcro e dos Montes de Oliveiras reverenciados pelos cristãos.

O grande valor universal da cidade e a razão pela qual está inscrita na Lista de Patrimônio Mundial da UNESCO está situada nessa síntese, que é um apelo ao diálogo, não ao confronto. Nós temos uma responsabilidade coletiva de fortalecer essa coexistência cultural e religiosa, pelo poder das ações, mas também pelo poder das palavras. Este posicionamento busca, mais do que nunca, abrandar essas divisões que afetam o caráter plural da Cidade Velha.

Quando essas divisões ocorrem dentro da UNESCO, uma organização dedicada ao diálogo e à paz, elas nos impedem de cumprir nossa missão. A responsabilidade da UNESCO é promover este espírito de tolerância e respeito à história, e esta é minha determinação diária absoluta enquanto diretora-geral, junto com todos os Estados-membros. Estou comprometida com isso sob todas as circunstâncias, porque essa é a nossa razão de ser – recordar que nós somos uma única humanidade e que a tolerância é o único caminho a seguir em um mundo de diversidades.”