Política inclusiva ajuda crianças refugiadas afegãs a continuar estudos no Irã

Graças ao governo do Irã e à Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), a afegã Parisa, de 16 anos, passou a ter uma educação adequada com a abertura da Escola Primária Vahdat. Seus colegas de escola incluem outras 140 crianças afegãs e 160 iranianos da comunidade local, todos estudando lado a lado.

Cerca de 480 mil crianças afegãs que vivem no Irã estão se beneficiando dessas políticas de educação inclusiva, das quais 130 mil são afegãs sem documentos, como Parisa. Somente em 2019, 60 mil novos estudantes afegãos encontraram um lugar em salas de aula no Irã.

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Quando a campainha toca para anunciar o início do dia, um grupo de meninas cruza os portões da Escola Primária Vahdat, na antiga cidade persa de Esfahan, no Irã. Com as mochilas nas costas, as estudantes param em frente ao prédio principal e se amontoam na fila para a reunião matinal.

No final da fila, Parisa, de 16 anos, é a aluna mais velha da turma da sexta série. As outras meninas têm em média 12 anos. Ela está ansiosa para o início das aulas.

“Amo muito a escola”, diz, segurando os livros contra o peito. “Minha matéria favorita é matemática, porque a matemática está em todo lugar. Adoro multiplicação e divisão – são muito fáceis.”

Parisa e sua família fugiram do Afeganistão há 10 anos, depois que o Talibã aterrorizou seu bairro em Herat e ameaçou sequestrar meninas que frequentavam a escola.

Nos últimos 40 anos, cerca de 3 milhões de afegãos buscaram segurança no Irã. Quase 1 milhão são registrados como refugiados, enquanto cerca de 2 milhões permanecem sem documentos. Outros 450 mil portadores de passaporte afegão vivem no Irã para trabalhar ou concluir seus estudos.

“Se você saísse para comprar algo, não havia garantia de que voltaria”, lembra Besmellah, de 67 anos, pai de Parisa. “Então eles começaram a plantar minas nos pátios das escolas. Não tivemos outra escolha senão vir para cá.”

No Irã, Parisa e seus seis irmãos estavam seguros, mas durante seus primeiros anos no exílio, ela não pôde ir à escola, uma vez que a família mal tinha o suficiente para viver, muito menos para cobrir os custos educacionais.

Para ajudar com as despesas domésticas da família, o irmão de Parisa abandonou a escola aos 15 anos e começou a trabalhar com o pai na construção civil. Com esse dinheiro extra, Parisa conseguiu, aos 11 anos, pôr os pés em uma sala de aula pela primeira vez.

A escola era improvisada, em um prédio apertado com apenas duas salas. As aulas eram organizadas em dois turnos para acomodar o maior número possível de crianças. Sem professores qualificados e sem uma grade curricular adequada, os alunos aprenderam apenas o básico.

Refugiados registrados no Irã podiam frequentar escolas formais, mas afegãos, como Parisa, que fugiram de conflitos mas não conseguiram obter o status de refugiados, só podiam frequentar centros informais de aprendizado.

A sorte mudou em 2015, quando o Irã aprovou uma lei que permite que todas as crianças afegãs, independentemente de sua condição ou status de refúgio, frequentem escolas públicas.

Graças ao governo do Irã e à Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), Parisa sentiu o gosto de uma educação adequada com a abertura da Escola Primária Vahdat. Seus colegas de escola incluem outras 140 crianças afegãs e 160 iranianos da comunidade local, todos estudando lado a lado.

Cerca de 480 mil crianças afegãs que vivem no Irã estão se beneficiando dessas políticas de educação inclusiva, das quais 130 mil são afegãs sem documentos, como Parisa. Somente em 2019, 60 mil novos estudantes afegãos encontraram um lugar em salas de aula no Irã.

“Estou muito feliz por poder estudar lado a lado com colegas iranianos. As pessoas não dizem mais: ‘Ah, você é afegã’”, diz.

Parisa sonha em retornar ao Afeganistão para compartilhar seu amor pelos estudos com as crianças de lá. “Se eu me tornar professora, ficarei muito feliz”, afirma. “Quero ensinar crianças em minha cidade natal no Afeganistão, já que elas não conseguem seguir com os estudos”.

Mas ela sabe que seu futuro é incerto. “Às vezes eu penso… e se eu não puder ir à escola por causa da nossa situação financeira?”, questiona, enquanto pensa na possibilidade de não continuar seus estudos, o que traz lágrimas aos seus olhos.

Os refugiados estão isentos das mensalidades escolares no Irã, mas outros custos associados à educação, incluindo material escolar, ainda pesam muito no orçamento das famílias.

Em meio aos desafios econômicos decorrentes das sanções ao país, as necessidades de pessoas vulneráveis – entre elas refugiados e iranianos – estão aumentando. Em apenas um ano, o preço dos bens e serviços básicos disparou, dificultando o acesso das famílias a itens alimentares, moradia e transporte.

O ACNUR demonstra preocupação com o fato de que qualquer deterioração adicional na economia do Irã possa enfraquecer a capacidade do governo, do ACNUR e de seus parceiros de continuar oferecendo educação às crianças afegãs.

Para manter essas oportunidades no Irã e desenvolvê-las em outros países anfitriões, o ACNUR estimulou doadores e parceiros a se comprometerem em apoiar esforços humanitários no primeiro Fórum Global sobre Refugiados, realizado nos dias 17 e 18 de dezembro em Genebra, Suíça.

“Enquanto puder trabalhar, farei tudo para que minhas filhas possam ir à escola, mas está ficando cada vez mais difícil”, diz Besmellah, cujo único desejo é ver suas filhas terem sucesso. “Minha esposa e eu nos sentimos incapacitados por nossa falta de educação. Não queremos que o mesmo aconteça com elas.”