Política e saúde são indissociáveis, concordam palestrantes em Conferência sobre Saúde

No segundo dia da Conferência Mundial sobre Determinantes Sociais da Saúde, no Rio, a relação entre política, sociedade civil e saúde é ressaltada. O Brasil ganha visibilidade.

Painel sobre o 'O Papel do Setor Saúde, Incluindo os Programas de Saúde Pública, na Redução das Iniquidades em Saúde'

No segundo dia da Conferência Mundial sobre Determinantes Sociais da Saúde, no Rio, a relação entre política, sociedade civil e saúde é ressaltada. O Brasil ganha visibilidade.

“Medicina é uma ciência social. E política nada mais é que uma medicina em grande escala.” As palavras inaugurais da pesquisadora suíça, Ilona Kickbusch, indicaram as principais questões debatidas na última quinta-feira (20/10) segundo dia da Conferência Mundial sobre Determinantes Sociais da Saúde organizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em parceira com o Governo Federal brasileiro. Os painéis “O Papel do Setor da Saúde, incluindo os programas de Saúde Pública, na redução das iniquidades em saúde” e “Integrando novos enfoques para a participação” ressaltaram a estreita ligação entre política e saúde. Segundo os participantes, num mundo marcado por transformações geopolíticas, a sociedade civil deve ter maior relevância na tomada de decisões sobre o assunto.

O Brasil foi um dos principais casos debatidos no painel “O Papel do Setor Saúde, Incluindo os Programas de Saúde Pública, na Redução das Iniquidades em Saúde”. Tendo como pano de fundo o Sistema Único de Saúde (SUS), o Ministro da Saúde Alexandre Padilha defendeu que o país está num considerável progresso rumo ao acesso universal à saúde, apesar de reconhecer a necessidade de melhorias, principalmente no que diz respeito às desigualdades regionais. Na atual política do ministério, a prioridade é manter o caráter público da saúde, enquanto o mercado privado deve servir de apoio ao governo na aquisição de remédios e equipamentos.

Ouça entrevista com o Ministro da Saúde Alexandre Padilha:

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O caso brasileiro serviu de exemplo para uma reflexão sobre como o desenvolvimento econômico dos BRICS está ligado ao fortalecimento de políticas de saúde. “A reestruturação do país passa pela educação e saúde. Isso é difícil e caro”, ressaltou a Diretora-Geral da OMS, Margaret Chan.

Se por um lado os países emergentes vivem um momento de ascensão, a crise econômica atinge países que sempre foram exemplos de seguridade social – surgindo dilemas de possíveis cortes nos gastos. No entanto, o Ministro de Estado da Saúde do Reino Unido, Simon Burns, ressaltou que isso não pode ser visto como motivo para enfraquecer o setor. Para o britânico, os Estados devem reafirmar suas políticas no combate às desigualdades ainda existentes. “Nós vamos continuar a aumentar os investimentos mesmo com problemas econômicos. No Reino Unido, também queremos cada vez mais deixar o assunto na mão de especialistas, e não de políticos.”

O Ministro da Saúde do Brasil, Alexandre Padilha, ao lado da Presidente da Heartlife (Paquistão), Sania Nishtar.

A Presidente da Heartlife (Paquistão), Sania Nishtar, completou afirmando que, apesar de reconhecer o papel central do governo no setor, a instabilidade regional e as constantes pressões políticas sobre o fundo estatal fazem do fundo privado uma importante fonte de financiamento. “No Paquistão temos uma forte cultura de filantropia, além de uma necessidade de abordar falhas no sistema público”. As conversas foram moderadas pela professora da Universidade do Chile, Jeanette Vega.

‘Decisões não podem ficar restritas a políticos’

Na conclusão do painel “Integrando novos enfoques para a participação”, liderada pelo Diretor Executivo do escritório central do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS), o brasileiro Luiz Loures, os participantes concordaram que as decisões não podem ficar restritas a políticos. A importância da sociedade civil no processo de construção da Declaração do Rio, documento final da Conferência que dará as diretrizes que deverão ser seguidas na saúde, precisa escutar também os anseios da população. “Não podemos ter apenas políticos que definam termologias”, analisou a Coordenadora da Equinet, Rene Loewenson. “As pessoas comuns precisam estar no centro do governo”, complementou a Coordenadora Global do Movimento para Saúde dos Povos, Bridget Lloyd.

Ouça entrevista com Luiz Loures (UNAIDS):

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Diretor Executivo do escritório central do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS), o brasileiro Luiz Loures

Os outros participantes do painel – a Ministra da Saúde da Bolívia, Nila Heredia, e o Ministro da Saúde de Cuba, Roberto Morales Ojeda – concordaram ao afirmar que os povos têm uma capacidade sobretudo local de transformar as políticas de saúde. “As comunidades tiveram um importante papel no combate à desnutrição infantil na Bolívia”, comentou Heredia. Eles defenderam uma estrutura descentralizada, em que as forças municipais, nacionais e globais hajam de forma conjunta na esfera política. “A população é o melhor segmento social para propor soluções”, reconheceu Roberto Morales Ojeda.

No painel 'Integrando Novos Enfoques para a Participação': Nila Heredia, Roberto Morales Ojeda, Bridget Lloyd, Rene Loewenson e, com a palavra, Luiz Loures.

Ao final do debate, jovens da ONG Visão Mundial criticaram a exclusão de conversas mais profundas sobre o papel do jovem e seus problemas enfrentados. Entre estes, estava a droga e a falta oferta de serviços de saúde para crianças e adolescentes. “Saúde não pode ser vista como gasto, mas sim investimento”, argumentou um integrante do grupo.