Poder econômico está estreitamente ligado à cor da pele, afirma vencedor do Oscar Alfonso Cuarón

Em entrevista à ONU, o cineasta mexicano Alfonso Cuarón, vencedor do Oscar desse ano nas categorias Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Filme Estrangeiro por Roma (2018), afirmou que os povos indígenas estão entre os grupos menos privilegiados de seu país de origem.

O filme que lhe rendeu o reconhecimento da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood aborda a marginalização das mulheres indígenas no México, representadas pela protagonista Cleo, uma empregada doméstica numa casa de classe média.

Still de 'Roma', do diretor Alfonso Cuarón, em que é possível ver a protagonista Cleo, interpretada pela indicada ao Oscar de Melhor Atriz, Yalitza Aparicio. Imagem: Alfonso Cuarón

Still de ‘Roma’, do diretor Alfonso Cuarón, em que é possível ver a protagonista Cleo, interpretada pela indicada ao Oscar de Melhor Atriz, Yalitza Aparicio. Imagem: Alfonso Cuarón

Em entrevista à ONU, o cineasta mexicano Alfonso Cuarón, vencedor do Oscar desse ano nas categorias Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Filme Estrangeiro por Roma (2018), afirmou que os povos indígenas estão entre os grupos menos privilegiados de seu país de origem. O filme que lhe rendeu o reconhecimento da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood aborda a marginalização das mulheres indígenas no México, representadas pela protagonista Cleo, uma empregada doméstica numa casa de classe média.

Para o diretor, o filme despertou um debate sobre o racismo que persiste no México, um problema “ignorado por tempo demais”. Na visão de Cuarón, essa discriminação não foi apenas ignorada, mas teve a sua própria existência negada. Outro tabu para a sociedade mexicana, aponta o cineasta, é a relação entre o trabalho doméstico e os direitos dos povos indígenas.

A personagem Cleo é do povo Mixteca, uma comunidade indígena encontrada nos estados mexicanos de Guerrero, Oaxaca e Puebla. A protagonista trabalha para uma família de classe média no bairro de Roma, na Cidade do México. O filme é ambientado no início dos anos 1970 e explora também a preservação dos costumes e idioma indígenas, como o Mixtec, falado por Cleo.

“Não é difícil notar que o poder econômico está estreitamente ligado à cor da pele, e os povos indígenas são os que normalmente acabam tendo o menor privilégio (no México)”, afirmou Cuarón.

A empregada doméstica foi interpretada pela também indígena Yalitza Aparicio, indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Roma foi o primeiro filme de Yalitza, cuja indicação à premiação foi descrita por Cuarón como uma das mais relevantes de todas as dez recebidas pelo longa-metragem.

Sobre o uso das línguas indígenas pelos povos originários, Cuarón lamentou que a prática é “muito reprimida”. O diretor lembra que Cleo e sua colega de trabalho Adela só falam em idioma indígena quando estão nos seus “próprios espaços”, como a cozinha ou o quarto, ou quando estão com a menina da família, que é depreciada e ignorada pela parte masculina dos parentes.

Em 2019, a ONU comemora o Ano Internacional das Línguas Indígenas.

Além dos direitos dos povos indígenas, outros temas que estão no centro do trabalho da ONU também conquistaram a Academia.

Green Book — O Guia, ganhador do Oscar de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Ator Coadjuvante pela performance de Mahershala Ali, e Infiltrado na Klan, vencedor por Melhor Roteiro Adaptado, aborda o racismo nos Estados Unidos dos anos 1960 e 1970.

Capharnaum, indicado a Melhor Filme Estrangeiro, discute os desafios vividos por crianças pobres e refugiadas no Líbano. O filme, da cineasta libanesa Nadine Labaki, acompanha o jovem Zain, um menino sem documentos que mora em um dos bairros mais miseráveis de Beirute. Em vez de ir à escola, o garoto precisa trabalhar para sustentar sua família. A criança decide então processar os pais na justiça por terem trazido-o ao mundo, exigindo que as autoridades proíbam a mãe e o pai de terem mais filhos. A obra discute problemas compartilhados por libaneses e estrangeiros — trabalho infantil, casamento precoce e apatridia.

O foco em injustiças e desigualdades sociais no mundo do cinema vem pouco após o aniversário de 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada em 1948.

Nadine Labaki: o dever de documentar

Também em entrevista à ONU, a diretora de Capharnaum Nadine Labaki contou que tinha o “dever” de registrar a crise de refugiados no Líbano. O país, que enfrenta desafios econômicos e políticos próprios, abriga hoje quase 1 milhão de sírios. O protagonista Zain é interpretado pelo ator não profissional de mesmo nome, que é da Síria, mas interpreta um libanês no filme.

“Na verdade, fico surpresa quando as pessoas me perguntam (o que me levou a fazer esse filme) porque eu acho que, se posso fazer algo a respeito e posso usar a minha voz para fazer alguma coisa em relação a isso, seria um crime não fazer isso”, afirmou a diretora.

A cineasta e atriz libanesa Nadine Labaki (à esquerda) ao lado da atriz australiana Cate Blanchett (à direita) durante exibição de 'Capharnaum' em Londres, no Reino Unido. Blanchett é embaixadora da Boa Vontade da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Foto: ACNUR/Tom Pilston

A cineasta e atriz libanesa Nadine Labaki (à esquerda) ao lado da atriz australiana Cate Blanchett (à direita) durante exibição de ‘Capharnaum’ em Londres, no Reino Unido. Blanchett é embaixadora da Boa Vontade da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Foto: ACNUR/Tom Pilston

“Então eu decidi usar a minha ferramenta, que é o cinema, para contar aquela história, para colocar aquela história no mundo e falar sobre essa luta porque é minha responsabilidade.”

Nadine explica que foi proposital a escolha de contar a história pela perspectiva de uma criança. Segundo a diretora, uma criança “vê as coisas muito mais claramente do que qualquer adulto porque ela não foi informada ou alterada pelos códigos ou pela hipocrisia ou política da sociedade”.

A artista lembra de ver a foto do menino sírio Alan Kurdi — encontrado morto numa praia da Turquia em setembro de 2015 — e se perguntar: “E se essa criança pudesse falar, o que ela diria? O que ela diria ao mundo? Como ela iria se dirigir aos adultos que a colocaram nessa situação?”

Nadine conta ainda que o intérprete mirim Zain enfrentou circunstâncias de vida muito difíceis no Líbano enquanto refugiado vivendo longe do seu país de origem. O garoto nunca frequentou uma escola. A única diferença em relação ao filme, diz a cineasta, é que o Zain verdadeiro tem “pais amorosos”.

Desde que o filme foi feito, Zain foi reassentado para a Noruega, onde vive atualmente. A transferência foi possível por meio dos esforços da Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).


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