Podemos mudar a maré em favor da igualdade de gênero, diz diretora-executiva da ONU Mulheres

Em artigo, a diretora-executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, afirma que a COVID-19 está afetando mais as mulheres. Elas formam a maior parte das tropas da linha de frente na guerra contra a pandemia do coronavírus, porque cuidam de pessoas doentes, idosas, famílias e crianças.

Phumzile Mlambo-Ngcuka faz um alerta: “não devemos sair desta crise sem as lições aprendidas. Pedimos às lideranças que apliquem a perspectiva de gênero para reduzir as desigualdades existentes em nossas sociedades, à medida que implementam medidas de curto e longo prazo para combater o impacto econômico e social da COVID-19”. Leia o artigo na íntegra.

Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora-executiva da ONU Mulheres. Foto: ONU/Rick Bajornas

* Por Phumzile Mlambo-Ngcuka

Em um mundo desigual, uma crise de saúde como a que enfrentamos hoje fere desproporcionalmente as mulheres. Chamamos as lideranças a agir agora para incluir fortes dimensões de gênero na resposta.

Olhe em volta e verá que as mulheres formam a maior parte das tropas da linha de frente na guerra contra a pandemia da COVID-19. Elas cuidam de pessoas doentes, idosas, famílias e crianças. Globalmente, as mulheres compõem 70% da equipe médica e de apoio e 85% das enfermeiras em hospitais, e metade dos médicos nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento do Comércio) são mulheres. As mulheres estão salvando milhões de vidas enquanto se expõem a um maior risco de infecção. Além disso, 90% das atividades de assistência a longo prazo e até 10 vezes mais trabalho doméstico não-remunerado são realizadas por mulheres em todo o mundo.

Com o fechamento de escolas e creches, a crise da COVID-19 apenas ampliará a pressão dos cuidados não-remunerados e do trabalho doméstico sobre as mulheres. No entanto, essas contribuições essenciais, muitas vezes, passam despercebidas e não são recompensadas, o que significa que as mulheres podem acabar sofrendo mais enquanto salvam o mundo.

Saúde, questões sociais e econômicas estão interconectadas. As mulheres estão potencialmente mais expostas a dificuldades materiais associadas às consequências econômicas da COVID-19. Prevê-se um aumento significativo no desemprego e subemprego globalmente. Muitas mulheres – 740 milhões das quais trabalham na economia informal com empregos que oferecem pouca ou nenhuma proteção social – agora enfrentam grave insegurança econômica e poucas opções.

No México, por exemplo, 99% da maioria das trabalhadoras domésticas do país não estão vinculadas em nenhum programa de seguridade social. Algumas indústrias, como a indústria de confecção de roupas em Bangladesh, onde as mulheres constituem 85% da força de trabalho, também serão atingidas com rapidez e força por esses múltiplos choques com maior risco de perda de emprego. A situação é ainda mais angustiante para as mulheres idosas, pois existe o dobro de mulheres com mais de 65 anos e que vivem sozinhas nos países do G20, muitas vezes sem uma pensão adequada.

A mensagem é simples. A COVID-19 está afetando todo mundo, mas está afetando mais as mulheres. As respostas precisam considerar esse impacto assimétrico. Caso contrário, corremos o risco de cometer o mesmo erro que cometemos na crise financeira de 2008, quando a nossa resposta não se concentrou nas pessoas mais vulneráveis ​​de nossa sociedade; pessoas como as mães solteiras que terão maior risco de cair abaixo da linha de pobreza após o parto.

Veja a situação das pequenas e médias empresas. Essas empresas estão sofrendo e precisam de suporte econômico, mas as empresas chefiadas por mulheres têm menos capacidade financeira para lidar com a crise e obter autofinanciamento.

A resposta da COVID-19 precisa ouvir as preocupações e ideias das mulheres. Mesmo com a sua alta representação no setor da saúde, as mulheres são extremamente sub-representadas em posições de liderança.

Além disso, as políticas de confinamento para conter a pandemia também estão exacerbando a violência de gênero. Mesmo em tempos normais, é inaceitável a alta taxa de uma em cada três mulheres no mundo sofre violência doméstica e 38% de todos os assassinatos de mulheres são cometidos por seus parceiros. Com o confinamento, vimos um aumento de mais de 30% nas chamadas para as linhas de apoio em alguns países, à medida que os bloqueios para 4 bilhões de pessoas aumentam a pressão. No entanto, isso provavelmente é apenas a ponta do iceberg, já que, em média, globalmente, menos de 40% das mulheres que sofrem violência buscam ajuda de qualquer tipo ou denunciam o crime. A violência contra as mulheres já era uma epidemia assustadora e onerosa em todas as sociedades, estimada em 1,5 trilhão de dólares. Espera-se que esse número aumente agora à medida que os casos aumentem, e continue após a pandemia, criando um impacto em cascata em nossa economia.

A pandemia abalou as nossas economias e sociedades e mostrou o que precisa mudar. Não devemos sair desta crise sem as lições aprendidas. Antes, devemos ver isso como uma oportunidade para corrigir a situação desigual com a qual as mulheres vivem há décadas. Pedimos às lideranças que apliquem a perspectiva de gênero para reduzir as desigualdades existentes em nossas sociedades, à medida que implementam medidas de curto e longo prazo para combater o impacto econômico e social da COVID-19.

*Por Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora-executiva da ONU Mulheres e chefe de gabinete da OCDE e Sherpa para o G20 Gabriela Ilian Ramos.