PNUD aponta para falta de conhecimento do público sobre apoio do Brasil a nações mais pobres

Pesquisas coletadas pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) indicam que há pouca comunicação do governo sobre a cooperação internacional do Brasil. No entanto, a maior parte da população brasileira é favorável ao engajamento do país em ações de assistência.

O Centro de Excelência contra a Fome apoia países africanos a reproduzir iniciativas brasileiras de alimentação escolar. Na imagem, criança se alimenta em centro do Programa Mundial de Alimentos na Região das Nações, Nacionalidades e Povos do Sul (SNNPRS), na Etiópia. Foto: PMA/Silvanus Okumu

O Centro de Excelência contra a Fome, mantido pela ONU e pelo Brasil, apoia países africanos e asiáticas a reproduzir iniciativas brasileiras de alimentação escolar. Na imagem, criança se alimenta em centro do Programa Mundial de Alimentos na Região das Nações, Nacionalidades e Povos do Sul (SNNPRS), na Etiópia. Foto: PMA/Silvanus Okumu

Em relatório sobre como países podem melhorar a divulgação de suas atividades de cooperação internacional junto ao público nacional, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) avalia que muitos brasileiros desconhecem os projetos do Brasil para ajudar países mais pobres. Pesquisas coletadas pela agência da ONU indicam que há pouca comunicação do governo sobre o tema. No entanto, a maior parte da população brasileira é favorável ao engajamento do país em ações de assistência.

Um levantamento do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), lembrado pelo programa da ONU, revelou em 2011 que 92,5% dos brasileiros “informados e interessados” consideravam o auxílio aos mais pobres em outros países “muito importante”. Entre os entrevistados “pouco informados e desinteressados”, a taxa era de 81,5%.

Elaborado pelo escritório do PNUD na China, o relatório das Nações Unidas recupera análises sobre a cooperação internacional do Brasil e de outros países, incluindo China, Índia, Turquia, Holanda, Reino Unido, Coreia do Sul e África do Sul. O organismo internacional também realizou entrevistas com organizações não governamentais e instituições que atuam na área.

O diagnóstico do PNUD revela que a comunicação governamental limitada sobre a atuação do Brasil contrapõe-se à cobertura da mídia comercial, que dá espaço para o tema, mas se concentra sobretudo nas intervenções humanitárias, como no Haiti.

Outra preocupação dos meios de comunicação são os tipos de governo e regimes políticos apoiados pelo país sul-americano, alguns deles taxados de corruptos e não democráticos. Veículos também questionam o gasto de dinheiro público em outras nações quando, no Brasil, ainda perduram problemas de desenvolvimento.

Apesar dos desafios de comunicação, o PNUD avalia que a “atmosfera geral” é de apoio ao envolvimento do Brasil com iniciativas de assistência para o desenvolvimento. Entre os valores que sustentam essa visão positiva, está uma cultura de solidariedade e respeito mútuo por outras nações.

No campo diplomático, a cooperação internacional do país também visa a impulsionar reformas no sistema de governança global, angariando suporte para o papel desempenhado pelo Estado brasileiro.

A agência das Nações Unidas identificou, entre as instituições que trabalham na área, uma percepção de que a cooperação para o desenvolvimento é parte da política externa brasileira — o que gera certa resistência à ideia de que as ações do país na área devam ser abertas ao debate público doméstico. Segundo o PNUD, parece haver pouco interesse em discutir a abordagem e as atividades brasileiras.

Atualmente, o Brasil não possui uma estrutura institucional dedicada à divulgação de suas estratégias de cooperação junto à população brasileira. Cada organização lida individualmente com a comunicação de suas atividades.

O PNUD lembra os esforços da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), que mantém um site de fácil acesso e com informações detalhadas, embora nem sempre atualizadas, sobre seus projetos e sobre onde e por que investe recursos. Apesar da iniciativa, a ABC ficou em 56º lugar no ranking Índice de Transparência da Assistência de 2013, que avaliou 72 países. Em 2012, a instituição havia conseguido uma classificação melhor — 49ª posição.

Na avaliação do organismo da ONU, as estratégias de comunicação da ABC se concentram mais em relatar e notificar por meio da compilação de dados, do que em educar e engajar o público.

Outra iniciativa do Brasil foi a publicação dos relatórios sobre a Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento Internacional (COBRADI) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Contudo, aponta o PNUD, documentos carecem de dados mais específicos e desagregados.

O relatório da ONU indica que a falta de detalhamento pode ser fruto da dificuldade em obter informações confiáveis, mas também pode ser interpretada como resultado de uma decisão estratégica — segundo alguns especialistas, o governo brasileiro não estaria pronto ou disposto a colocar sua política externa sob a avaliação do público geral.

Acesse a pesquisa do PNUD na íntegra clicando aqui (em inglês).