Pianista João Carlos Martins apresenta-se para refugiados e migrantes em Roraima

Conhecido mundialmente no circuito de música erudita, o maestro e pianista brasileiro João Carlos Martins usou mais uma vez a música para romper barreiras e unir nações.

Em uma recente visita a Roraima, ele levou inspiração às famílias que vivem no abrigo temporário para refugiados e migrantes venezuelanos Rondon 3, o maior abrigo para esta população na América Latina. Leia o relato da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

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Conhecido mundialmente no circuito de música erudita, o maestro e pianista brasileiro João Carlos Martins usou mais uma vez a música para romper barreiras e unir nações. Em uma visita este mês (15) a Roraima, ele levou inspiração às famílias que vivem no abrigo temporário para refugiados e migrantes venezuelanos Rondon 3, o maior abrigo para esta população na América Latina.

O maestro estava em Boa Vista para capacitar músicos locais por meio do projeto “Orquestrando o Brasil”. E aproveitou para conhecer o Rondon 3, um dos 13 abrigos que funcionam no âmbito da Operação Acolhida — resposta humanitária emergencial liderada pelo governo brasileiro e apoiada por Nações Unidas, ONGs e setor privado.

Em um palco montado no pátio do abrigo, o maestro — reconhecido como um dos maiores intérpretes do músico barroco Johann Sebastian Bach — fez uma pequena e emocionante apresentação para a população acolhida no abrigo, tocando em um piano elétrico alugado especialmente para a ocasião.

Sensível e atento às especificidades do público, João Carlos Martins se dirigiu à plateia em espanhol, compartilhando um pouco da sua história de superação — ele enfrentou problemas de saúde que comprometeram sua coordenação motora e quase o afastaram definitivamente dos palcos, mas voltou a tocar e a reger com o uso de luvas biônicas.

Para as famílias venezuelanas, ele contou que mesmo com muitos não acreditando que ele poderia voltar a tocar e reger, não desistiu e está de volta aos palcos e salas de concerto. Desta forma, convidou cada refugiado a também não desistir de seus sonhos.

Na plateia, estava a família de Guillermo Martine, de 53 anos, que veio para o Brasil em setembro de 2019, e desde então vive no abrigo com sua esposa Katty Pereira, de 45, e seus três filhos.

Guillermo, que também é músico, tinha um grupo de Llanera, ritmo tradicional na Venezuela. Solista, teve que sair de seu país ao ser diagnosticado com câncer.

Sem acesso a tratamento ou medicamentos, Guillermo e sua família deixaram tudo para trás e buscaram ajuda no Brasil. Ele fez questão de trazer seus instrumentos musicais ao país: um “cuatro” (violão venezuelano de quatro cordas) e seu “maracate” (chocalho de percussão venezuelano).

“Sinto muita falta de ter um grupo musical”, disse Guillermo, pouco antes da apresentação do maestro. A música não saiu de seu coração, e ele ensinou o filho mais novo, Anrel Guillermo, de 9, a tocar o maracate. “Pelo menos assim ele me acompanha, e como ele gosta de música, de alguma forma eu continuo a tocar”, disse o pai.

Mas o desejo do músico venezuelano foi atendido quando ele menos esperava. Em uma articulação entre Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), a Associação Voluntários para o Serviço Internacional (AVSI), organização parceira do ACNUR que administra o abrigo, e o comando da Operação Acolhida, a família de Guillermo foi convidada a dividir o palco com o grande maestro brasileiro.

Durante a apresentação de Guillermo, Katty e o pequeno Arnel, o maestro os acompanhou improvisando pequenos acordes durante a cantoria — o que comoveu todo o abrigo.

“Estamos lisonjeados de receber um músico deste nível aqui no abrigo. Para nós, isso foi uma benção, e a história do maestro é como se fosse um milagre que nos inspira a continuar”, disse emocionada a venezuelana Katty.

“A música tem o poder de mover pessoas, romper barreiras e unir nações. Por meio da música as palavras solidariedade, amor e paz tomam forma na humanidade”, declarou o maestro. João Carlos Martins tocou músicas clássicas conhecidas, e contou com a participação do violinista venezuelano Rafael Dommar, que o acompanhou na Ave Maria.

O abrigo Rondon 3 acolhe atualmente cerca de 1.100 pessoas, entre adultos, idosos, jovens e crianças. Dentro dos abrigos, os refugiados e migrantes recebem alimentação, kits de higiene, além de acesso a banheiros, abrigos por família, assistência na área de saúde, educação, capacitação profissional, projetos culturais e informações sobre como ter outras necessidades atendidas.

No sábado (15), o pianista fez uma apresentação gratuita para toda a cidade de Boa Vista na Praça Fábio Marques Paracat, organizada pela prefeitura. Em entrevistas, ressaltou o potencial do estado em crescer musicalmente com a troca de experiências entre músicos roraimenses e venezuelanos.

“Roraima tem um grande potencial de virar um epicentro musical usando os talentos locais e os que estão chegando da Venezuela”, enfatizou o maestro.

“A presença do maestro no abrigou demonstrou como essas atividades são significativas para os que estão em condição de refúgio, trazendo um senso de humanidade comum”, ressaltou Esther Benizri, chefe do sub escritório do ACNUR para Boa Vista.

O maestro João Carlos Martins tem um envolvimento anterior com a causa do refúgio. Em 2016, participou do projeto “Somos Iguais”, um coral de jovens e crianças refugiadas criado para auxiliar sua integração na sociedade brasileira.

O coral já realizou várias apresentações sob a batuta do maestro, que sempre se dedicou com grande afinco à preparação e apresentação dos jovens cantores.