Pessoas refugiadas da Venezuela enfrentam desafios para terminar os estudos

Prestes a se tornar médica, Daniela Puentes, de 22 anos, teve que adiar seus sonhos profissionais para sustentar sua família.

Muitos refugiados e migrantes da Venezuela estão estudando na Colômbia. No entanto, sem documentos oficiais de seus estudos anteriores, essas pessoas podem não conseguir se inscrever em exames para ingressar na faculdade nem receber diplomas oficiais, colocando seu futuro em risco.

Problemas como os enfrentados por Daniela são tragicamente comuns entre os mais de 4,3 milhões de venezuelanos que foram forçados a deixar o país, fugindo da instabilidade econômica, da crise de segurança pública e do colapso do sistema de saúde.

Daniela Puentes viu o sonho de se tornar médica ameaçado no penúltimo ano da faculdade de medicina em Mérida, sua cidade natal no oeste da Venezuela. Foto: ACNUR | Hélène Caux.

Daniela Puentes viu o sonho de se tornar médica ameaçado no penúltimo ano da faculdade de medicina em Mérida, sua cidade natal no oeste da Venezuela. Foto: ACNUR | Hélène Caux.

Daniela Puente, 22 anos, sempre sonhou em ser médica. Em seu quarto ano de faculdade, ela estava muito próxima da meta. Mas, naquele momento, a crise na Venezuela se tornou crítica.

Sua vida se tornou um caos e, assim como 4,3 milhões de seus compatriotas, Daniela teve que deixar o país. Agora, esse futuro que era tão claro desde a infância se tornou obscuro e incerto.

O sonho de ser médica começou a desaparecer quando ela estava no penúltimo ano da faculdade de medicina em Mérida, sua cidade natal na região oeste da Venezuela. De repente, a cantina da universidade parou de servir o café da manhã habitual. Em vez de ovos, arepas, panquecas e frutas que sempre oferecia aos alunos, a lanchonete começou a distribuir copos de leite quente.

Para Daniela, esses copos de leite tornaram-se um símbolo da crise que transformou sua faculdade em uma cidade fantasma – abandonada por estudantes e professores, fugidos do país – e empobreceu sua família, que anteriormente desfrutava de uma vida de classe média.

“Minha família é a coisa mais preciosa que tenho, então eu sabia que tinha que sacrificar meus sonhos para que eles sobrevivessem”, contou Daniela.

Sair implicava em deixar a carreira pela qual havia feito tantos sacrifícios e em equilibrar os estudos com um emprego de meio período como garçonete. Daniela achou que, se conseguisse se estabelecer na Colômbia, poderia se matricular em uma faculdade colombiana para estudar as poucas disciplinas necessárias para terminar o curso e, finalmente, tornar-se médica.

Os desafios na Colômbia

Em fevereiro de 2018, Daniela conseguiu deixar a Venezuela. Ela gastou quase todas as suas economias na passagem de ônibus para Bogotá, chegando à capital colombiana com dez mil pesos (3 dólares) no bolso.

Ela percebeu quase que imediatamente que seu plano não ia dar certo. Na Colômbia, as faculdades públicas solicitaram o visto de estudante, o diploma do ensino médio e as transcrições autenticadas – documentos oficiais quase impossíveis de obter na atual Venezuela. Os poderes privados, mais flexíveis em termos da documentação exigida, eram extremamente caros.

Problemas como os enfrentados por Daniela são tragicamente comuns entre os mais de 4,3 milhões de venezuelanos que foram forçados a deixar o país, fugindo da instabilidade econômica, da crise de segurança pública e do colapso do sistema de saúde.

Um relatório da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), baseado em entrevistas com quase oito mil venezuelanos que deixaram o país, sugere que menos da metade das crianças venezuelanas que vivem no exterior estão matriculadas na escola. Entre as explicações dessa taxa assustadoramente baixa estão a “falta de documentos, cotas limitadas nas escolas públicas e falta de recursos para pagar as mensalidades”.

Na Colômbia, o país com o maior número de refugiados e migrantes venezuelanos, as autoridades tomaram algumas medidas para melhorar a situação. Algumas escolas primárias e secundárias adotaram a política de matricular todas as crianças venezuelanas, independentemente de sua documentação ou status legal no país.

No distrito de Bogotá, por exemplo, o número de crianças matriculadas em escolas públicas aumentou mais de 600%, passando de 3,8 mil estudantes venezuelanos em agosto de 2018 para 23 mil em maio de 2019.

Mas, mesmo que representem um bom começo, iniciativas como essa não resolvem tudo. Sem documentação, os estudantes venezuelanos na Colômbia ainda não podem fazer o exame para ingressar na faculdade, nem receber diplomas oficiais.

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Lutando pela educação

Esses são os obstáculos que Andrea González enfrenta, uma brilhante estudante de 17 anos que fugiu da Venezuela junto com sua família no início de seu último ano do ensino médio.

A família se estabeleceu na cidade colombiana de Cúcuta, que fica perto da fronteira com a Venezuela e se tornou um dos maiores pontos de entrada dos venezuelanos em busca de segurança no exterior.

Imediatamente após encontrar uma casa, Andrea e sua família começaram a fazer campanha com o diretor da escola pública mais próxima para deixá-la se matricular. Assim como a estudante de medicina Daniela, Andrea também não tinha a documentação necessária.

Mas elas foram persistentes e o diretor acabou cedendo – embora ele a tenha colocado em uma turma do nono ano, dois anos atrás do nível em que estava no seu país de origem.

Inabalável, Andrea decidiu olhar por um outro ângulo: não como um problema, mas como “uma oportunidade de aprender mais e refinar seu conhecimento”, disse. Agora, no décimo ano, Andrea é a melhor aluna da turma. Ele sonha em entrar na faculdade.

Mas, a menos que a lei mude em breve, Andrea não poderá fazer o vestibular por causa de seu status legal na Colômbia. E sem o exame, não poderá acessar nenhuma universidade na Colômbia.

Mesmo assim, ela continua otimista. “Estou convencida de que as coisas vão mudar a tempo e que a faculdade me dará a oportunidade de aproveitar ao máximo minha vida”, relatou Andrea.

Daniela também tem esperança. Atualmente, trabalha como garçonete em um restaurante em Bogotá, ganhando um pouco mais do que o salário mínimo de 250 dólares por mês – ela envia a maior parte à sua família na Venezuela.

“Somos tantos jovens que tivemos que abandonar nossos sonhos”, comentou Daniela. “Mas eu sei que um dia vou ser médica. Não sei quando e não sei como, mas sei que isso vai acontecer”, acrescentou.

Relatório educacional da Agência da ONU para Refugiados

Esta história aparece no relatório educacional do ACNUR para 2019: “Fortalecendo a educação para refugiados em crise”.

O relatório mostra que, à medida que as crianças refugiadas crescem, as barreiras que as impedem de acessar a educação se tornam mais difíceis de serem superadas.

O documento também aponta que apenas 63% das crianças refugiadas frequentam a escola primária, em comparação com 91% em nível global; 84% dos adolescentes recebem educação secundária, enquanto apenas 24% dos refugiados têm essa oportunidade; e dos 7,1 milhões de crianças refugiadas em idade escolar, 3,7 milhões, mais da metade, não frequentam a escola.