Pesquisa do UNAIDS lista necessidades de pessoas vivendo com HIV em tempos de COVID-19 no Brasil

Pesquisa realizada pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) Brasil reforça a importância de, no caso específico das pessoas vivendo com HIV ou AIDS, as consultas e exames serem considerados parte dos serviços essenciais de saúde.

A pesquisa perguntou às pessoas se elas tinham visitado o serviço de saúde local para reabastecer o estoque pessoal de medicamentos para HIV nos 30 dias anteriores à data da pesquisa (27 a 31 de março), e 64% reponderam que sim. Destas, 28% responderam ter tratamento suficiente para três meses. Outros 32,3% disseram ter tratamento para dois meses, e 39% para apenas um mês.

De acordo com a recomendação do UNAIDS e do Ministério da Saúde, os serviços devem, na medida do possível, disponibilizar tratamento para pelo menos três meses durante a pandemia. Isso evitará a exposição desnecessária dessas pessoas indo buscar medicamentos repetidas vezes em serviços de saúde que já estão sobrecarregados.

Quase metade dos entrevistados (46%) considerava ter informações insuficientes sobre a relação entre a COVID-19 e o HIV. Foto: UNAIDS

Quase metade dos entrevistados (46%) considerava ter informações insuficientes sobre a relação entre a COVID-19 e o HIV. Foto: UNAIDS

Pesquisa realizada pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) Brasil com quase 3 mil pessoas vivendo com HIV ou AIDS no país aponta que 42,9% esperam apoio das instituições de governo e de organizações não governamentais para a provisão de serviços de assistência social, incluindo alimentação.

Quase metade dos entrevistados (46%) considerava ter informações insuficientes sobre a relação entre a COVID-19 e o HIV e cerca de 13% não estavam conseguindo permanecer em casa: 48,6% porque precisavam trabalhar e não tinham a opção de ficar em casa e mais de um terço (34,7%) porque tinham medo de revelar que vivem com HIV.

Os dados são de um levantamento online feito pelo escritório do UNAIDS Brasil entre os dias 27 e 31 de março deste ano.

Também chama atenção o fato de 17% das pessoas não terem equipamentos e insumos de proteção pessoal e doméstica suficientes, incluindo água (6,2%) e sabão (7,6%), indicadores de extrema vulnerabilidade. Estes números foram puxados pela população que se identificou com raça/cor preta: 5,3% disseram não ter acesso a água – 2,6 vezes mais do que entre respondentes brancos – e 7,3% disseram não ter acesso a sabão – quatro vezes maior que entre brancos.

“Os resultados deste questionário nos ajudaram a enxergar quais as principais demandas e carências entre as pessoas vivendo com HIV e com AIDS, num momento delicado como este de pandemia da COVID-19″, explica Cleiton Euzébio de Lima, diretor interino do UNAIDS no Brasil.

“Já sabíamos que, no Brasil, a epidemia do HIV tem afetado desproporcionalmente alguns grupos populacionais mais vulneráveis, principalmente as populações-chave.”

“Neste momento da pandemia de COVID-19, a principal preocupação do UNAIDS é dar visibilidade ao fato de que, apesar de todas as pessoas estarem suscetíveis à infecção pelo novo coronavírus, a pandemia terá um impacto diferenciado em cada população ou comunidade. É preocupante saber que muitas pessoas, por falta de água, de sabão, de moradia e outros insumos de higiene e proteção, estão mais expostas e mais vulneráveis ao novo coronavírus.”

A Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS (RNP+) e o Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP) apoiaram o UNAIDS na revisão do questionário e na divulgação entre seus membros. A pesquisa se inspirou em uma iniciativa do UNAIDS na China, o primeiro epicentro da pandemia de COVID-19, e foi adaptada para o contexto brasileiro, incluindo também questões relevantes, como a situação da saúde mental das pessoas respondentes.

No Brasil, o levantamento mobilizou 2.893 respostas, sendo que 82,6% delas vieram de pessoas pertencentes a populações-chave: gays e outros homens que fazem sexo com homens (79,6%), pessoas trans (2,1%), trabalhadores do sexo (0,6%) e pessoas que usam drogas (0,4%).

Dentre o total de respondentes , 51,3% são negros (36,2% se declararam pardos e 15,1% pretos), sendo 45,5% brancos. A maioria (64%) têm entre 20 e 34 anos e quase 10% está acima dos 50 anos. Ainda sobre o perfil das pessoas respondentes, pouco mais da metade (52%) vive no Sudeste e quase um quarto (23%) na região Nordeste; as demais vivem no Sul (11%), Centro-Oeste (8%) e Norte (6%).

Acesso ao tratamento e outros serviços de saúde relacionados ao HIV

A maioria dos respondentes declarou estar atualmente em tratamento antirretroviral (96%). Dentre os 4% restantes, chamam a atenção diversos relatos de pessoas que tiveram suas consultas ou exames necessários para iniciar seu tratamento cancelados.

“Estava para iniciar meu tratamento, com consulta marcada com o infectologista para examinar meus exames, e a consulta simplesmente foi cancelada sem aviso prévio, isso me deixou muito triste”, escreveu outro homem gay, preto, de 28 anos, morador de São Paulo.

“Descobri que estou com o vírus no meio da pandemia e não tem infectologistas disponíveis para me atender. Queria começar o tratamento logo”, escreveu um respondente gay, branco, de 31 anos, que vive em Uberlândia.

Apesar de representar um percentual pequeno, são situações críticas que devem receber atenção dos gestores locais de saúde. “Sabemos que em muitas localidades, os serviços de saúde e seus profissionais estão completamente sobrecarregados com as demandas relacionadas à nova pandemia”, reconhece Lima.

“Entretanto, o UNAIDS reforça a importância de que, nesse caso específico das pessoas vivendo com HIV ou AIDS que estão para iniciar o tratamento com antirretrovirais, as consultas e exames sejam considerados como parte dos serviços essenciais de saúde. Essas pessoas não podem esperar para iniciar o tratamento, pois isso pode, inclusive, colocar sua saúde e sua vida em risco.”

O UNAIDS reforça a importância de que, nesse caso específico das pessoas vivendo com HIV ou AIDS que estão para iniciar o tratamento com antirretrovirais, as consultas e exames sejam considerados como parte dos serviços essenciais de saúde.

O questionário perguntou às pessoas se elas tinham visitado o serviço de saúde local para reabastecer o estoque pessoal de medicamentos para HIV nos 30 dias anteriores à data da pesquisa (27 a 31 de março), e 64% reponderam que sim. Destas, 28% responderam ter tratamento suficiente para três meses. Outros 32,3% disseram ter tratamento para dois meses, e 39% para apenas um mês.

De acordo com a recomendação do UNAIDS e do Ministério da Saúde, os serviços devem, na medida do possível, disponibilizar tratamento para pelo menos três meses durante a pandemia. Isso evitará a exposição desnecessária dessas pessoas indo buscar medicamentos repetidas vezes durante a pandemia em serviços de saúde que estão já sobrecarregados

Saúde mental e outras demandas das pessoas vivendo com HIV/AIDS

Entre as pessoas vivendo com HIV e vivendo com AIDS que responderam à pesquisa, 66,7% disseram ter sentido alterações em seu humor ou em seus comportamentos e hábitos devido à pandemia de COVID-19.

Foram feitas perguntas simulando situações cotidianas, em que os parâmetros que estavam sendo avaliados foram adaptados do Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais (DSM 5), e a quantidade de perguntas que as pessoas respondiam, resultou em uma soma que possibilitou um indicativo de necessidade de auxílio médico psiquiátrico, ou acompanhamento psicológico.

A soma das respostas deu origem a indicativos de sintomatologia leve (44%), moderada (18%) e grave (2%) – sendo que 36% dos resultados foram classificados como inválidos ou não informados.

Entre as 572 pessoas que responderam à pergunta sobre se acreditavam necessitar de apoio psicológico para lidar com a ansiedade gerada pela pandemia de COVID-19, praticamente metade delas (50,4%) responderam afirmativamente.

Acesso a informações e insumos de prevenção da COVID-19 e impacto da pandemia

Informação é um elemento fundamental para a prevenção em contextos de pandemia. O questionário buscou avaliar quais são as principais fontes de informação sobre COVID-19 para as pessoas vivendo com HIV ou AIDS.

Entre as pessoas que responderam ao questionário, 40% disseram obter informações pela televisão, enquanto 24% disseram se informar por sites e redes do Ministério da Saúde, 11% via serviços e profissionais de saúde e apenas uma pequena parcela disse se informar pelo Whatsapp (7%) e amigos e familiares (6%).

Entre os 46% de respondentes que declararam ter informações insuficientes, chama atenção o fato de 58% serem negros (32% pardos e 26% pretos), ante 39% de pessoas brancas – um indicativo de que o acesso a informações neste contexto também sofre o impacto do racismo estrutural que afeta, entre outros fatores, diversos aspectos da saúde de pessoas negras no Brasil.

O questionário também perguntou que tipo de informações as pessoas gostariam de receber com mais frequência. Mais de 60% delas responderam “dicas e cuidados específicos para pessoas vivendo com HIV e AIDS.”

“O UNAIDS tem se preocupado com o crescimento do fenômeno das fake news que podem minar os esforços de saúde e aumentar o estigma e a discriminação. Como é uma pandemia muito nova, ainda não há informações conclusivas sobre impactos diferenciados da COVID-19 em pessoas vivendo com HIV. Seguramente, à medida em que ela impacte países com maior prevalência do HIV, será possível ter mais informações sobre essa correlação”, explica o diretor interino do UNAIDS no Brasil.

“Mesmo assim, temos nos esforçado para traduzir materiais produzidos em outros idiomas, repercutir informações oficiais da OMS e mobilizar parceiros e influenciadores para que levem estas informações ao maior número possível de pessoas.”

Além da questão da informação, o levantamento também apontou que a maioria das pessoas vivendo com HIV ou AIDS está ficando em casa como forma de se proteger do novo coronavírus. Entretanto, 13% declararam que não estavam permanecendo em casa neste período da pandemia.

Trabalhadores e trabalhadoras do sexo, por exemplo, estão entre as populações-chave com maior dificuldade de cumprir esta recomendação e entre as mais carentes de insumos básicos de higiene e limpeza. No momento da pesquisa, 5,9% não tinham acesso a água – duas vezes mais que entre gays e HSH; 58,8% delas não tinham acesso a álcool em gel – cinco vezes mais na comparação com gays e HSH; e 23,5% não tinham acesso a sabão – sete vezes na mesma comparação.

“Dados compilados do Índice de Estigma Brasil 2019, divulgado no ano passado, já mostravam que muitas pessoas vivendo com HIV e vivendo com AIDS estavam em situação de pobreza. A pandemia de COVID-19 acabou tornando este quadro ainda mais grave”, relembra Lima. “Assim, a resposta à pandemia deve incluir estratégias que respondam às necessidades diferenciadas de cada grupo, especialmente os mais vulneráveis.”