Pesquisa apoiada pela ONU Mulheres mostra insatisfação com falta de exames sobre zika

Pesquisas inéditas realizadas com mulheres grávidas revelam insatisfação com a falta de acesso a exames e a informações sobre as formas de contágio e prevenção ao zika vírus e seus efeitos sobre o desenvolvimento dos bebês. As pesquisas foram realizadas pelo Instituto Patrícia Galvão, em parceria com os institutos Data Popular e Locomotiva, com apoio da ONU Mulheres e da Fundação Ford.

Pernambuco é estado com maior número de casos confirmados de microcefalia registrados em meio à epidemia do vírus zika. Foto: UNICEF/BRZ/Ueslei Marcelino

Pernambuco é estado com maior número de casos confirmados de microcefalia registrados em meio à epidemia do vírus zika. Foto: UNICEF/BRZ/Ueslei Marcelino

Pesquisa feita em julho pelo Instituto Patrícia Galvão com mulheres grávidas revelou insatisfação com a falta de acesso a exames e a informações sobre as formas de contágio e prevenção ao zika vírus e seus efeitos sobre o desenvolvimento dos bebês.

O estudo feito entre mulheres grávidas usuárias do aplicativo Baby Center revelou que 90% das mulheres gostariam de realizar o teste para saber se tiveram zika durante a gravidez. As análises foram feitas em parceria com os institutos Data Popular e Locomotiva, com apoio da ONU Mulheres e da Fundação Ford.

Diante de um cenário em que ciência e medicina têm mais dúvidas do que certezas sobre o impacto da epidemia sobre as mulheres e sobre os bebês em gestação, 52% das grávidas afirmam que gostariam de ter feito mais exames de ultrassom durante a gestação para acompanhar o desenvolvimento dos bebês. Entre as que faziam o pré-natal no Sistema Único de Saúde (SUS) esse percentual atinge 70%, ante 43% das assistidas por convênios médicos particulares.

O zika vírus ganhou relevância no debate público e em fevereiro foi considerado uma emergência global pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em função da associação entre a presença do vírus em gestantes e a síndrome congênita em recém-nascidos, cuja manifestação mais evidente em um primeiro momento era a microcefalia.

Embora as mulheres estejam no centro da epidemia de zika, suas demandas e direitos estão fora do foco principal do debate público, segundo a ONU Mulheres. Ante essa lacuna e a urgência na garantia de direitos, o Instituto Patrícia Galvão realizou duas pesquisas de opinião para mapear como as mulheres grávidas têm lidado com o assunto, buscando trazer suas perspectivas para o centro da discussão sobre as políticas públicas de saúde, planejamento familiar e saneamento básico.

A pesquisa quantitativa obteve resposta de 3.156 usuárias que se encontravam grávidas ao responder o questionário. Neste caso, o estudo foi feito pelo Instituto Patrícia Galvão entre março e abril com seis grupos de discussão com mulheres grávidas das classes C e D, que acompanhavam sua gravidez pelo SUS em Recife, João Pessoa e São Paulo.

O acesso a exames e informações é a principal reivindicação da maioria das mulheres grávidas no Brasil, grupo que está no centro da emergência global da síndrome congênita do zika, mas cujas demandas têm sido pouco priorizadas nas políticas públicas e na cobertura jornalística sobre o tema, segundo os organizadores da pesquisa.
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Falta de informação se traduz em angústia durante a gravidez

A pesquisa quantitativa revelou ainda que praticamente um terço das grávidas (32%) que já iniciaram o pré-natal ainda não havia recebido orientações sobre o zika vírus.

Com isso, apesar de 62% das mulheres afirmarem saber que o bebê pode vir a ter problemas de saúde caso a mãe tenha zika, faltam informações que podem ser decisivas para a prevenção: 33% acreditam, por exemplo, que o contágio do feto ocorre apenas nos primeiros três meses — hipótese que chegou a ser cogitada cientificamente, mas que já está sendo afastada.

Outra questão importante captada na pesquisa é a distância entre a perspectiva e a demanda das mulheres e as políticas públicas que vêm sendo implementadas no Brasil.

Enquanto as ações do setor público focam em campanhas para o combate à proliferação do mosquito Aedes aegypti, as mulheres querem ter acesso a testes, exames, contraceptivos, repelentes e orientações precisas sobre como evitar o contágio de si e dos seus bebês.

A pesquisa revelou uma forte demanda por políticas de saneamento básico: 100% das mulheres afirmam que a falta de serviços de água, esgoto e coleta de lixo pode causar doenças e 90% apontam o governo municipal como o responsável por esses serviços.

Outra lacuna identificada pela pesquisa refere-se às políticas de planejamento familiar, em especial o acesso a contraceptivos de curta e longa duração: apenas 32% das mulheres disseram que sua gravidez foi planejada.

Para a diretora-executiva do Instituto Patrícia Galvão, Jacira Melo, as incertezas e angústias revelam a necessidade de políticas públicas e ações informacionais mais eficazes e que sejam formuladas a partir da demanda das mulheres que estão no centro da epidemia.

“Somente essas mulheres podem nos ajudar a entender como o sistema de saúde as acolhe e quais são as estratégias que podem ser acionadas para lidar com a questão”, frisa. Para Jacira Melo, o “Estado brasileiro demonstra baixa prontidão frente ao drama e aos direitos das mulheres à informação e a respostas do sistema de saúde”.Zika_info_4.jpg


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