Participação comunitária fortalece prevenção à COVID-19 nos abrigos para venezuelanos em Roraima

Nova rotina nos abrigos: venezuelana voluntária pulveriza produto para limpar mesa de alimentação. Foto: Allana Ferreira/ACNUR

Entre os desafios humanitários impostos pela pandemia da COVID-19, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e seus parceiros têm continuado as atividades de proteção nos 13 abrigos temporários da Operação Acolhida, que atualmente acolhem cerca de seis mil refugiados e migrantes venezuelanos nas cidades de Boa Vista e Pacaraima, no Estado de Roraima.

Grande parte destas atividades conta com o apoio da própria população abrigada, conforme revela a primeira edição do Relatório de Registro e Abrigo em Roraima publicado pelo ACNUR, referente ao mês de abril de 2020.

O envolvimento dos refugiados e migrantes venezuelanos na gestão dos abrigos se dá por meio das Oficinas de Participação Comunitária, que complementam o trabalho das organizações parcerias responsáveis pelo manejo destes espaços. Segundo o relatório do ACNUR, cerca de 480 voluntários formam 54 comitês que promovem a participação comunitária na gestão desses espaços – são, em média, quatro comitês por abrigo.

A implementação dos comitês é uma das estratégias do ACNUR e seus parceiros para promover a participação da comunidade no dia-a-dia dos abrigos, uma vez que seus integrantes exercem diferentes responsabilidades.

No abrigo Rondon 3, em Boa Vista, que conta com mais de 1,2 mil refugiados e migrantes, o Comitê de Alimentação tem 48 membros que realizam a distribuição regular das três refeições diárias e oferecem instrução a respeito de métodos preventivos contra a COVID-19 nas filas que se formam para distribuição de alimento.

Dezoito venezuelanos do abrigo Jardim Floresta, também na capital, são voluntários do Comitê de Saúde e desenvolvem atividades de prevenção ao novo coronavírus e monitoramento de suspeitos de contaminação.

Já em Pacaraima, são 254 pessoas da etnia Warao compartilhando o abrigo Janokoida, que na língua de seus moradores significa “Grande Casa”. Antes da pandemia da COVID-19, a população era de 511. No entanto, com as medidas de prevenção, parte dos abrigados foram tranferidos para o Janoko Yakera, “Casa Bonita”.

Os Warao também se organizaram e criaram o Comitê de Educação, que implementou atividades com professores da organização Visão Mundial para crianças de 3 a 17 anos, uma vez que as aulas do município estão suspensas por conta da pandemia.

Outros comitês instalados nos abrigos lidam com infraestrutura, com o reparo dos banheiros, pias e torneiras. Há também os comitês para água, saneamento e higiene, que desinfectam os abrigos com pulverização de creolina, e de promoção cultural, com atividades que respeitam as regras de distanciamento social.

Para o Representante do ACNUR no Brasil, José Egas, o trabalho dos comitês é fundamental para a prevenção da COVID-19 nos abrigos. “Eles estabelecem melhores canais de diálogo com a população abrigada e fortalecem a proteção dessas pessoas ao identificar necessidades e soluções dentro da própria comunidade”, explicou.

O relatório do ACNUR, que será publicado mensalmente, traz também o perfil dos 5,8 mil venezuelanos atualmente abrigados em Roraima e mostra uma igualdade de gênero nesta população: são 2.961 mulheres e meninas e 2.935 homens e meninos.

Pouco mais da metade delas (52%) tem entre 18 e 59 anos e outras 35% têm de 0 a 11 anos. Em relação aos homens, a população se divide majoritariamente entre adultos de 18 a 59 anos (47%) e crianças de 0 a 11 anos (37%).

Conheça a história de venezuelanos abrigados e seu trabalho nos Comitês de Participação Comunitária

Abrigamento e proteção

A Operação Acolhida – resposta governamental ao fluxo de refugiados e migrantes venezuelanos para o Brasil – mantém em Roraima 13 abrigos, sendo 11 em Boa Vista (um específico para a população indígena) e dois em Pacaraima (um alojamento de trânsito e outro exclusivo para indígenas venezuelanos). Com parceiros da sociedade civil e com o Ministério da Defesa, o ACNUR fornece apoio ao Ministério da Cidadania (MdCid) na gestão das instalações.

Por meio de um acordo de cooperação com o MdCid, a Fraternidade Humanitária Internacional (FFHI), a Associação Voluntários para o Serviço Internacional (AVSI) e a Fraternidade Sem Fronteiras, organizações da sociedade civil parceiras do ACNUR, fazem a gestão humanitária dos abrigos juntamente com a Força Tarefa Logística Humanitária das Forças Armadas, dentro do escopo da Operação Acolhida.

A Operação Acolhida fornece serviços relacionados à assistência emergencial com infraestrutura, segurança, saúde e alimentação para migrantes e refugiados venezuelanos. A Agência Humanitária da Igreja Adventista do Sétimo Dia (ADRA) e o Instituto Pirilampos desenvolvem atividades de suprimento de água, saneamento, higiene e proteção à infância em diversos dos abrigos, que também contam com a atuação de diversas agências da ONU, como UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), OIM (Organização Internacional para as Migrações), UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas), entre outras.

As atividades do ACNUR são apoiadas por doações da comunidade internacional, empresas e doadores individuais. Neste ano, a contribuição feita pelo governo do Japão direcionada às ações de abrigamento na região norte do país foi fundamental para reforçar a resposta neste setor. O ACNUR agradece às importantes contribuições de todos os seus doares, que permitem o fortalecimento de mecanismos de proteção à população refugiada em situação de vulnerabilidade.

“Nossas equipes estão trabalhando incansavelmente para evitar que o vírus se espalhe entre refugiados e migrantes abrigados em Roraima, e também para garantir atendimento adequado às pessoas suspeitas ou infectadas. O aumento das nossas atividades implica na necessidade de mais investimentos. Por isso, neste momento as contribuições dos doadores são ainda mais necessárias”, completou o Representante do ACNUR no Brasil.

Esta ação foi realizada pelo ACNUR no marco da Plataforma R4V – Resposta a Venezuelanos, uma coordenação interagencial do sistema das Nações Unidas e da sociedade civil. A Plataforma R4V é composta por um conjunto de parceiros e tem como objetivo responder ao fluxo de venezuelanos na América Latina e Caribe. No Brasil, a Plataforma R4V é composta de 13 agências da ONU e 27 organizações da sociedade civil.

Acesse o relatório na íntegra, clique aqui.