Parceiro do ACNUR e centro de ensino de São Paulo ampliam atividades de coral de crianças refugiadas

A partir de agosto, 100 crianças do coral Coração Jolie da organização não governamental IKMR – Eu Conheço Meus Direitos – vão frequentar aulas e workshops de balé, canto e arte no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. A parceria conta com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Coral Coração Jolie vai receber suporte do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Foto: Centro Universitário Belas Artes / Divulgação

Coral Coração Jolie vai receber suporte do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Foto: Centro Universitário Belas Artes / Divulgação

Em maio, cerca de 50 crianças refugiadas do coral Coração Jolie se apresentaram no Centro Universitário Belas Artes e selaram de forma simbólica uma nova parceria entre a instituição e a organização não governamental IKMR – Eu Conheço Meus Direitos. A partir de agosto, 100 jovens do grupo musical vão participar de workshops e aulas no centro de ensino.

A cooperação entre os dois organismos conta com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). O objetivo é promover oportunidades de integração e formação cultural para os pequenos refugiados que agora vivem no Brasil. As aulas serão ministradas na Biblioteca Infantil Multilíngue do Belas Artes, em São Paulo.

“O céu é o limite para essa parceria. Vamos oferecer a nossa estrutura e pedagogia às crianças”, afirmou a diretora-geral do Belas Artes, Patrícia Gomes Cardim. “O Coral Coração Jolie tem potencial para girar o mundo”, completou.

Criado há dois anos, o grupo musical é a iniciativa-chave da IKMR. Desde 2012, a entidade se dedica a dar assistência para mais de 300 crianças refugiadas. O projeto original da ONG será preservado e envolve a reunião de crianças de diferentes nacionalidades em jogos e atividades recreativas, o ensaio de composições com letras otimistas e a apresentação do coral em eventos.

Por meio dessas atividades, a organização pretende ajudá-las a superar traumas do passado e desafios do presente — que envolvem a inclusão na sociedade brasileira.

Com a parceria junto ao Belas Artes, as crianças serão apresentadas a projetos de balé, canto coral e arte terapia em três finais de semana de agosto. Segundo Patrícia, já há 50 universitários voluntários engajados nas iniciativas previstas e novos programas serão incorporados à grade pedagógica das crianças.

“A nossa preocupação é com o coraçãozinho dessas crianças e com a preservação de sua cultura e costumes. Elas não precisam se abrasileirar nem negar suas origens porque enfrentam preconceito na escola ou no lugar onde vivem. A vida de uma criança tem de ser maior que a sua nacionalidade”, explicou a fundadora e coordenadora da IKMR, Vivianne Reis. “Várias crianças chegam aqui muito machucadas.”

Para os adultos refugiados, o Belas Artes oferecerá cursos de português e abrirá bolsas de estudos nas áreas de Arquitetura, Relações Internacionais, Jornalismo e Design.

Para a chefe interina do escritório do ACNUR em São Paulo, Isabela Mazão, a cooperação entre o IKMR e o Belas Artes “fará toda a diferença” na vida das crianças. “Há muito a se fazer para integrar as crianças refugiadas no Brasil. Unir forças é a melhor alternativa”, afirmou.

Durante a cerimônia que formalizou a parceria, mais de 50 crianças subiram ao palco. Outros 20 jovens, menos familiarizados com o repertório, arriscavam cantar da plateia. Algumas delas ainda não falavam português.

A refugiada líbia Priscilia, de 6 anos, deixou o palco após a apresentação e se serviu de bolo, doces e salgados da festa infantil especialmente preparada pelo Belas Artes para a apresentação das crianças. Foto: Centro Universitário Belas Artes / Divulgação

A refugiada líbia Priscilia, de 6 anos, deixou o palco após a apresentação e se serviu de bolo, doces e salgados da festa infantil especialmente preparada pelo Belas Artes para a apresentação das crianças. Foto: Centro Universitário Belas Artes / Divulgação

Também da Síria, Rasha Almobayad acompanhava sua filha Maria, de 6 anos, integrante do coral há cinco meses, e embalava Talia, de um ano, nascida no Brasil. “Esse projeto vai se tornar ainda melhor. Para Maria, significará mais aprendizado de música e de artes”, contou a mãe, que refugiou-se com sua família no Brasil há dois anos e meio.

As crianças cativaram a plateia com “Aquarela”, de Toquinho, “Azul da Cordo Mar”, de Tim Maia, “Vamos Construir”, de Sandy & Júnior, “Um Novo Lugar”, de Xuxa, e “O Sol”, de Jota Quest.

Segundo o maestro Carlos Lima — que conduziu a apresentação —, reger a orquestra com o coral foi uma experiência inusitada. Não houve ensaio anterior, e pausas dramáticas e outros improvisos da orquestra foram inventados conforme evoluía o canto das crianças.

“Foi só tocar um acorde e parecia que havíamos ensaiado muitas vezes”, afirmou o regente. “Os desafios aqui são a construção de uma sociedade mais justa, solidária e integrada e a derrubada de fronteiras e obstáculos por meio da música.”

Por Denise Chrispim, de São Paulo.