Para conter conflito no Sudão do Sul, ONU avança em duas frentes – política e de manutenção de paz

Conselho de Segurança e secretário-geral da ONU estão se mobilizando para conter crise. Para proteger civis, missão de paz quase duplicou a sua força armada, para cerca de 14 mil pessoas.

Membros das forças de paz do batalhão da Mongólia a serviço da UNMISS baseados em Rumbek, no Sudão do Sul, chegam a Bentiu no dia 30 de dezembro de 2013 para reforçar a presença das Nações Unidas no Estado de Unity. Foto: UNMISS/Anna Adhikari

Membros das forças de paz do batalhão da Mongólia a serviço da UNMISS baseados em Rumbek, no Sudão do Sul, chegam a Bentiu no dia 30 de dezembro de 2013 para reforçar a presença das Nações Unidas no Estado de Unity. Foto: UNMISS/Anna Adhikari

As Nações Unidas estão se movendo nas frentes diplomática e militar para encerrar o conflito no Sudão do Sul, com o secretário-geral da Organização, Ban Ki-moon, pedindo ao governo que liberte os presos políticos para facilitar as negociações com os rebeldes e o Conselho de Segurança realizando uma reunião emergencial sobre os últimos esforços para reforçar a missão de paz da ONU no país.

“É uma situação muito, muito terrível”, disse o atual presidente do Conselho, o francês Gérard Araud, a jornalistas após a reunião, em que a representante especial de Ban, Hilde Johnson, informou o órgão de 15 membros por videoconferência a partir de Juba, capital do Sudão do Sul, sobre os últimos acontecimentos, os esforços de mediação dos vizinhos e os passos de agências humanitárias para levar ajuda aos necessitados.

Os combates no Sudão do Sul, país mais novo do mundo – conquistou sua independência em 2011, depois da separação do Sudão –, tiveram início no dia 15 de dezembro, quando o presidente Salva Kiir afirmou que soldados leais ao ex-vice-presidente Riek Machar, demitido em julho, teriam promovido uma tentativa de golpe de Estado.

Kiir pertence ao grupo étnico Dinka e Machar ao Lou Nuer. Segundo a ONU, o conflito tem sido cada vez mais marcado por denúncias de violência étnica.

Segundo as últimas estimativas, milhares de pessoas morreram em decorrência do conflito e cerca de 180 mil outras foram expulsas de suas casas, com até 75 mil destas tendo buscado refúgio nas bases da missão de paz da ONU no Sudão do Sul (UNMISS).

A missão obteve uma autorização do Conselho de Segurança para quase duplicar a sua força armada, passando para aproximadamente 14 mil pessoas, em um esforço para proteger os civis.

“É uma situação realmente trágica”, disse Araud. “É impossível avaliar o número de vítimas, mas é realmente bastante elevado.”

O subsecretário-geral da ONU para Operações de Paz, Hervé Ladsous, disse que todos os reforços de paz devem estar no terreno no prazo de uma a três semanas. As duas primeiras unidades policiais já chegaram.

Ban Ki-moon falou por telefone com o presidente Kiir nesta segunda-feira (30) pela manhã, acolhendo o seu compromisso declarado de cessar as hostilidades e sua prontidão de se engajar com líderes da oposição no diálogo. O chefe da ONU o encorajou a considerar a rápida libertação de presos políticos.

Ele reiterou o completo apoio das Nações Unidas aos esforços de mediação por parte do bloco regional do leste africano, conhecido como Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (IGAD, na sigla em inglês), e pediu a plena cooperação de todas as partes na busca de uma solução pacífica. Ele também enfatizou a necessidade de responsabilizar os responsáveis por ataques contra civis.

Ladsous, que também falou ao Conselho, disse a jornalistas que muito progresso havia sido feito na busca de reforços para a UNMISS, incluindo tanto tropas e equipamentos quanto helicópteros. “Temos trabalhado dia e noite para garantir as contribuições, os contingentes e os equipamentos”, disse ele.

Reforços estão sendo destacados de outras missões de paz da ONU em Darfur, Libéria, Haiti e Costa do Marfim, mas estas missões não podem fornecer todo o equipamento necessário, tais como um hospital de campanha de nível dois e helicópteros táticos.

“A UNMISS sofre com a falta de aeronaves de asa rotativa. É por isso que é uma alta prioridade que possamos trazer mais helicópteros tanto utilitários quanto táticos”, disse Ladsous, lembrando o papel de vigilância e monitoramento da missão sobre o vasto território, onde se detectou grupos armados se movendo em Bor .

Ainda há um intenso conflito acontecendo em torno de Bor, capital do Estado de Jonglei, onde 20 mil civis buscaram abrigo em bases da ONU, e na cidade de Malakal, onde 22 mil outras fugiram para as bases da ONU, informou o representante francês no Conselho de Segurança, Araud. Em Bentiu, no norte do país produtor de petróleo – e onde a produção de petróleo cessou –, as forças governamentais estão posicionados para tomar a cidade.

A situação dos direitos humanos é “também muito preocupante. Há relatos de tortura, assassinatos, desaparecimento e violência étnica”, disse Araud, acrescentando que a área de direitos humanos da UNMISS foi ampliada para garantir a responsabilização pelas violações.

Na frente política, o Conselho manifestou o seu apoio aos esforços de mediação da IGAD que estão sendo realizadas pela Etiópia e Quênia.

Na frente humanitária, agências de ajuda humanitária chegaram a um número estimado de 106 mil pessoas deslocadas até agora com comida, água, saneamento e cuidados de saúde, tanto dentro como fora bases de paz da ONU. Eles entregaram biscoitos energéticos para crianças e estão trabalhando na criação de centros de triagem e tratamento contra a desnutrição em Juba.

Milhares de crianças com menos de 15 anos irão receber vacinas contra o e a poliomielite na base de manutenção de paz em Tomping, Juba.

As organizações de ajuda humanitária lançaram um apelo de 209 milhões de dólares para fornecer assistência imediata às famílias ao longo dos próximos três meses. O total recebido foi de apenas 43 milhões de dólares até o momento.