Países desenvolvidos ainda dominam distribuição de bens culturais do mundo, afirma UNESCO

O surgimento de plataformas online começa a mudar este panorama. Hoje, 46% das exportações de bens culturais são provenientes de países em desenvolvimento. No entanto, dessa porcentagem, China e Índia lideram o mercado e crescimento dos demais países representa apenas 5%.

Nações desenvolvidas dominam o mercado de exportações de bens culturais. Na foto, dançarina atua durante uma celebração cultural em Uganda. Foto: Flickr/US Army/Spc. Jason Nolte

Nações desenvolvidas dominam o mercado de exportações de bens culturais. Na foto, dançarina atua durante uma celebração cultural em Uganda. Foto: Flickr/US Army/Spc. Jason Nolte

O aparecimento de gigantes da internet, a explosão das redes sociais e a revolução digital estão mudando profundamente os métodos de produção e disseminação de bens culturais como música, filme e livros. Desde a adoção da Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais de 2005, o panorama cultural do mundo mudou consideravelmente.

Apresentado na sede da UNESCO, na quarta-feira (16), o Relatório Re|Shaping Cultural Policies (Reformulando Políticas Culturais, em tradução livre) explora essas mudanças e o impacto da Convenção nas políticas culturais.

Adotada pela UNESCO em 2005, a Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais entrou em vigor em 2007. Agora, ela conta com o apoio de 141 Estados signatários e a União Europeia.

Incentivar um fluxo igualitário de bens e serviços culturais dos países em desenvolvimento é um princípio-chave da Convenção. No entanto, dez anos após a adoção da Convenção, o setor continua amplamente dominado pelos países industrializados.

Dos 212.8 bilhões de dólares das exportações de bens culturais, 46,7% são de nações em desenvolvimento, comparado com 25,6% em 2004. No entanto, essa visão geral é distorcida pelas exportações culturais provenientes principalmente da China e da Índia, já que esses dois países estão competindo cada vez mais com países desenvolvidos. Sem eles, a parcela de exportações mundiais de bens culturais dos países em desenvolvimento cresceu apenas 5% entre 2004 e 2013.

Diversificação do mercado

A expansão das redes sociais e a produção de conteúdos pelos usuários, o uso crescente de aparelhos multimídia conectados à internet, e a explosão na quantidade de dados disponível levaram à emergência de novos atores e novos raciocínios. Essa revolução não está de maneira alguma limitada aos países industrializados, muitas regiões do sul do globo tiveram um considerável progresso, particularmente no campo da conectividade. Na África, a taxa de penetração da telefonia móvel triplicou entre 2007 e 2012.

A tecnologia também fornece uma oportunidade para que novas vozes se façam ouvidas em serviços públicos de mídia. Estamos vendo o surgimento de novos atores, incluindo jornalistas cidadãos e produtores de vídeo amadores, que estão redefinindo as fronteiras do jornalismo. Da mesma forma, o entusiasmo de jovens pela criação de filmes tem aumentado significantemente. A produção de filmes de ficção em países em desenvolvimento cresceu de 3%, em 2005, para 24%, em 2013, enquanto a produção de documentários cresceu de 1% para 25%, no mesmo período.

Mas essas mudanças estão ocorrendo, de certa forma, em detrimento à diversidade linguística. De fato, 80% do conteúdo linguístico disponível na internet é em inglês, chinês, espanhol, japonês, português, alemão, francês, russo e coreano. Outro desafio identificado pelo Relatório: o crescimento dos gigantes da internet pode minar o acesso à diversidade de escolhas culturais, particularmente a escolha de linguagem. “Embora as plataformas forneçam uma ampla gama de ofertas culturais, o fato de eles controlarem não somente vendas, mas também a comunicação e os algoritmos de recomendações levantam o problema da descoberta de conteúdos”, enfatiza o Relatório.

Políticas Reforçadas

Diante desses desenvolvimentos, alguns países signatários da Convenção adotaram medidas para apoiar profissionais e indústrias criativas. Um exemplo é o estabelecimento de uma renda garantida para os artistas pelo governo norueguês. A Costa do Marfim, por sua vez, adotou medidas em 2013 para promover publicações e leitura. Na Argentina, a lei de 2009 sobre serviços de comunicação audiovisual fez com que conteúdos locais nos canais do país crescessem em 28%.

O Relatório também sublinha que a Convenção está crescentemente em uso nos principais acordos de comércio livre que reconhecem a especificidade de bens e serviços culturais. Mas maiores progressos ainda precisam ser alcançados em outras áreas, particularmente para incentivar o papel das mulheres em certas profissões culturais, para facilitar a mobilidade dos artistas de países em desenvolvimento, e para incorporar a cultura nas estratégias de desenvolvimento sustentável.

Veja o sumário executivo do relatório aqui.

Fala download do documento na íntegra aqui.