Operadoras de celular ampliam cobertura em campos de refugiados de Uganda

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) fechou acordo com operadoras de celular em Uganda para apoiar a conexão de famílias sul-sudanesas no maior campo de refugiados do mundo.

Os celulares são importantes para que os refugiados possam se comunicar com familiares, ter acesso a educação e empregos e até mesmo pedir assistência e proteção.

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O sul-sudanês Brian Dinga, sua cunhada e seus seis filhos foram forçados a fugir de sua casa no Sudão do Sul em setembro de 2016 depois que seu irmão foi morto a tiros na guerra.

Eles atravessaram a fronteira de Uganda e foram acomodados no maior campo de refugiados do mundo, Bidibidi, onde batalham para seguir em frente sob difíceis condições. Brian, de 62 anos, não tinha emprego nem dinheiro, e as perspectivas para a família não eram boas.

Um telefone celular doado à família, no entanto, deu-lhes esperança. Brian foi identificado pela organização não governamental DanChurchAid como vulnerável e passou a receber uma transferência eletrônica de dinheiro por meio do celular para comprar comida.

“Recebo 10 dólares por mês, que são enviados para mim no meu telefone, e podemos comprar o que quisermos”, diz ele. “Nós gastamos com comida, comprando peixe, arroz e vegetais. Até compramos uma galinha para que possamos comer ovos”.

Mais de 1 milhão de pessoas do Sudão do Sul foram forçadas a fugir para o norte da Uganda no ano passado. O sul do país acolhe outros 355 mil refugiados de outras nações.

Os refugiados corriam risco de ficar para trás da revolução digital, especialmente aqueles de áreas rurais onde a conectividade é ruim.

Jens Hesemann, coordenador sênior de campo da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), afirma que a organização buscava novas formas de fazer com que os refugiados utilizassem a tecnologia para se comunicar com familiares, ter acesso a educação e empregos e até mesmo pedir assistência e proteção.

“Esperamos que eles possam definir seus próprios destinos e se tornem menos dependentes das agências humanitárias”, diz.

O ACNUR recorreu ao setor privado para obter ajuda. No início do ano, a agência da ONU fez acordos com as operadoras de telefonia móvel do país MTN, Africell e Airtel para fornecer conectividade para os campos de refugiados no norte de Uganda.

Em julho, a MTN substituiu uma torre móvel em Bidibidi por uma torre permanente para fornecer conexão de telefonia móvel para mais de 500 mil refugiados e para a comunidade de acolhida. A Africell instalou outra torre móvel no assentamento vizinho de Imvepi para aumentar a recepção para mais 200 mil pessoas.

Zein Annous, executivo-chefe da Africell, disse que a empresa estava “seguindo a generosa iniciativa política do governo em relação aos refugiados”, vendendo aparelhos nos assentamentos a preços reduzidos e fornecendo cartões SIM gratuitamente.

“Fornecer serviços de telecomunicação aos refugiados é um negócio, mas também vemos isso como parte de nossa responsabilidade corporativa”, disse. “Queremos melhorar vidas de forma sustentável”.

Trabalhar com o setor privado para fornecer conectividade e melhorar o apoio aos refugiados é um dos temas-chave de uma nova resposta abrangente a ser aplicada em Uganda. O tema também foi discutido em uma conferência de dois dias realizada esta semana em Genebra com o objetivo de encontrar formas de fortalecer a resposta internacional aos refugiados.

Com cinco setores em expansão, a conectividade é crucial em Bidibidi, que tem uma população maior do que a maioria das cidades ugandesas e se estende por uma área de 250 quilômetros quadrados.

O ACNUR está fornecendo telefones para representantes de refugiados para que eles possam informar sobre questões como proteção, abastecimento de água e outros serviços.

Abed Beligeya, de 21 anos, usa seu telefone para fazer chamadas para sua família no Sudão do Sul. “Meu pai está doente e não tem acompanhamento médico”, diz ele. “É caro, então, eu só ligo duas vezes por mês para ter certeza se todos estão bem”.

A MTN e a AirTel firmaram parceria com ONGs como a DanChurchAid, a Mercy Corps e o Comitê Internacional de Resgate para transferir dinheiro para refugiados com necessidades específicas, como idosos, pessoas com deficiência, mulheres grávidas e amamentando e famílias encabeçadas por mulheres.

Sarah Kiden, de 19 anos, seu marido e seu bebê de quase 2 anos chegaram a Bidibidi vindos do Sudão do Sul em setembro de 2016. Ela é uma das 12 mil refugiadas que recebem dinheiro para comprar comida da DanChurchAid, usando um voucher eletrônico mensal fornecido pela AirTel.

“Antes de receber o cartão, era um desafio manter uma dieta equilibrada, vivíamos à base de feijão apenas”, declara. “Foi difícil para mim produzir leite e meu bebê era muito magro. Agora eu posso comprar comida fresca, como carne e verduras. A saúde da minha menina melhorou e ela está muito bem”.

Uma melhor conectividade telefônica também está tendo um efeito positivo sobre a vida das pessoas locais nas comunidades de acolhida, que doaram terras para refugiados.

Bako Diana, de 32 anos, da cidade vizinha de Yumbe, é uma dos quatro ugandeses que foram treinados pela DanChurchAid para usar o cartão eletrônico. Ela vende frutas e vegetais diretamente para refugiados usando os cartões.

O ACNUR, as ONGs e as operadoras de telefonia têm planos para que mais torres sejam construídas nos assentamentos do norte de Palabek, Pagorinya e Rhino. A DanChurchAid e a Mercy Corps planejam distribuir 21 mil telefones em Bidibidi até o final do ano. O ACNUR distribuirá 1,5 mil smartphones aos refugiados no sul do Burundi, na República Democrática do Congo e em Ruanda.

Ao custo de 12 dólares por telefone, estar conectado era muito caro para Brian Dinga e sua família. Agora, podendo fazer compras utilizando o telefone doado, ele não depende mais da distribuição humanitária de alimentos e a vida é mais digna.

“Agradeço a Deus pelo dinheiro que recebemos, e se pudéssemos obter um pouco mais, seria a resposta para todas as minhas orações”, conclui.