Operação militar turca no nordeste da Síria pode libertar membros do Estado Islâmico

Em 11 de outubro de 2019. na Síria, mulher e criança sentam debaixo de caminhão enquanto população deslocada de Ras al-Ain chega a Tal Tamer, fugindo da violência. Foto: UNICEF/Delil Souleiman

A incursão militar turca em andamento no nordeste da Síria pode, involuntariamente, levar à libertação de dezenas de pessoas associadas ao grupo terrorista Estado Islâmico, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres.

Guterres pediu uma redução imediata dos combates, que deixaram muitas vítimas civis e deslocaram até 160 mil pessoas em menos de uma semana.

“Ele também observa com séria preocupação o fato de que as operações militares atuais possam levar à libertação não intencional de indivíduos associados ao Estado Islâmico, com todas as conseqüências que isso pode acarretar”, segundo comunicado divulgado nesta segunda-feira (14) por seu porta-voz.

As milícias curdas mantêm mais de 12 mil supostos membros do Estado Islâmico em prisões no nordeste da Síria, de acordo com relatos da imprensa internacional.

A ofensiva militar turca foi lançada na quarta-feira passada, poucos dias depois de os Estados Unidos anunciarem a retirada de suas tropas da região.

As forças dos EUA há muito trabalham com milícias curdas no nordeste da Síria para combater o Estado Islâmico. A Turquia considera a milícia curda como terrorista.

A mídia internacional relata que as forças curdas chegaram a um acordo com o governo sírio que permitirá que forças nacionais entrem na área.

O chefe da ONU sublinhou a necessidade de acesso humanitário sustentado e seguro às pessoas necessitadas. Ele também enfatizou que os civis devem ser protegidos.

O escritório de assuntos humanitários da ONU, OCHA, estima que o ataque militar até agora tenha gerado de 150 mil a 160 mil “movimentos populacionais”, e esse número deve aumentar.

Pedido de acesso humanitário

Além do deslocamento, os humanitários estão preocupados com a situação de cerca de 13 mil deslocados internos que vivem no campo de Ein Issa, na província de Raqqa.

Esses campos abrigam mais de 100 mil pessoas deslocadas, principalmente mulheres e crianças “com supostos vínculos com combatentes do Estado Islâmico”, de acordo com a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Síria, nomeada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU.

O OCHA disse que os relatórios indicam que, embora vários moradores tenham fugido do campo, a maioria permanece lá.

A ONU está pedindo proteção imediata do campo, juntamente com garantias de passagem segura e sem impedimentos para os deslocados partirem para a capital da província, também chamada Raqqa, ou outras áreas.

As pessoas também foram evacuadas do campo de Mabruka, localizado na vizinha província de Al-Hasakeh, no extremo nordeste da Síria, onde permanecem cerca de 19 famílias.

“Na manhã de 13 de outubro, um caminhão alugado pelos deslocados internos para deixar Mabruka atingiu uma mina terrestre antes de chegar ao campo, ferindo o motorista. Como resultado, os caminhões não conseguiram chegar ao campo para transferir as pessoas”, disse o OCHA em sua última atualização sobre a Síria.

Impacto nos cuidados de saúde

Enquanto o bombardeio continua na cidade fronteiriça de Quamishli, também na província de Al-Hasakeh, a ONU e seus parceiros estão cada vez mais preocupados com a segurança do pessoal local. O OCHA informou que os parceiros humanitários internacionais foram forçados a evacuar pessoal e realocar algumas operações para áreas mais seguras longe da fronteira.

A insegurança também está afetando os serviços de saúde já enfraquecidos no nordeste da Síria, informou a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Dois hospitais nacionais, três hospitais de campanha e centros de saúde nos campos de deslocados internos estão fora de serviço ou oferecendo serviços limitados. Além disso, alguns parceiros de saúde também suspenderam operações.

A OMS está trabalhando para responder às necessidades em meio ao que descreveu como “uma situação caótica”.

A agência de saúde da ONU e seus parceiros posicionaram milhares de tratamentos médicos, vacinas e medicamentos para trauma em um centro em Qamishli, com milhares de outros sendo transportados de avião nesta semana.