OPAS: Em Itaboraí, no Rio, médico cubano sugere foco na atenção primária em curso de medicina no Brasil

Para Duniesky Cabrera Diaz, que integra o Programa Mais Médicos e trabalha no bairro de Ampliação, a formação médica deve incluir uma passagem obrigatória dos profissionais por esta área para despertar seu interesse.

Médico cubano Duniesky Cabrera Diaz que integra o Programa “Mais Médicos”, iniciativa apoiada pelo Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). Foto: OPAS/OMS

Médico cubano Duniesky Cabrera Diaz que integra o Programa “Mais Médicos”, iniciativa apoiada pelo Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). Foto: OPAS/OMS

Inaugurada há 12 anos, a Unidade de Saúde da Família Sadi Ribeiro Gomes, no bairro de Ampliação, em Itaboraí, no Rio de Janeiro, que atende quase 8 mil pessoas, acaba de passar pela sua primeira reforma estrutural, reabrindo ao público em setembro deste ano.

Fazendo parte desta mudança, desde novembro 2013, o médico cubano Duniesky Cabrera Diaz chegou ao Brasil para integrar o quadro médico da Unidade em Ampliação, através do Programa “Mais Médicos”, iniciativa apoiada pelo Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS).

Duniesky conta que se sentiu muito bem acolhido desde o início e que as relações de trabalho foram muito positivas na Unidade. Em suas primeiras semanas, para dar conta das solicitações acumuladas, o médico teve que atender muita demanda espontânea, até normalizar o atendimento, agendar consultas e elaborar um cronograma de trabalho contínuo de saúde local.

“O médico tem que analisar e se informar sobre a área onde ele trabalha. A população daqui não tem conhecimento sobre saúde, as pessoas são muito humildes, com pouco acesso à cultura. Então isso dificulta o conhecimento sobre determinadas doenças, e muitas vezes as pessoas só vêm ao posto quando já estão passando mal, não vêm para prevenir e cuidar da saúde”, disse o médico.

Ao avaliar o programa e os desafios a serem enfrentados pela Unidade, Duniesky disse que a atenção primária melhorou bastante, no entanto a atenção secundária ainda deixa muito a desejar. Ele citou como exemplo as dificuldades que as mulheres grávidas enfrentam quando se aproxima da hora do parto, que são continuamente mandadas de volta para casa, inclusive algumas com mais de 42 semanas de gestão. “Isso não pode acontecer de jeito nenhum, isso tem que mudar”, acrescentou.

Formação de médicos brasileiros em debate

O médico cubano chamou a atenção para o fato do programa ter duração de apenas três anos e a graduação em medicina no Brasil durar, no mínimo, seis. Com isso, no final da estancia dos especialistas do ‘Mais Médicos’ no país o número de médicos brasileiros ainda não será suficiente para suprir as necessidades da população. Além disso, Duniesky destacou a importância de mudar o sistema de formação dos médicos no Brasil, incentivando sua passagem pelo atendimento primário como primordial para despertar o interesse dos profissionais por esta área.

“Em Cuba, nem todos os médicos se dedicam à atenção primária, mas todos têm que passar obrigatoriamente pela atenção primária por dois anos, para depois decidir se permanecem na área ou se vão estudar outra especialidade. Se não houver esta obrigatoriedade, ninguém fica na atenção primária, que é o que acontece no Brasil”, alertou.

Segundo o Programa Mais Médicos, além de levar médicos para regiões carentes do país, a iniciativa vai investir fortemente na formação de novos profissionais. Uma das mudanças mais importantes está prevista para acontecer já a partir de janeiro de 2015, quando os alunos da rede pública e privada que ingressarem na graduação passarão a atuar por um período de dois anos em unidades básicas e na urgência e emergência do Sistema Único de Saúde (SUS).

Em parceria com o Ministério da Educação, foi estabelecida pelo Programa Mais Médicos a meta de abrir 11,5 mil vagas nos cursos de Medicina no país até 2017 e 12 mil vagas para formação de especialistas até 2020. Além disso, ocorrerá uma mudança em relação à lógica de aprovação dos projetos de universidades privadas em abrir cursos de medicinas, principalmente nas regiões prioritárias de atendimento médico.