OPAS alerta para doenças infecciosas que são negligenciadas nas Américas

Mais de 33 mil novos casos de hanseníase e 51 mil ocorrências de leishmaniose cutânea são notificados a cada ano nas Américas. Também na região, 70 milhões de pessoas correm risco de contrair a doença de Chagas, 25 milhões sofrem de esquistossomose e 12,6 milhões têm filariose linfática. Doenças são tema de nova publicação da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

Paciente com leishmaniose na América Central. Foto: WikiCommons / CDC / D.S. Martin

Paciente com leishmaniose na América Central. Foto: WikiCommons / CDC / D.S. Martin

Hanseníase, doença de Chagas, esquistossomose e elefantíase são doenças infecciosas “negligenciadas” nas Américas. A avaliação é da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), que publicou neste mês um livro sobre experiências de sucesso que conseguiram reduzir os números de casos dessas e outras sete patologias — como tracoma, oncocercose e leishmaniose cutânea — pouco contempladas por políticas de atendimento.

As 11 doenças abordadas no volume estão frequentemente associadas à pobreza, afetando grupos indígenas, comunidades rurais e moradores de áreas marginalizadas das grandes cidades. A agência regional da ONU considera que, historicamente, as infecções não receberam atenção suficiente por parte dos governos.

De acordo com a publicação, mais de 33 mil novos casos de hanseníase e 51 mil de leishmaniose cutânea são notificados nas Américas a cada ano. Na região, 70 milhões de pessoas correm risco de contrair a doença de Chagas, 25 milhões sofrem de esquistossomose e 12,6 milhões têm filariose linfática.

A OPAS alerta que, caso não sejam detectadas e tratadas a tempo, essas enfermidades podem gerar efeitos irreversíveis nos indivíduos infectados. A longo prazo, algumas delas podem causar deficiências que afetam as perspectivas de emprego das vítimas — o que perpetua, assim, o ciclo de pobreza. Em situações de miséria, a população fica mais exposta aos agentes patogênicos, de acordo com o organismo regional.

Habitações em más condições, por exemplo, facilitam a entrada de mosquitos e outros insetos vetores em casas e favorecem também a transmissão de doenças como a malária, Chagas e leishmaniose. A falta de água potável e saneamento básico contribuem ainda para a propagação de doenças parasitárias como esquistossomose e fasciolose.

Para controlar e eventualmente eliminar estas doenças nas Américas, a OPAS incentiva e apoia estratégias como a distribuição em massa de antiparasitários e outros medicamentos, bem como o monitoramento de vetores e a educação em saúde nas comunidades.

A OPAS tem facilitado o acesso dos países a remédios doados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), indústria farmacêutica e outros parceiros.

Boas práticas

Entre as experiências bem-sucedidas analisadas no livro, um projeto no Haiti busca combater a filariose linfática — ou elefantíase. O foco central da iniciativa tem sido a distribuição de medicamentos preventivos nas escolas, igrejas e outras áreas de convivência.

O Brasil também é citado no livro por desenvolver uma estratégia inovadora que combina esforços contra tracoma, helmintos e hanseníase em mais de 800 municípios. Para as duas primeiras doenças, o projeto promove a administração em massa de medicamentos preventivos. Quanto à hanseníase, o programa identifica casos individuais em escolas e grupos vivendo em condições de vulnerabilidade.

Outros países, da América Central, são mencionados por seus esforços para impedir a transmissão da doença de Chagas, integrando uso de inseticidas em domicílios com medidas de controle de vetores, além de conscientização para melhorar a higiene da população.

“As iniciativas coletadas neste documento servem como exemplo para outras regiões”, disse o diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis e Análises de Saúde da agência da ONU, Marcos Espinal.