ONU: Violência contra mulher é uma barreira para um futuro de paz para todos

A comemoração oficial das Nações Unidas para o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres (25 de novembro) ocorreu na última segunda-feira (25), na Câmara do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC), na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque.

Evento deu início aos 16 Dias de Ativismo contra a violência de gênero, que neste ano tem como tema “Geração Igualdade contra o estupro!”, e contou com a presença de oficiais das Nações Unidas – que prestaram solidariedade a vítimas de violência contra mulher e a ativistas que trabalham para acabar com essa violação.

Segundo a vice-secretária geral da ONU, Amina Mohammed, o estupro e outras formas de violência de gênero “causam enormes prejuízos econômicos, políticos e sociais a indivíduos, famílias e Estados-nação, e continuam sendo um obstáculo para atingir a igualdade, o desenvolvimento, a paz e o cumprimento dos direitos humanos de mulheres e meninas”.

À esquerda: Ajna Jusic, Presidente da Associação "Filhos Esquecidos da Guerra"; no centro: Phumzile Mlambo-Ngcuka, Diretora Executiva da ONU Mulheres; e, à direita, Maria Luiza Ribeiro Viotti, chefe de gabinete da ONU, discursa na comemoração oficial do Dia Internacional para Eliminação da Violência contra Mulheres. Foto: ONU | Evan Schneider.

À esquerda: Ajna Jusic, Presidente da Associação “Filhos Esquecidos da Guerra”; no centro: Phumzile Mlambo-Ngcuka, Diretora Executiva da ONU Mulheres; e, à direita, Maria Luiza Ribeiro Viotti, chefe de gabinete da ONU, discursa na comemoração oficial do Dia Internacional para Eliminação da Violência contra Mulheres. Foto: ONU | Evan Schneider.

Oficiais das Nações Unidas prestaram solidariedade a vítimas de violência contra mulher e ativistas que trabalham para acabar com essa violação, considerada a mais comum na luta pelos direitos humanos.

“À medida que avançamos em nossos negócios, uma em cada três mulheres que encontramos nesse percurso foi ou será submetida a violência”, disse a brasileira Maria Luiza Ribeiro Viotti, chefe de gabinete das Nações Unidas, falando em nome do secretário-geral, António Guterres.

“Em algumas regiões, e dentre alguns grupos de mulheres, a taxa é ainda mais alta – e isso é somente a violência que é denunciada, então o número real é de fato maior”, completou.

Viotti discursou no evento que marcou o Dia Internacional para Eliminação da Violência contra Mulheres (25 de novembro) e que deu início aos 16 Dias de Ativismo contra a violência de gênero.

A chefe de gabinete também relatou que evidências indicam fortes ligações entre a misoginia e o extremismo, comportamentos que implicam com a paz e a segurança mundiais.

“Uma cultura de violência contra a mulher também tem sérias consequências na luta pela erradicação da pobreza e na luta para promover um desenvolvimento sustentável e inclusivo”, apontou em sua fala no evento oficial.

“A violência impede mulheres de participar das áreas da sociedade que impactam em suas vidas. Essa é uma das barreiras no caminho para alcançar a Agenda de 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, o nosso roteiro para alcançar vidas pacíficas e prósperas em um planeta sustentável”, concluiu.

Os filhos esquecidos da guerra

O estupro é uma grave violação dos direitos humanos com um impacto devastador de longa data, disse a chefe da ONU Mulheres aos participantes do evento.

Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora-executiva da ONU Mulheres afirmou que o estupro “produz efeitos de mudança de vida que vão desde a gravidez até doenças sexualmente transmissíveis, além de um enorme e longo trauma e uma injustificável sensação de culpa”.

“Em algumas situações, as mulheres são rejeitadas pelos seus amados, sendo até punidas por instituições na sociedade”, completou Mlambo-Ngcuka.

Ajna Jusic, de 26 anos, da Bósnia e Herzegovina, sabe desses problemas em primeira mão. Sua mãe sobreviveu ao estupro durante a guerra, um acontecimento que ela nunca desejaria a ninguém.

Levaram 15 anos para que a mãe contasse à filha sobre as circunstâncias de seu nascimento. Hoje, a ativista luta pelo que ela chama de ‘filhos esquecidas da guerra’.

“O heroísmo da minha mãe não pode ser medido. A luta dela para mim foi incrível e continua sendo até hoje. Ela lutou por uma criança que teve seus direitos fundamentais negados: saber sua origem”, disse Jusic no evento.

“Uma criança que não sabia, e nunca saberia de seus laços familiares. Uma criança que não tinha ideia da sua predisposição genética, mas que nasceu com um problema de coração. Ela lutou por mim”, comentou a jovem.

Como Representante Especial do Secretário-Geral sobre Violência Sexual em Conflito, Pramila Patten conheceu muitas mulheres como Jusic e a mãe durante visitas de campo realizadas em países como Mali, Iraque e a República Democrática do Congo (RDC).

Seu trabalho é parte dos esforços da ONU de eliminar esse crime, tão antigo quanto a própria guerra. Uma das ações inclui a adoção de uma resolução do Conselho de Segurança contra violência sexual relacionada a conflitos, bem como o estabelecimento do mandato de seu escritório (Escritório de Representante Especial para Violência Sexual e Conflito).

“O que há muito tempo foi considerado inevitável é agora entendido como evitável. O que antes era considerado colateral ou cultural, hoje é condenado como um ato criminoso”, disse Patten.

Fundo Fiduciário da ONU

Desde 1996, o Fundo Fiduciário da ONU para Acabar com a Violência Contra a Mulher (UNTF) concedeu quase 130 milhões de dólares a organizações, como a Iniciativa de Reabilitação e Conscientização de Vítimas de Ofensas Sexuais (SOAR).

Sediada na Nigéria, a SOAR mobilizou comitês de proteção à criança que respondem a questões de violência sexual contra meninas. Garotas adolescentes também foram treinadas como educadoras para advogar em escolas e em suas comunidades locais.

O trabalho delas de quebrar o silêncio que cerca a violência sexual desencadeou uma série de críticas por serem “contra nigerianos” ou “contra africanos”.

Segundo a diretora-executiva da SOAR, Chinyere Eyoh, “O Fundo Fiduciário da ONU mostrou que parcerias com organizações locais de base, como a que eu trabalho em conjunto, assim como a que a Ajna trabalha na Bósnia, são uma maneira de recuperar nós mesmas”, comentou após citar que o problema da violência contra mulheres e meninas atingiu proporções altas.

“De fato, trabalhando juntas, estou convencida de que a eliminação de todas as formas de violência contra mulher e meninas é possível”, completou Eyoh.

Grandes perdas devido à violência de gênero

Estupro e outras formas de violência de gênero “causam enormes prejuízos econômicos, políticos e sociais a indivíduos, famílias e Estados-nação, e continuam sendo um obstáculo para atingir a igualdade, o desenvolvimento, a paz e o cumprimento dos direitos humanos de mulheres e meninas”, disse a vice-secretária geral da ONU, Amina Mohammed, durante fala na capital nigeriana para marcar o Dia Internacional para Eliminação da Violência contra Mulheres.

“A concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), e a sua promessa – de não deixar ninguém para trás – não poderão ser cumpridas sem que se coloque um fim à violência contra mulheres e meninas”, declarou Mohammed.

A vice-secretária geral descreveu o estupro como “uma manifestação extrema da violência contínua contra mulheres e meninas”.

A ONU está comprometida a apoiar governos em todo o mundo, ela acrescentou, “incluindo a Nigéria, para assegurar os direitos de mulheres e crianças contra a violência”.

Segundo ela, a Iniciativa Spotlight, promovida em conjunto pela ONU e União Europeia, de acabar com todas as formas da violência de gênero e que está sendo implementada em uma série de países, incluindo a Nigéria, representa uma expressão importante do suporte da comunidade internacional para lidar com o desafio.