ONU sempre estará na linha de frente contra o ódio, diz Guterres em memória às vítimas do Holocausto

ONU lembra nesta semana o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, observado em 27 de janeiro. Organização ressalta que o mundo vive um momento de aumento do antissemitismo e de “normalização do ódio”, com o uso político de bodes expiatórios para atacar diferentes minorias.

Foto de Anne Frank, em exposição da ONU de 2012 sobre a vida de crianças no Holocausto. Foto: ONU/JC McIlwaine

Foto de Anne Frank, em exposição da ONU de 2012 sobre a vida de crianças no Holocausto. Foto: ONU/JC McIlwaine

Alertando que o antissemitismo, o mais antigo preconceito do mundo, perdurou e atormenta as novas gerações, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou no sábado (26) que as Nações Unidas sempre estarão na linha de frente da luta contra todas as formas de ódio. O chefe da Organização participou de cerimônia na histórica Sinagoga de Park East, em Nova Iorque, para marcar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, 27 de janeiro.

“Nosso desafio urgente hoje é estar atentos às lições de um período em que a dignidade humana foi posta de lado por uma ideologia racial”, afirmou o dirigente.

Guterres disse que, em 2017, o mesmo evento para marcar o dia internacional ocorreu apenas quatro dias após um homem, com “armas de guerra”, invadir uma sinagoga em Pittsburgh, gritando “todos os judeus têm que morrer”.

“Quando os tiros cessaram, 11 pessoas jaziam mortas. Maridos e esposas. Uma mulher de 97 anos. Todos abatidos durante orações. E alvejados, é o que parece pelo menos em parte, por realizarem um mitzvah, vivendo a sua fé e acolhendo o estranho, (recebendo) novos imigrantes na área de Pittsburgh.”

Descrevendo o episódio como um “ataque bárbaro” e o pior ataque antissemita na história dos Estados Unidos, Guterres lembrou que líderes judeus, cristãos, muçulmanos e de outros credos se reuniram na Sinagoga de Park East no ano passado para se opor ao ódio de todos os tipos.

O rabino sênio da Sinagoga de East Park, Rabbi Arthur Schneie, à esquerda, ao lado de António Guterres, secretário-geral da ONU. Foto: ONU/Laura Gelbert

O rabino sênio da Sinagoga de East Park, Rabbi Arthur Schneie, à esquerda, ao lado de António Guterres, secretário-geral da ONU. Foto: ONU/Laura Gelbert

“Temo, porém, que nos meses desde Pittsburgh, tivemos mais razões para uma preocupação profunda”, lamentou o secretário-geral, observando que, no mês passado, bustos num cemitério judeu em Estrasburgo foram desfigurados com suásticas. Em janeiro de 2019, pedras foram jogadas contra as janelas de sinagoga central de Sofia, na Bulgária.

Já há algum tempo, acrescentou Guterres, ataques antissemitas nos Estados Unidos e na Europa estão se proliferando. Em solo norte-americano, episódios do tipo aumentaram em 57% em 2017. Uma pesquisa europeia apontou no ano passado que 28% dos judeus já haviam vivido alguma forma de assédio por serem judeus. Outro levantamento apontava a persistência firme de clássicos discursos antissemitas.

“O velho antissemitismo está de volta — e está piorando”, disse o chefe da ONU, ressaltando que símbolos e slogans nazistas continuam sendo difundidos, conforme observado por organizações antiódio que rastreiam centenas de grupos neonazistas, pró-nazistas e de supremacistas brancos.

“E como todos nós sabemos muito bem, onde há ódio aos judeus, o ódio aos outros também está ao alcance das mãos”, acrescentou o secretário-geral, que afirmou que o mundo está testemunhando um aumento perturbador de outras formas de intolerância.

Segundo Guterres, ataques contra muçulmanos estão crescendo, a intolerância está se espalhando na velocidade da luz pela internet e pelas redes sociais e grupos de ódio estão usando as plataformas online para se conectar com fanáticos de outros países, que pensam de modo semelhante.

“O ódio está alcançando a popularidade, com grandes partidos políticos incorporando ideias (antes) dos extremos e partidos que eram corretamente considerados párias (políticos) ganhando influência”, disse a autoridade máxima das Nações Unidas.

“Não devemos exagerar nas comparações com os anos 1930, mas da mesma forma não devemos ignorar as similaridades”, acrescentou Guterres, que descreveu o cenário atual como um “pano de fundo doloroso” para o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

“Estamos reunidos para honrar a memória dos 6 milhões de judeus e outros (indivíduos) que foram sistematicamente assassinados. Conforme o número de sobreviventes diminui, cabe a nós levar seu testemunho para as gerações futuras”, disse o secretário-geral.

Segundo o dirigente, a ONU se compromete em estar na linha de frente desse trabalho e em ensinar “nossas crianças a amar, antes que outros as ensinem a odiar”. Guterres explicou o Programa de Conscientização das Nações Unidas sobre Holocausto atua em dezenas de países. O secretário-geral também disse que pediu ao seu conselheiro especial sobre prevenção do genocídio que desenvolva um plano de ação global para aprofundar os esforços da Organização em combater o discurso de ódio.

“Também estamos nos empenhando em um nível mais profundo para lidar com as raízes dos medos e da raiva que tornam as pessoas suscetíveis ao populismo e aos apelos sectários de figuras políticas oportunistas. Isso significa trabalhar por uma globalização justa e construir sociedades democráticas”, disse Guterres.

“E também significa garantir que governos e organizações internacionais mostrem que elas se preocupam com as pessoas e estão sintonizadas com as suas necessidades e aspirações. Eu incluo as Nações Unidas aí. E esse é um trabalho para todas as sociedades, em todos os lugares”, completou o secretário-geral.

Durante a cerimônia em Nova Iorque, o rabino sênior da Sinagoga de Park East, Arthur Schneier, enfatizou que “o antissemitismo não atinge apenas judeus, ele é um indicador de como as sociedades tratam outras minorias”.

“Se você quiser julgar uma sociedade, olhe para como a maioria trata a minoria”, disse o líder religioso, ressaltando que “temos de garantir que estejamos do lado da coexistência pacífica e boa”.

Há 74 anos, prisioneiros de Auschwitz eram libertados pelos soviéticos

O dia internacional é observado em 27 de janeiro por ser essa a data em que tropas soviéticas chegaram ao campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, em 1945, libertando cerca de 7,5 mil sobreviventes.

“O maior complexo de campos de concentração na Europa ocupada, Auschwitz-Birkenau é um sítio de memória para muitos dos grupos perseguidos pela Alemanha nazista. Auschwitz-Birkenau também foi o maior centro de assassinatos em escala industrial, construído para implementar o genocídio dos judeus da Europa. Dos cerca de 1,1 milhão de indivíduos que foram assassinados lá, quase 1 milhão eram judeus, mortos simplesmente porque nasceram judeus”, afirmou a diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay.

Em mensagem para marcar a data, a chefe da agência da ONU alertou para tentativas de negar a ocorrência do Holocausto.

“Mesmo com o avanço das pesquisas a respeito desse fatídico episódio histórico, ainda existem aqueles que insistem em contestar a verdade. As pessoas que negam o Holocausto em todo o mundo continuam a espalhar a desinformação nas mídias sociais. Na Europa, há até quem se envolva em uma retórica ofensiva que contesta a participação de populações e autoridades locais no massacre, desafiando fatos incontroversos”, apontou a dirigente.

“Outros acusam ‘os judeus’ de explorar o Holocausto visando a ganhos financeiros e políticos, em benefício do Estado de Israel, por exemplo”, acrescentou Audrey.

Segundo a chefe da UNESCO, conservar a memória do Holocausto significa continuar a luta contra o antissemitismo, que mancha até hoje a história dos mortos, com contínuos ataques aos judeus.

“A preservação dessa memória exige o apoio da pesquisa histórica. Também requer educação sobre a história do Holocausto, assim como de outros genocídios e crimes em massa”, ressaltou a dirigente.

De acordo com Audrey, “as questões levantadas por essa educação são atuais, considerando a propaganda extremista que existe hoje, as teorias da conspiração desprezíveis que são disseminadas nas redes sociais, a erosão das instituições democráticas e o enfraquecimento do diálogo internacional”.

O Programa Memória do Mundo da UNESCO, de preservação do patrimônio, inclui desde 2017 os arquivos do Processo de Frankfurt – ou Segundo Processo de Auschwitz. A agência da ONU também protege os Arquivos do Gueto de Varsóvia, que foram compilados de forma clandestina pelo Oneg Shabbat, um grupo liderado pelo historiador Emanuel Ringelblum. Por meio de cátedras universitárias e formação profissional, o organismo fomenta o ensino sobre a Segunda Guerra Mundial.

“Neste dia de lembrança, eu convido todos os atores nos campos da educação, da cultura e da ciência a redobrar seus esforços no combate a ideologias do ódio e a contribuir para uma cultura de paz”, completou Audrey.

Bachelet alerta para ‘normalização do ódio’ e ‘demonização’ de comunidades

Também por ocasião do dia internacional, a alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, lembrou que “ao lado de milhões de judeus, as vítimas dos campos nazistas incluíam centenas de milhares de ciganos e (de pessoas) do povo Sinti, pessoas com deficiências, homossexuais, prisioneiros de guerra, dissidentes políticos e membros de redes da Resistência de toda a Europa ocupada”.

“A humanidade jamais poderia ser a mesma novamente depois desse crime terrível, perpetrado numa escala tão massiva e planejado tão sistematicamente. Incontáveis pessoas participaram, ativamente ou por meio da indiferença, à medida que mulheres, homens e crianças eram humilhados, rejeitados, encurralados, transportados para locais de horror e assassinados”, acrescentou a dirigente.

Bachelet afirmou que atualmente o mundo vê um aumento em muitas formas de ódio, incluindo o antissemitismo e também outros ataques a comunidades de minorias. Segundo a alta-comissária, isso inclui agressões físicas e assédio contra crianças e adultos, bem como campanhas caluniosas amplas contra membros de minorias étnicas e raciais e também migrantes. “Em alguns casos, com o apoio ativo de líderes nacionais”, ressaltou a dirigente.

“Temos de nos unir contra essa normalização do ódio. Temos de rejeitar essa maré que sobe lentamente de antissemitismo, xenofobia e outras tentativas de privar categorias específicas de pessoas de sua humanidade e direitos”, acrescentou Bachelet.

A alta-comissária lembrou que a página online do Memorial de Auschwitz afirmou recentemente que “o Holocausto, na verdade, não começou a partir das câmeras de gás”. “Esse ódio se desenvolveu gradualmente pelas palavras, estereótipos e preconceito — por meio da exclusão legal, da desumanização e da violência crescente”, explicava a instituição.

Na avaliação da ex-presidente do Chile, esses mesmos fenômenos de exclusão legal, desumanização e propaganda de ódio, estão se repetindo hoje, visando alguns grupos.

“Diante das tentativas de desumanizar e demonizar comunidades, temos de nos posicionar para defender os direitos humanos”, enfatizou Bachelet.

“Temos de combater a hostilidade e a utilização de bodes expiatórios que estão cada vez mais ancoradas na paisagem política — e que não podem nunca ser justificadas. Elas alimentam a violência, elas machucam e humilham as pessoas e elas prejudicam a sociedade, destruindo nosso senso de uma comunidade comum, engajada em buscar soluções para bem-estar maior de todos nós.”

“Apenas defendendo os direitos humanos e exigindo que os líderes ajam para acabar com a discriminação, podemos verdadeiramente garantir que a perseguição e o genocídio nunca acontecerão de novo”, completou a alta-comissária.