ONU pede que Mali leve responsáveis por ataques contra comunidades à Justiça

As Nações Unidas pediram que autoridades do Mali garantam justiça às vítimas e aos sobreviventes de ataques dos chamados grupos de autodefesa, responsáveis por violência entre comunidades na região central do país, após um ataque no fim de semana que deixou mais de 150 mortos, incluindo cerca de 50 crianças.

O ataque de sábado (23) em Ogossagou, na região de Mopti, é o mais recente em uma série de operações desde março de 2018, que resultou na morte de cerca de 600 mulheres, crianças e homens, afirmou na terça-feira (26) o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH).

O pessoal de campo do UNICEF reúne-se com a população local em Bankass, no centro do Mali, que foi atacada em 23 de março, deixando mais de 150 mortos, 2.000 deslocados e inúmeras cabanas e celeiros queimados. Foto: UNICEF/Maiga

O pessoal de campo do UNICEF reúne-se com a população local em Bankass, no centro do Mali, que foi atacada em 23 de março, deixando mais de 150 mortos, 2.000 deslocados e inúmeras cabanas e celeiros queimados.
Foto: UNICEF/Maiga

As Nações Unidas pediram que autoridades do Mali garantam justiça às vítimas e aos sobreviventes de ataques dos chamados grupos de autodefesa, responsáveis por violência entre comunidades na região central do país, após um ataque no fim de semana que deixou mais de 150 mortos, incluindo cerca de 50 crianças.

O ataque de sábado (23) em Ogossagou, na região de Mopti, é o mais recente em uma série de operações desde março de 2018, que resultou na morte de cerca de 600 mulheres, crianças e homens, afirmou na terça-feira (26) o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH).

“Instamos o governo a conduzir investigações rápidas para garantir justiça e responsabilização, para quebrar este ciclo de impunidade”, disse a porta-voz do ACNUDH, Ravina Shamdasani.

“Enviamos uma equipe (…) com investigadores de cenas criminais, assim como oficiais de direitos humanos, e ela irá realizar entrevistas nos vilarejos afetados para tentar estabelecer o que aconteceu”, disse. De acordo com o ACNUDH, mulheres, homens e crianças da comunidade fulani foram alvo.

“Estas disputas tradicionais sempre estiveram lá”, explicou Shamdasani, frequentemente impulsionadas por disputas por acesso a terras e água. “Mas, recentemente, elas tomaram um caminho particularmente mortal porque toda a comunidade fulani – e estamos falando de milhões de pessoas – está sendo retratada como extremista e violenta simplesmente porque é muçulmana”.

Relatos de sobreviventes indicam que vítimas foram jogadas em poços e que casas e armazéns foram incendiados, destruindo os meios de subsistência de toda a comunidade.

Caçadores tradicionais realizaram o ataque ao vilarejo, segundo os relatos, aparentemente usando armas automáticas, rifles de caça e outras armas, de acordo com o ACNUDH. Embora o governo tenha dissolvido a milícia Dan Nan Ambassagou, que é suspeita de ter cometido algumas das atrocidades, Shamdasani pediu investigações rápidas dos supostos crimes cometidos por todos os grupos.

Outro ataque foi relatado no vilarejo de Welingara, três quilômetros a oeste de Ogossagou. Uma pessoa foi morta no ataque.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) também condenou o ataque mais recente, destacando que os ferimentos sofridos por crianças foram em maioria relacionados a tiros, queimaduras e fraturas.

Grande deslocamento

O porta-voz do UNICEF, Christophe Boulierac, também alertou que milhares de pessoas fugiram da violência crescente: havia 56.400 pessoas deslocadas internamente na região de Mopti no final de 2018, comparado com 2 mil em 2017.

“As primeiras avaliações falam por si só: um terço das pessoas mortas é de crianças, metade das feridas são crianças”, disse Boulierac, em referência ao ataque de sábado. “As escolas estão cada vez mais ameaçadas, então, a ameaça às crianças é clara, e crianças estão pagando o preço mais alto da crise no Mali”.

Para auxiliar o país, autoridades, uma equipe de dez oficiais de direitos humanos, um oficial de proteção às crianças e dois investigadores da Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização do Mali (MINUSMA) foram enviados a Mopti para realizar uma investigação especial sobre os ataques de sábado.

Algumas investigações foram realizadas por autoridades, “mas elas fracassam amplamente em resultar em julgamentos”, disse Shamdasani a jornalistas em Genebra.

O Mali “luta com combates extremistas violentos”, disse Shamdasani, destacando que muitas comunidades estão usando isso como um “pretexto para violência intercomunitária, ou estão se retratando como os chamados grupos de autodefesa e estão tomando as leis em suas próprias mãos e se livrando do que entendem como a ameaça de extremismo violento”.