ONU Mulheres pede atenção às necessidades femininas nas ações contra a COVID-19

Apesar das medidas robustas em todo o mundo para conter a pandemia da COVID-19, o impacto social do novo coronavírus está atingindo fortemente as mulheres, que representam 70% das pessoas que trabalham no setor social e de saúde. Elas também são três vezes mais responsáveis pelos cuidados não-remunerados em casa do que os homens, de acordo com a ONU Mulheres.

Por conta disso, a ONU Mulheres recomenda uma série de medidas específicas nas ações contra o coronavírus, como apoio prioritário para mulheres que atuam na contenção da doença, acordos de trabalho flexíveis para mulheres e proteção de serviços essenciais de saúde para mulheres e meninas, entre outras.

Foto:  Mulher usa máscara em transporte público em Nova Iorque – Março de 2020 – Foto: Loey Felipe/ONU

Foto:  Mulher usa máscara em transporte público em Nova Iorque – Março de 2020 – Foto: Loey Felipe/ONU

Apesar das medidas robustas em todo o mundo para conter a pandemia da COVID-19, o impacto social do novo coronavírus está atingindo fortemente as mulheres, que representam 70% das pessoas que trabalham no setor social e de saúde. Elas também são três vezes mais responsáveis pelos cuidados não-remunerados em casa do que os homens, de acordo com a ONU Mulheres.

Por conta disso, a ONU Mulheres recomenda uma série de medidas específicas nas ações contra o coronavírus, como apoio prioritário para mulheres que atuam na contenção da doença, acordos de trabalho flexíveis para mulheres e proteção de serviços essenciais de saúde para mulheres e meninas, entre outras.

“A maioria das profissionais de saúde são mulheres e isso as coloca em maior risco. Muitas delas também são mães e cuidadoras de familiares. Elas continuam carregando a carga de cuidados, que já é desproporcionalmente alta em tempos normais. Isso coloca as mulheres sob considerável estresse”, disse Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora-executiva da ONU Mulheres.

“Além disso, a maioria das mulheres trabalha na economia informal, onde o seguro de saúde provavelmente não existe ou é inadequado e a renda não é segura. Como elas não estão direcionadas para ajuda financeira, elas acabam não possuindo suporte. Este não é simplesmente um problema de saúde para muitas mulheres; isso vai ao cerne da igualdade de gênero”, analisou a dirigente.

Experiências recentes de outras doenças, como Ebola e Zika, mostraram que esses surtos desviam recursos dos serviços de que as mulheres precisam, mesmo quando a carga de cuidados aumenta e os meios de subsistência sofrem perdas. Um exemplo é a diminuição no acesso a cuidados de saúde pré e pós-natal e contraceptivos quando os serviços de saúde estão sobrecarregados.

Além disso, as necessidades específicas das mulheres profissionais de saúde são frequentemente negligenciadas. “Na Ásia, (…)os produtos de higiene menstrual para as mulheres profissionais de saúde estavam inicialmente ausentes como parte do equipamento de proteção individual”, disse Mohammad Naciri, diretor regional da ONU Mulheres para a Ásia e o Pacífico.

O risco de violência tende a aumentar quando famílias em contextos de violência familiar são colocadas sob tensão, auto-isolamento e quarentena. Relatórios de algumas comunidades impactadas estão mostrando que a COVID-19 está conduzindo tendências semelhantes no momento.

Também há evidências de que os impactos econômicos da COVID-19 afetarão mais as mulheres, já que mais mulheres trabalham em empregos mal remunerados, inseguros e informais. As restrições de movimento podem comprometer a capacidade das mulheres de ganhar a vida e atender às necessidades básicas de suas famílias, como foi visto na crise do Ebola.

“A ONU Mulheres está trabalhando com parcerias para garantir que o impacto de gênero da COVID-19 seja levado em consideração nas estratégias de resposta nos níveis nacional, regional e global”, disse Sarah Hendriks, diretora de Políticas, Programas e Divisão Intergovernamental da ONU Mulheres.

“Isso inclui o apoio à análise de gênero e à coleta de dados desagregada por sexo, para que as necessidades e realidades das mulheres não caiam no buraco, mesmo quando estamos tentando obter mais dados e conhecimento sobre a COVID-19. Também estamos focando em programas que construam a resiliência econômica das mulheres para este e futuros choques, para que elas tenham os recursos necessários para si e suas famílias”, explicou Sarah Henfriks.

Na China, por exemplo, a ONU Mulheres está se concentrando em soluções de recuperação econômica para apoiar pequenas e médias empresas pertencentes a mulheres, a fim de mitigar o impacto econômico negativo do surto. A ONU Mulheres também apoiou campanhas de divulgação para promover a liderança e as contribuições das mulheres na resposta a COVID-19, atingindo mais de 32 milhões de pessoas.

À medida em que ocorre o fechamento de escolas e creches para conter a disseminação do novo coronavírus, a capacidade das mulheres de se envolverem em trabalho remunerado enfrenta barreiras extras. Globalmente, as mulheres continuam sendo remuneradas 16% menos que os homens, em média, e a disparidade salarial sobe para 35% em alguns países. Em tempos de crise como esse, as mulheres geralmente enfrentam a opção injusta de desistir do trabalho remunerado para cuidar de crianças em casa.

A ONU Mulheres está trabalhando em estreita colaboração com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e outras agências e países-membros da ONU para fortalecer a resposta coordenada ao surto. Também está aproveitando as redes existentes de organizações lideradas por mulheres para promover a voz e a tomada de decisões das mulheres na preparação e resposta a COVID-19.

“Garantir que a comunicação de crise e risco atinja e alcance mulheres, pessoas com deficiência e grupos marginalizados é de extrema importância agora”, disse Paivi Kaarina Kannisto, chefe de Paz e Segurança da ONU Mulheres.

Paivi Kannisto explicou que na Libéria e em Serra Leoa, as campanhas de mobilização comunitária da ONU Mulheres focaram na disseminação de mensagens sobre prevenção ao Ebola, gerenciamento de casos e contra a  estigmatização. “Por meio da conscientização, sensibilização da comunidade e treinamento, os programas utilizaram mulheres locais conversando com outras mulheres por meio de diferentes mídias, incluindo mensagens de rádio e de texto. Isso ajudou a garantir que as informações compartilhadas para salvar vidas fossem relacionáveis e fornecidas por uma fonte confiável. A abordagem de integrar uma resposta focada em gênero que se baseou nas redes de mulheres locais teve um impacto significativo na contenção regional bem-sucedida da crise do Ebola”, relatou.

A ONU Mulheres emitiu um conjunto de recomendações, colocando as necessidades e a liderança das mulheres no centro de uma resposta eficaz ao COVID-19:

– Garantir a disponibilidade de dados desagregados por sexo, incluindo taxas diferentes de infecção, impactos econômicos diferenciais, carga de atendimento diferenciado e incidência de violência doméstica e abuso sexual;
– Incorporar as dimensões e as pessoas especialistas em gênero nos planos de resposta e nos recursos orçamentários para incorporar a experiência em equipes de resposta;
– Fornecer apoio prioritário às mulheres na linha de frente da resposta, por exemplo, melhorando o acesso a equipamentos de proteção individual para mulheres e produtos de higiene menstrual para profissionais de saúde e prestadores de cuidados de saúde, e acordos de trabalho flexíveis para mulheres com uma carga de cuidados;
– Garantir voz igual para as mulheres na tomada de decisões na resposta e no planejamento de impacto a longo prazo;
– Garantir que as mensagens de saúde pública sejam direcionadas adequadamente às mulheres, incluindo as mais marginalizadas;
– Desenvolver estratégias de mitigação que visem especificamente o impacto econômico do surto nas mulheres e desenvolver a resiliência das mulheres;
– Proteger serviços essenciais de saúde para mulheres e meninas, incluindo serviços de saúde sexual e reprodutiva e;
– Priorizar os serviços de prevenção e resposta à violência de gênero nas comunidades afetadas pela COVID-19.