ONU Mulheres: intersecção entre gênero e raça é central na luta por igualdade

Em visita ao Brasil, a diretora-executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, elogiou a organização das mulheres negras brasileiras no combate ao racismo. Para a representante da ONU Mulheres Brasil, Nadine Gasman, a intersecção entre gênero e raça é central na luta pela igualdade de direitos. As declarações foram feitas durante o 13º Fórum Internacional da Associação para os Direitos das Mulheres e o Desenvolvimento (AWID) Futuros Feministas, ocorrido na Bahia.

Phumzile Mlambo-Ngcuka é subsecretária geral da ONU e diretora executiva da ONU Mulheres. Foto: ONU

Phumzile Mlambo-Ngcuka é subsecretária geral da ONU e diretora executiva da ONU Mulheres. Foto: ONU

A diretora-executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, participou na semana passada do 13º Fórum Internacional da Associação para os Direitos das Mulheres e o Desenvolvimento (AWID) Futuros Feministas. O encontro, ocorrido na Bahia, reuniu 2 mil pessoas de mais de 100 países.

Na quinta-feira (8), primeiro dia do evento, Phumzile reuniu-se com mais de 30 mulheres negras brasileiras, latino-americanas e africanas em uma manifestação de apoio da ONU Mulheres ao enfrentamento do racismo no âmbito da Década Internacional de Afrodescendentes, criada pelas Nações Unidas para promover a valorização de negros e negras por meio de Justiça, desenvolvimento e eliminação da discriminação racial.

O encontro foi uma continuidade do diálogo estabelecido pela diretora com o grupo desde a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, ocorrida em novembro de 2015, durante sua primeira visita oficial ao Brasil.

“Essa forma de organização das mulheres negras brasileiras é única e muito forte. Não tem só que se manter, mas se visibilizar”, disse Phumzile. A diretora manifestou interesse de a ONU Mulheres organizar uma reunião sobre a intersecção de gênero e raça, para aumentar a articulação das ativistas no contexto da Década Internacional de Afrodescendentes.

Phumzile mencionou, ainda, a agenda internacional de acordos globais, ressaltando os 25 anos do Plano de Ação de Pequim, em 2020. O documento é uma referência por ter estabelecido 12 metas globais para o empoderamento das mulheres e a igualdade de gênero. A diretora-executiva também citou o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número 5, voltado à igualdade de gênero, e que também deve absorver a dimensão racial.

“O primeiro ponto do ODS 5 é acabar com todo o tipo de discriminação contra todas as mulheres. Quando falamos da discriminação, temos de ter um foco especializado em raça. Nos próximos cinco anos, nós, juntas, temos muito trabalho para fazer”, frisou, enfatizando também a necessidade de as mulheres participarem ativamente das eleições como candidatas e na escolha de políticas e políticos que tenham compromisso com o empoderamento das mulheres.

“É preciso motivar candidatos e candidatas a falar sobre seu foco e sua entrega integral de compromissos com as mulheres negras brasileiras”, considerou. Sobre o empoderamento político das mulheres, Phumzile completou: “temos que ter as mulheres certas nos espaços de poder”.

No 13º Fórum Internacional da AWID Futuros Feministas, Phumzile Mlambo-Ngcuka reuniu-se com cerca de 30 ativistas negras, destacando período de preparação da 5ª Conferência Mundial da Mulher e agendas globais da Década Internacional de Afrodescendentes e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Foto: ONU Mulheres

No 13º Fórum Internacional da AWID Futuros Feministas, Phumzile Mlambo-Ngcuka reuniu-se com cerca de 30 ativistas negras, destacando período de preparação da 5ª Conferência Mundial da Mulher e agendas globais da Década Internacional de Afrodescendentes e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Foto: ONU Mulheres

Democracia, violência, saúde e trabalho

A ativista dominicana Sérgia Galvan, da Rede de Mulheres Negras Latino-Americanas, mostrou preocupação com a democracia e a garantia dos direitos humanos das mulheres.

“Há uma estratégia da direita. O que passa no Brasil coloca em risco também a democracia em outros países na região e obviamente as mais afetadas, no caso de Honduras, foram as mulheres negras. Estamos com uma ameaça permanente”, avaliou.

Para Lúcia Xavier, integrante da ONG Criola e membro da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras, o racismo expõe a população negra à violência, às doenças e à insegurança no mercado de trabalho.

Lúcia falou sobre a vulnerabilidade das trabalhadoras domésticas, porque “elas têm sido as primeiras a sofrer com a crise econômica pela qual o país passa não só com a diminuição de empregos, mas também pela redução de direitos”.

Sobre a crise sanitária das arboviroses, denunciou: “nos preocupa também o que vai acontecer com as mulheres ao enfrentar a epidemia de zika, chikungunya e dengue, que só revela as violações no campo da saúde”. “Também revela a total falta de segurança e assistência às quais as mulheres negras são submetidas. E lembrando que a maioria delas são jovens e terão de pagar o ônus da consequência dessa epidemia”, concluiu.

A moçambicana Paula Assobuji comentou os laços que unem as mulheres negras na diáspora e sugeriu a realização de uma marcha global das afrodescendentes. “O crescimento das forças conservadoras não acontece só no Brasil ou na África do Sul. Acontece também no meu país, Moçambique. Tudo aquilo que vi e aprendi aqui sobre a Marcha das Mulheres Negras foi muito forte. Foi muito positivo. Me fez acreditar que a mudança é possível. Que daqui cinco anos nós tenhamos uma marcha de mulheres negras do mundo”, propôs.

Ao final do encontro, a representante da ONU Mulheres Brasil, Nadine Gasman, reiterou o compromisso da entidade com as mulheres negras brasileiras.

“Vocês sabem que, para a ONU Mulheres, a intersecção entre gênero e raça é central. Temos sido parceiras muito honradas da Marcha e seguimos comprometidas, porque achamos que o movimento de mulheres negras vai seguir fazendo a diferença neste país”, afirmou.

Marcha das Mulheres Negras

Cerca de 50 mil mulheres participaram da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, em novembro de 2015, num momento histórico da luta pela igualdade de direitos, por um país mais justo e democrático e pela defesa de um novo modelo de desenvolvimento baseado na valorização dos saberes e da cultura afro-brasileira.

A marcha é uma iniciativa de diversas organizações e coletivos do Movimento de Mulheres Negras e do Movimento Negro, além de contar com o apoio de importantes intelectuais, artistas, ativistas, gestores e gestoras, comunicadores e comunicadoras e referências das mais diversas áreas no Brasil, América Latina e África.

A proposta da Marcha surgiu durante o Encontro Paralelo da Sociedade Civil para o Afro XXI, realizado em 2011, em Salvador, capital do estado da Bahia. A partir de então, mulheres negras e do movimento social deram início às mobilizações para a Marcha.


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