ONU lança 2ª edição de projeto para inserir refugiadas no mercado de trabalho brasileiro

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A Rede Brasil do Pacto Global lançou na quinta-feira (9), em São Paulo, a segunda edição do projeto Empoderando Refugiadas. O objetivo da iniciativa é conscientizar empresas sobre a possibilidade legal de contratar refugiadas, além de preparar as estrangeiras vítimas de deslocamento forçado para entrar no mercado de trabalho brasileiro.

Refugiadas receberam orientações sobre entrevistas de emprego e dicas sobre como encontrar oportunidades em redes sociais. Foto: Rede Brasil do Pacto Global/Fellipe Abreu

Refugiadas receberam orientações sobre entrevistas de emprego e dicas sobre como encontrar oportunidades em redes sociais. Foto: Rede Brasil do Pacto Global/Fellipe Abreu

A Rede Brasil do Pacto Global lançou na quinta-feira (9), em São Paulo, a segunda edição do projeto Empoderando Refugiadas. O objetivo da iniciativa é conscientizar empresas sobre a possibilidade legal de contratar refugiadas, além de preparar as estrangeiras vítimas de deslocamento forçado para entrar no mercado de trabalho brasileiro.

“A gente pretende dar uma visão dos seus direitos como mulheres trabalhadoras e também ajudá-las, por exemplo, a compreender como se faz uma entrevista de trabalho aqui no Brasil”, explicou a secretária-executiva da Rede Brasil, Beatriz Martins Carneiro, às 25 participantes do primeiro encontro do projeto. “Espero que o Brasil receba vocês muito bem.”

Uma das refugiadas era Salsabil Matouk. Natural de Damasco, na Síria, ela era dona de uma farmácia em seu país de origem. “Com a guerra, tudo foi embora”, conta, sobre o conflito que completa seis anos neste mês.

Radicada no Brasil há pouco mais de dois anos, depois de passar pela Jordânia e Arábia Saudita, Salsabil hoje prepara pratos árabes em sua casa para vender, mas pretende, por meio do projeto, voltar a atuar na área farmacêutica. “A mulher tem que fazer suas coisas, ter sua vida. Não precisa ficar em casa cozinhando”, diz refugiada que está grávida de oito meses do terceiro filho – o segundo que nascerá em solo brasileiro.

Público diverso

A síria faz parte do grupo que, ao longo de quatro meses, participará de workshops com conteúdo específico para refugiadas. Os temas incluem mercado de trabalho, direitos e cultura brasileira, espírito empreendedor e saúde e bem-estar. Também estão incluídas no programa sessões de coaching e preparação para entrevistas de emprego.

Segundo a funcionária do ACNUR, Camila Sombra, a escolha das participantes foi pensada para refletir a comunidade de refugiadas que escolheu o Brasil para recomeçar a vida: mulheres de diversas nacionalidades e, muitas delas, com formação universitária e alto nível de qualificação.

Ao longo do dia, as refugiadas — oriundas de países da África Subsaariana, do Oriente Médio e da América Latina — receberam orientações para a elaboração adequada de um currículo e dicas para encontrar vagas nas redes sociais. Também participaram de atividades de conscientização sobre os direitos trabalhistas e aprenderam técnicas para entrevistas de emprego.

Ao longo de quatro meses, refugiadas receberão capacitação sobre direitos trabalhistas, inserção no mercado de trabalho e empreendedorismo. Foto: Rede Brasil do Pacto Global/Fellipe Abreu

Ao longo de quatro meses, refugiadas receberão capacitação sobre direitos trabalhistas, inserção no mercado de trabalho e empreendedorismo. Foto: Rede Brasil do Pacto Global/Fellipe Abreu

Camila Fusco, do Facebook, chamou atenção para as oportunidades que podem ser encontradas na internet. “Atualmente, 114 milhões de brasileiros usam o Facebook. Imaginem se alguns deles forem os clientes de vocês”, disse.

Além de buscarem emprego, muitas refugiadas têm como meta principal o seu próprio negócio. É o caso da congolesa Jolie Angela Cameli Pemba chegou ao Brasil há pouco mais de dois anos. Advogada de formação, ela trabalha atualmente como faxineira. Com a participação no Empoderando Refugiadas, ela espera tirar do papel o “Sabor da África”, projeto para aproximar os brasileiros do continente onde nasceu por meio da gastronomia.

Mais do que um restaurante, o empreendimento também vai entregar refeições em lugares que abrigam os refugiados, ajudando a população a superar os desafios que dificultam sua integração ao novo país.

Português fluente

Entre as profissionais que participaram do evento, uma unanimidade: a importância do estudo e do domínio do idioma português, um desafio para muitas delas.

“Percebo que muitas refugiadas não conseguem trabalho porque o seu português é muito básico. Para trabalhar em empresa, escritório, área administrativa, o domínio do idioma precisa ser muito bom. Não pensem que um curso básico de português vai abrir muitas portas para esse tipo de vaga. Se vocês souberem de cursos avançados de português, online, gratuitos, corram atrás”, enfatizou Eliane Figueiredo, do Projeto RH.

Mulheres refugiadas receberão orientações sobre como ocorrem os processos de seleção e recrutamento para empregos no Brasil. Foto: Rede Brasil do Pacto Global/Fellipe Abreu

Mulheres refugiadas receberão orientações sobre como ocorrem os processos de seleção e recrutamento para empregos no Brasil. Foto: Rede Brasil do Pacto Global/Fellipe Abreu

Danielle Pieroni, da FoxTime Recursos Humanos, alertou as refugiadas sobre eventuais situações de discriminação que elas podem enfrentar por não dominarem plenamente a língua. “Nem sempre a gente encontra o discurso bonito do relatório de sustentabilidade nas empresas. No dia a dia, quem está na ponta pode não ter o mesmo comprometimento com isso, e ele que vai ter o relacionamento com você, infelizmente.”

No Brasil há sete anos, Luyindula Ndenga Helene não vê no idioma um obstáculo. Falando português fluentemente, ela concluiu um curso de técnica em enfermagem no Brasil e pretende encontrar trabalho na área da saúde por meio do Empoderando. “Foi difícil, mas tive que aprender”, conta ela, sobre o tempo em sala de aula.

Natural da República Democrática do Congo, ela também vê no emprego uma oportunidade de ajudar o seu país. “Com o trabalho, posso mandar dinheiro de volta para lá”, disse.

Vagas nas empresas

Para fechar a tarde, as refugiadas participaram de uma sessão de mentoria com voluntários de recursos humanos. O objetivo dessa primeira conversa foi explicar um pouco da dinâmica de seleção e recrutamento no Brasil. O encontro também serviu para que os profissionais pudessem conhecer um pouco da trajetória de cada mulher participante do projeto.

Para Cibele Delbin, consultora de Responsabilidade Social e Diversidade do Carrefour, a contratação de refugiados e imigrantes é uma estratégia para aumentar o alcance da rede de supermercados junto ao público, que se identifica com uma equipe multicultural. “É bom para o negócio, não é caridade”, afirma.

Atualmente, o Carrefour conta com 60 refugiados em seu quadro de funcionários em todo o Brasil. “Felizmente, não tivemos nenhum caso de insucesso. Normalmente, o refugiado vem para cá para vencer e é um funcionário com ritmo de trabalho alto, excelente capacidade de execução e altíssimo engajamento, o que traz um impacto positivo para toda a equipe”, completou.

Oportunidades de vida

A refugiada venezuelana Yilmary Carolina Mediomundo de Perdomo se formou em terapia ocupacional no país de origem, mas teve deixar a pátria para buscar melhores oportunidades de vida e sustentar a família. A validação do seu diploma no Brasil, porém, parece um sonho distante. “Tem uma série de traduções que são exigidas e que, sem emprego, eu não consigo fazer”, explica ela que, atualmente, trabalha preparando doces.

O ofício começou como um hobby de mãe, que fazia bolos para a filha intolerante à lactose. Atualmente, ela divulga os produtos nas redes sociais e vê no Facebook uma ferramenta para impulsionar o negócio.

“Meu objetivo aqui é transformar o que estou fazendo como meio de sustento para, então, validar o meu diploma e seguir fazendo o que eu gosto, que é ajudar pessoas. Não preciso de um trabalho como terapeuta, mas de uma oportunidade”, ressaltou.

O Empoderando Refugiadas é coordenado pela Rede Brasil do Pacto Global, por meio de seu Grupo Temático de Direitos Humanos e Trabalho. A iniciativa é fruto de uma cooperação com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e a ONU Mulheres.

O projeto tem como parceiros estratégicos a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, a Fox Time Recursos Humanos, o ISAE e o Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados (PARR). Além disso, conta com as seguintes empresas parceiras: Carrefour, EMDOC, Facebook, Lojas Renner e Sodexo. O encontro da semana passada foi viabilizado pela Thomson Reuters e contou ainda com a participação de representantes da Microsoft.


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