ONU lamenta morte do ex-secretário-geral Javier Pérez de Cuéllar

O peruano Javier Pérez de Cuéllar, quinto secretário-geral das Nações Unidas (1982-1991), elogiado por sua capacidade de promover o diálogo e por liderar a Organização em uma década turbulenta, faleceu aos 100 anos.

Diplomata, advogado e professor veterano, ele foi o primeiro e único latino-americano a ocupar o cargo mais alto da ONU até agora.

Em comunicado divulgado na noite de quarta-feira (4), o atual secretário-geral da ONU, António Guterres, disse estar profundamente triste com a morte de Pérez de Cuéllar e elogiou o ex-chefe da ONU como “um estadista realizado, um diplomata comprometido e uma inspiração pessoal que deixou um profundo impacto nas Nações Unidas e em nosso mundo”.

Javier Perez de Cuellar discursa na Assembleia Geral da ONU em Nova York após ser nomeado para um segundo mandato de cinco anos, com início em 1º de janeiro de 1987. Foto: ONU/Yutaka Nagata

Javier Perez de Cuellar discursa na Assembleia Geral da ONU em Nova York após ser nomeado para um segundo mandato de cinco anos, com início em 1º de janeiro de 1987. Foto: ONU/Yutaka Nagata

O peruano Javier Pérez de Cuéllar, quinto secretário-geral das Nações Unidas (1982-1991), elogiado por sua capacidade de promover o diálogo e por liderar a Organização em uma década turbulenta, faleceu aos 100 anos.

Diplomata, advogado e professor veterano, ele foi o primeiro e único latino-americano a ocupar o cargo mais alto da ONU até agora.

Em comunicado divulgado na noite de quarta-feira (4), o atual secretário-geral da ONU, António Guterres, disse estar profundamente triste com a morte de Pérez de Cuéllar e elogiou o ex-chefe da ONU como “um estadista realizado, um diplomata comprometido e uma inspiração pessoal que deixou um profundo impacto nas Nações Unidas e em nosso mundo”.

Nascido em Lima, no Peru, em 19 de janeiro de 1920, foi nomeado para liderar a ONU após 42 anos de serviço diplomático.

Carreira diplomática distinta

“A vida de Pérez de Cuéllar durou não apenas um século, mas também toda a história das Nações Unidas, que remonta à sua participação na primeira reunião da Assembleia Geral, em 1946”, disse Guterres.

Ao longo de sua carreira, além de ser o embaixador de seu país na Suíça — e também na União Soviética, Polônia e Venezuela — Pérez de Cuéllar ocupou muitos cargos de alto nível no Ministério de Relações Exteriores do Peru, incluindo o de representante permanente nas Nações Unidas em 1971.

Durante o mês em que presidiu o Conselho de Segurança da ONU, em julho de 1974, ele administrou habilmente a crise em Chipre. Um ano depois, foi nomeado representante especial do secretário-geral em Chipre por dois anos e depois se tornou o chefe de Assuntos Políticos da ONU e o representante da ONU no Afeganistão.

O período da Guerra Fria e o crescente papel da ONU

Guterres afirmou que o mandato de seu antecessor como secretário-geral coincidiu com duas épocas importantes nos assuntos internacionais: alguns dos anos mais intensos da Guerra Fria e, posteriormente, o período de confronto ideológico — um momento em que a ONU começou a desempenhar mais plenamente o papel previsto por seus fundadores.

Em 1982, seu mandato como chefe da ONU começou com intensas negociações entre o Reino Unido e a Argentina sobre a disputada soberania das Ilhas Falkland/Malvinas. Persistente diante dos inúmeros desafios, Pérez de Cuéllar produziu uma frase agora famosa, referindo-se às negociações de paz: “o paciente está em terapia intensiva, mas ainda está vivo”.

Apesar dos problemas de saúde, ele concordou em servir por um segundo mandato como chefe da ONU. Em seu discurso de aceitação em 1986, ele referenciou a crise financeira que a ONU estava passando na época, dizendo que “declinar em tais circunstâncias seria o equivalente a abandonar um dever moral para com as Nações Unidas”.

Apesar dos problemas de saúde, ele concordou em servir por um segundo mandato como chefe da ONU. Em seu discurso de posse em 1986, citou a crise financeira que a ONU estava passando na época, dizendo que “declinar (o convite) em tais circunstâncias seria o equivalente a abandonar um dever moral para com as Nações Unidas”.

Reiterando sua “fé inabalável” na “validade permanente” da Organização, ele acrescentou que a “situação difícil” da ONU oferece uma “oportunidade criativa para renovação e reforma”.

“Pérez de Cuéllar desempenhou um papel crucial em vários sucessos diplomáticos — incluindo a independência da Namíbia, o fim da Guerra Irã-Iraque, a libertação de reféns norte-americanos mantidos no Líbano, o acordo de paz no Camboja e, nos seus últimos dias no cargo, um histórico acordo de paz em El Salvador”, disse o atual chefe da ONU.

Seu segundo mandato também foi marcado pela retirada das tropas soviéticas do Afeganistão. Entre outras conquistas, sua equipe facilitou a estabilidade política na Nicarágua.

Em 1987, recebeu o Prêmio Príncipe das Astúrias pela promoção da cooperação ibero-americana. Em 1989, recebeu o Prêmio Olof Palme de entendimento internacional e segurança comum e o Prêmio Jawaharlal Nehru de entendimento internacional.

Muito tempo depois de seu mandato como secretário-geral da ONU ter terminado, em 1991, ele permaneceu fiel aos valores das Nações Unidas e continuou defendendo a paz, a justiça, os direitos humanos e a dignidade humana ao longo de sua vida. Condecorado por cerca de 25 países, ele também recebeu vários diplomas honorários.

Em seu discurso ao Comitê Nobel, que concedeu o Prêmio Nobel da Paz às Operações de Manutenção da Paz da ONU em 1989, ele definiu o papel de organizações intergovernamentais como as Nações Unidas como sendo “traçar a linha entre luta e conflito”. Graças à sua determinação inflexível, ele ajudou muitas nações a “permanecer do lado direito dessa linha”.

“Envio as mais profundas condolências à família de Pérez de Cuéllar, ao povo peruano e a tantos outros ao redor do mundo cujas vidas foram tocadas por um líder global notável e compassivo que deixou nosso mundo em um lugar muito melhor”, disse Guterres.

O secretário-geral da ONU, Javier Perez de Cuellar, visita Katatura, uma cidade negra de Windhoek, Namíbia, em julho de 1989. Foto: ONU/Milton Grant

O secretário-geral da ONU, Javier Perez de Cuellar, visita Katatura, uma cidade negra de Windhoek, Namíbia, em julho de 1989. Foto: ONU/Milton Grant