ONU é chamada a monitorar retirada de civis e combatentes do leste de Alepo

Uma mulher e seus filhos aguardam transporte em Alepo, na Síria. Foto: OCHA / L. Tom

A ONU foi convidada nesta quinta-feira (15) pelo Grupo Internacional de Apoio à Síria (ISSG) a monitorar e auxiliar a evacuação de milhares de pessoas que estão nos distritos do leste de Alepo ainda sob controle de grupos rebeldes. O plano para desocupar a região inclui a prestação de cuidados médicos para os feridos e doentes, bem como a liberação de civis vulneráveis e de combatentes.

As Nações Unidas vão supervisionar a saída em segurança das populações em risco com a ajuda do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (ICRC) e Organização Mundial da Saúde (OMS). Representantes de todos os organismos já estão a postos para acompanhar os que serão retirados de Alepo — e também de Idlib — até a fronteira e o território da Turquia, caso o país seja escolhido como seu destino final.

A participação das agências humanitárias foi definida em reunião do ISSG realizada hoje em Genebra. O Grupo é composto por Estados Unidos e Rússia, que copresidem o organismo, e também pela Liga Árabe, pela União Europeia e outros 16 países.

Em pronunciamento logo após o encontro, o conselheiro sênior das Nações Unidas para a Síria, Jan Egeland, informou que o acordo sobre a evacuação não foi feito em nome da ONU, mas sim através de diálogos diretos entre as diferentes partes da guerra no país. O dirigente afirmou esperar que o plano “seja o começo da última e bem-sucedida tentativa de evacuações”.

O representante da ONU disse ainda que a Rússia também vai monitorar a situação e garantirá que as evacuações sejam “rápidas e não invasivas”. além de assegurar que os que deixarem a região afetada terão sua segurança preservada.

“Temos um forte pressentimento de que a história de Alepo nesta guerra será um ‘capítulo obscuro’ na história das relações internacionais. Foram necessários 4 mil anos para construir Alepo, centenas de gerações, e no entanto, um única geração conseguiu derrubá-la em quatro anos”, afirmou Egeland.

“Alepo, por 3 mil anos, contribuiu para a civilização mundial e a civilização mundial não estava lá para dar assistência ao povo de Alepo quando eles mais precisaram”, acrescentou.

O governo sírio tem uma responsabilidade
clara em garantir que seu povo esteja
em segurança e está falhando palpavelmente.

A ONU calcula que cerca de 50 mil pessoas foram deslocadas do leste da cidade. A maioria recebeu ajuda do organismo internacional, mas muitos permanecem sem proteção humanitária porque as Nações Unidas não conseguem operar livremente pelo território sob conflito.

Segundo o conselheiro sênior, a Organização tem acesso aos campos de emergência, mas as circunstâncias são bastante difíceis: limitações de espaço forçam 2 famílias — ou um grupo de 10 a 12 pessoas — a dividirem o mesmo quarto. Egeland frisou que a ONU não conseguiu estar presente quando civis estiveram mais vulneráveis em Alepo.

Além da cidade, outras 15 regiões sob cerco abrigam 700 mil sírios que precisam receber assistência humanitária.

“Todas as partes no terreno são culpadas de bloquearem o acesso para profissionais humanitários internacionais. Eu não consigo me lembrar de uma guerra na última geração onde isso foi um problema tão agudo”, lamentou o representante da ONU. Informações de al-Waer, Homs, Foua, Kefraya, Madaya, e Shia continuam sendo recebidas com preocupação pelas Nações Unidas, pois relatos indicam que as pessoas estão sendo impedidas de saírem desses locais.

Egeland explicou que, como a ONU não participou dessas últimas negociações, a prioridade da organização é assistir civis. Veículos estão prontos para dar ajuda aos sírios de Alepo conforme eles forem evacuados, embora alguns comboios enfrentem dificuldades de acesso devido a postos de checagem mantidos pelo governo da Síria.

Evacuação deve respeitar direito internacional

O anúncio do ISSG veio um dia após o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al-Hussein, criticar o aparente colapso de um acordo de evacuação anterior. O dirigente afirmou ainda que a retomada de bombardeios — realizados governo sírio e seus aliados — sobre áreas de Alepo povoadas por civis poderia constituir um crime de guerra.

“Qualquer retirada de civis no leste de Alepo deve ser conduzida em conformidade com o direito internacional. O governo sírio tem uma responsabilidade clara em garantir que seu povo esteja em segurança e está falhando palpavelmente em usar essa oportunidade para isso”, disse Al-Hussein, que lembrou que, segundo relatos, ônibus transportando pessoas evacuadas foram bloqueados por milícias pró-autoridades.