ONU destaca potencial da participação cidadã na coleta de dados científicos

Impulsionado pela facilidade de coletar dados com smartphones e internet móvel, o engajamento de indivíduos no monitoramento da natureza é visto com otimismo pela ONU Meio Ambiente e pela Agência Espacial Norte-Americana (NASA).

Uso de aplicativos específicos por voluntários permite à NASA monitorar desastres naturais e difundir informações sobre impacto ambiental.

"Cientista cidadã" coleta amostras no Parque Nacional Rocky Mountain, nos EUA. Foto: Serviço de Parques Nacionais dos Estados Unidos
“Cientista cidadã” coleta amostras no Parque Nacional Rocky Mountain, nos EUA. Foto: Serviço de Parques Nacionais dos Estados Unidos

Pessoas interessadas em proteger o meio ambiente ou monitorar eventos naturais têm se transformado em aliadas poderosas dos cientistas. Impulsionado pela facilidade de coletar dados com smartphones e internet móvel, o engajamento desses indivíduos — conhecido pelo nome “ciência cidadã” — é visto com otimismo pela ONU Meio Ambiente.

“A ciência cidadã é um fenômeno”, afirma o coordenador regional e assessor científico sênior da ONU Meio Ambiente, Jason Jabbour. “Ela tem um enorme potencial.”

A agência das Nações Unidas lembra a disseminação dos smartphones, que permitem possibilidades inéditas de compartilhamento de informações. Esses aparelhos são particularmente populares entre os mais jovens, que constituem parte considerável da população de países em desenvolvimento. Com o advento das tecnologias 5G nas grandes cidades de todo o mundo, a tendência é que a difusão de dados se acelere.

“Nós todos temos esses aparelhos, e eles estão coletando toneladas de informação em tempo real. E você (ainda) tem a habilidade de coletar tipos mais específicos de informação. Você não precisa de muito treinamento para contribuir com o processo científico”, acrescenta Jabbour.

Iniciativas de ciência cidadã têm se multiplicado pelo planeta. Especialistas acreditam que inspirar indivíduos a informar os cientistas pode melhorar a qualidade de vida dos voluntários e dos seus filhos.

Jabbour destaca que o engajamento desse público tem relação direta com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS) sobre meio ambiente e mudanças climáticas. Os cidadãos estão se tornando um “atalho” para cientistas e organizações que precisam de informações precisas, relevantes e atualizadas até o último minuto, mas dependem dos governos para acessar dados cruciais sobre as transformações do clima e esforços de mitigação.

Cidadãos e a NASA

Uma das formas de ciência cidadã é o “groundtruthing”, termo que, mesmo entre os falantes de língua inglesa, ainda é restrito ao círculos científicos. Mas a palavra — cuja tradução adaptada é algo como “verificação do solo” — não é nada mais do que a checagem, em terra, de fenômenos registrados por satélites. Alguns desses dispositivos estelares só orbitam o nosso planeta uma vez ao dia, mas em contextos de emergência ambiental, como deslizamentos ou erupções vulcânicas, as informações precisam ser atualizadas a cada minuto, não diariamente. É aí que a ciência cidadã entra em ação.

A Agência Espacial Norte-Americana (NASA) desenvolveu aplicativos voltados para indivíduos “leigos”, que vivem em contextos vulneráveis às mudanças climáticas. Com isso, voluntários em campo podem coletar dados que são analisados e difundidos pelo organismo dos Estados Unidos, contribuindo para uma resposta mais eficaz a fenômenos climáticos e desastres naturais.

“Temos de garantir que a ciência tenha em mente um usuário final ou um ator interessado”, avalia a especialista da NASA Shanna McClain, que integra o Programa para a Redução de Riscos e Resiliência.

A agência espacial também implementa o projeto Comunidades e Áreas em Risco Intensivo, que contempla pequenos Estados Insulares, comunidades costeiras e de regiões montanhosas, que estão mais expostas e vulneráveis a desastres. Com softwares para smartphones baseados na ciência cidadã, as autoridades conseguem monitorar deslizamentos e enchentes. A iniciativa foi bem-sucedida em Hampton Roads, no estado da Virginia, onde a NASA estabeleceu uma parceria com o Instituto estadual de Ciência Marinha e criou o aplicativo “Catch the Tide”, a fim de monitorar cheias e alagamentos anuais.

É uma via de mão dupla. A NASA disponibiliza o que os satélites mostram, e os cidadãos informam o que eles estão presenciando na superfície terrestre — “groundtruthing”.

“Garantimos que o que nós vemos ou o que não estamos vendo do espaço seja confirmado do solo, por alguém que, de fato, o testemunhou”, completa McClain.

A especialista explica que a “visão” dos satélites de uma área afetada por catástrofes naturais depende da sua órbita de rotação em volta do planeta. “Não podemos capturar o planeta inteiro de uma vez”, afirma.

“Se conseguirmos capturar parte dessa informação antes do tempo e reorientar nossos satélites para capturar um evento (natural), também poderemos levar dados aos socorristas de emergência, como quais cidades foram impactadas ou quais estradas eles não podem mais acessar, (pois foram) afetadas por uma inundação repentina”, diz McClain.

Na avaliação da integrante da NASA, “a ciência cidadã empodera a comunidade para deixá-la mais preparada”, além de tornar os moradores mais conscientes de como a natureza à sua volta funciona. Residentes de zonas de risco para certos fenômenos podem começar a entender o que leva a determinados eventos, além de compreender como os seus dados afetam a vida de vizinhos e dos lugares onde vivem.

“A ciência é frequentemente algo que parece distante para algumas pessoas ou desconectada de suas vidas. O app traz a ciência para dentro dos lares dessas comunidades. É uma ferramenta tanto de educação quanto de colaboração”, completa a profissional da agência espacial.

Controvérsias

Jason Jabbour aponta, porém, que dados oriundos da participação coletiva não são universalmente bem-recebidos.

“É muito simples. Alguns países veem isso como uma ameaça à sua soberania. Eles não querem liberar informação que os tornaria menos competitivos ou que os fariam ser vistos de forma negativa. Ao mesmo tempo, há um reconhecimento de que alguns dados que os governos não liberam não estão sendo explorados em seu potencial pleno”, diz o representante da ONU Meio Ambiente.

Um exemplo, aponta Jabbour, são as estatísticas sobre mortes prematuras associadas à poluição do ar.

“A divulgação desses dados, ou colocá-los nas mãos de sistemas que podem ajudar países, tem, de fato, motivado a mudança. Eles podem ver o quão custoso é ter uma qualidade de ar ruim.”

O especialista ressalta ainda o potencial de dados abertos e livres para empresas de tecnologia, como a IBM, que podem usar essas informações para ajudar organismos internacionais, como a ONU Meio Ambiente.

“Elas gostariam que houvesse mais mais dados livres, além dos (dados) espaciais e geoespaciais”, acrescenta Jabbour.

De acordo com o cientista, coletar dados com um propósito é o que trará mais benefícios para a maioria das pessoas.