ONU denuncia danos psicológicos causados por política de refúgio da Austrália

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Em 25 anos de carreira, nunca vi uma situação tão ruim quanto em Nauru e na Ilha Manus, da Papua Nova Guiné. É assim que o oficial sênior da ONU, Indrika Ratwatte, descreve as condições de vida de solicitantes de refúgio que buscavam asilo na Austrália, mas foram detidos em países insulares, para triagem fora do território australiano. Precariedade causou problemas psicológicos e doenças mentais.

Solicitante de refúgio entra nas antigas instalações do centro de triagem de refugiados da Austrália, mantido na ilha de Manus, na Papua Nova Guiné. Foto: ACNUR/Vlad Sokhin

Solicitante de refúgio entra nas antigas instalações do centro de triagem de refugiados da Austrália na ilha de Manus, na Papua Nova Guiné. Foto: ACNUR/Vlad Sokhin

Em 25 anos de carreira, nunca vi uma situação tão ruim quanto em Nauru e na Ilha Manus, da Papua Nova Guiné. É assim que o oficial sênior da ONU, Indrika Ratwatte, descreve as condições de vida de solicitantes de refúgio que buscavam asilo na Austrália, mas foram detidos em países insulares, para triagem fora do território australiano. Precariedade causou problemas psicológicos e doenças mentais.

A avaliação do dirigente foi divulgada neste mês após conhecer instituições e locais onde vivem os refugiados. Em 2013, a Austrália deu início à sua política de processamento ultramarino de pedidos de refúgio. Desde então, os países insulares visitados por Ratwatte receberam mais de 3 mil pessoas, incluindo crianças, vindas do Afeganistão, Irã, Síria, Sri Lanka e Mianmar.

Indivíduos eram levados para centros de triagem mantidos pelas autoridades australianas. Desde o final do ano passado, porém, a Austrália decidiu desativar os estabelecimentos, cuja manutenção ficará a cargo dos governos locais. Em alguns países, como na Papua Nova Guiné, a transição está mais avançada.

Na avaliação de Ratwatte, as circunstâncias do acolhimento deixaram a população mentalmente marcada.

“Eu vi uma menininha, por exemplo, que tinha 12 anos, em estado catatônico. Ela não saía do seu quarto há um mês”, descreveu o especialista, que chefia o Escritório da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) para a Ásia e o Pacífico.

“Clínicos psiquiatras determinaram que cerca de 80% dos solicitantes de refúgio e refugiados em Nauru e Manus sofrem de estresse pós-traumático e depressão. Essa é uma das mais altas taxas per capita de doença mental que (já) foram observadas.”

Segundo o dirigente do ACNUR, a falta de serviços de psiquiatria e cuidado médico “aumentou o senso de desespero’ da população. A Austrália precisa fortalecer o apoio aos países para a manutenção do atendimento e da prestação de assistência.

“A questão aqui é também o fato de que a Austrália tem uma longa tradição de apoiar programas humanitários e de refugiados globalmente, mas nesse caso, a política de processamento ultramarina teve um impacto extremamente prejudicial para refugiados e requerentes de asilo.”

Atualmente, existem cerca de 2 mil detentos nas ilhas. Cerca de 40 crianças em condição de refúgio não conhecem nada além da vida em prisão, acrescentou Ratwatte. Outros 50 jovens passaram mais de metade de suas vidas encarcerados.

Um acordo entre a Austrália e os Estados Unidos determina que cerca de mil detentos de Nauru serão assentados para território norte-americano. Aproximadamente 180 já deixaram a ilha.

O ACNUR celebrou a cooperação, mas alertou que um número ainda grande de refugiados continuará na ilha. Para contornar o problema, a agência da ONU recomendou que o governo australiano aceite a proposta da Nova Zelândia para receber os refugiados.

“É uma oferta muito genuína e a Nova Zelândia tem um programa excelente para assentamento de refugiados”, completou Ratwatte.


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