ONU critica linguagem tóxica contra refugiados

Filippo Grandi, alto-comissário da ONU para Refugiados, em pronunciamento no Conselho de Segurança. Foto: ONU/Evan Schneider

Em pronunciamento no Conselho de Segurança da ONU, em Nova Iorque, o alto-comissário da ONU para os Refugiados, Filippo Grandi, alertou na terça-feira (9) para a linguagem tóxica disseminada na imprensa, nas redes sociais e entre políticos para falar sobre refugiados, migrantes e estrangeiros. Dirigente cobrou respostas do Conselho a diferentes conflitos armados, que estão por trás do deslocamento forçado de quase 70 milhões de pessoas no planeta.

Grandi vê uma “estigmatização” sem precedentes da figura do refugiado no debate público. O alto-comissário criticou o uso equivocado da expressão “crise de refugiados” para falar dos movimentos em massa de pessoas que cruzam fronteiras.

“É uma crise para uma mãe com as suas crianças, que foge da violência de criminosos. É uma crise para um adolescente que quer fugir da guerra, de violações dos direitos humanos, do alistamento forçado. É uma crise para governos em países com poucos recursos e que, todos os dias, abrem suas fronteiras para milheres (de pessoas). Para eles, é uma crise”, enfatizou o chefe da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), ressaltando que o termo “crise global de refugiados” é inadequado.

“Oitenta e cinco porcento dos refugiados do mundo estão em países pobres ou de renda média. É aí que a crise mora”, acrescentou o alto-comissário.

Um número inédito de 68,5 milhões de pessoas em todo o mundo foi forçado a abandonar seus lares. Entre esse contingente, estão quase 25,4 milhões de pessoas refugiadas. Mais da metade delas são menores de idade.

“Dos quase 70 milhões de pessoas que estão deslocadas ou refugiadas, a maioria está fugindo de conflitos”, afirmou Grandi no Conselho de Segurança. “Se os conflitos fossem evitados ou resolvidos, a maioria dos fluxos de refugiados desapareceria. Ainda assim, as abordagens de pacificação seguem fragmentadas e insuficientes para a construção da paz.”

“Por meio do engajamento e da vontade política, que vocês representam aqui no mais alto nível, e com melhores respostas, consagradas no Pacto Global sobre Refugiados, é possível e urgente enfrentar essas crises. E vocês, que representam o Conselho de Segurança, têm um papel fundamental”, cobrou o dirigente.

O chefe do ACNUR lembrou ainda que, em mais de 30 anos trabalhando com questões de refúgio, “eu nunca vi tanta toxicidade, tanto veneno na linguagem da política, da mídia, das redes sociais, até mesmo em conversas e discussões cotidianas sobre o tema”. Isso, acrescentou a autoridade para os Estados-membros do Conselho, “deveria ser uma preocupação de todos nós”.

Grandi citou a crescente violência na Líbia, onde civis estão em risco, e expressou especial preocupação pelos refugiados e migrantes presos em centros de detenção em áreas de conflito. Mais tarde, no mesmo dia, o alto-comissário anunciou que o ACNUR conseguiu transferir mais de 150 pessoas do centro de detenção Ain Zara, no sul de Trípoli, para um local seguro, o Centro de Recolhimento e Partida da agência da ONU.