ONU alerta para risco de ‘balcanização’ do Iêmen caso esforços diplomáticos fracassem

Para o chefe do ACNUDH, Zeid Al Hussein, fragmentação política poderá levar ao surgimento de redutos de grupos extremistas, como o Estado Islâmico. Conflitos no Iêmen já mataram 600 crianças em 2015.

Em Sana’a, iemenitas procuram sobreviventes em meio a escombros, após bombardeio realizado pela coalizão com a Arábia Saudita. Foto: IRIN / Almigdad Mojalli

Em Sana’a, iemenitas procuram sobreviventes em meio a escombros, após bombardeio realizado pela coalizão com a Arábia Saudita. Foto: IRIN / Almigdad Mojalli

O alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, apelou ao Conselho de Segurança nesta terça-feira (22) para que intensifique os esforços diplomáticos no Iêmen, onde os conflitos ao longo do ano já deixaram ao menos 21 milhões de pessoas precisando de assistência humanitária. Caso negociações fracassem, segundo o dirigente, o país pode passar por um processo de “balcanização”, ou seja, de fragmentação do Estado.

Para o chefe do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), a possível desagregação política do Iêmen “criaria quase inevitavelmente redutos seguros para grupos radicais e confessionais, como o chamado Estado Islâmico (ISIS ou ISIL). Isso, por sua vez, poderia expandir o conflito para além das fronteiras do Iêmen, potencialmente estilhaçando a estabilidade regional”.

Em mensagem ao Conselho, o enviado especial da ONU para o país, Ismail Ould Cheikh Ahmed, também chamou a atenção para o “vácuo de segurança” gerado pelos confrontos entre o Governo e forças de oposição. A situação pode favorecer a expansão de organizações extremistas. O representante destacou que a Al Qaeda, por exemplo, já consolidou sua presença no sul da Península Arábica, onde o território iemenita está localizado. Por conta de violações repetidas do cessar-fogo acordado entre as partes do conflito, Ahmed adiou negociações de paz para meados de janeiro.

Enquanto isso, a situação humanitária no país é crônica. Ao menos 21 milhões de pessoas dependem de algum auxílio para sobreviver, o que representa 80% da população. Ao menos dois milhões, entre eles, 320 mil crianças, são considerados mal nutridos. Cerca de 14 milhões não têm acesso a tratamento médico adequado e mais de 2,5 milhões de pessoas foram internamente deslocadas pela violência. A violência no país já provocou a morte de mais de 600 crianças e deixou mais de 900 feridas, valor cinco vezes maior que o registrado em 2014.

“Tenho observado, com extrema preocupação, a continuação dos bombardeios pesados (que partem) em terra e do ar em áreas com alta concentração de civis, assim como a perpetuação da infraestrutura civil – em particular, hospitais e escolas – por todas as partes do conflito, embora uma quantidade desproporcional pareça ser resultado de ataques aéreos realizados pelas Forças de Coalizão”, alertou o chefe do ACNUDH.

Apesar dos desafios, a assistência humanitária tem conseguido alcançar a população do país. Em novembro, 1,9 milhão de pessoas receberam alimentos. Esse número deve chegar a três milhões em dezembro e atingir a média mensal de cinco milhões até fevereiro de 2016. Outros quatro milhões de iemenitas receberam acesso a água e a saneamento básico.