ONU alcança 40 mil pessoas em maior entrega de ajuda humanitária na Síria

Na fronteira sul da Síria, o maior comboio humanitário da ONU a operar dentro do país distribuiu com sucesso ajuda para 40 mil pessoas, anunciou na sexta-feira passada (15) o Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

Em Rukban, região que recebeu a assistência, pelo menos oito crianças morreram recentemente por causa do inverno rigoroso e da falta de serviços médicos. No local, algumas mulheres estavam se prostituindo para sobreviver.

Crianças estão particularmente vulneráveis em Rukban, na Síria. Foto: OCHA

Crianças estão particularmente vulneráveis em Rukban, na Síria. Foto: OCHA

Na fronteira sul da Síria, o maior comboio humanitário da ONU a operar dentro do país distribuiu com sucesso ajuda para 40 mil pessoas, anunciou na sexta-feira passada (15) o Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). Em Rukban, região que recebeu a assistência, pelo menos oito crianças morreram recentemente por causa do inverno rigoroso e da falta de serviços médicos. No local, algumas mulheres estavam se prostituindo para sobreviver.

A operação foi a segunda vez em que a ONU conseguiu distribuir bens essenciais para a população de Rukban, localizada numa zona desértica e de difícil acesso, perto da fronteira com a Jordânia. O comboio foi organizado com o Crescente Vermelho Árabe Sírio e chegou à área no início de fevereiro (6).

“Foi uma operação de ajuda complexa e em larga escala, é a maior já realizada pelas Nações Unidas na Síria”, disse Jens Laerke, do OCHA.

“A missão durou nove dias e consistiu em 133 caminhões no total: 118 carregados com suprimentos de emergência e 15 levando apoio logístico”, explicou o representante do organismo.

“Mais de 300 funcionários, voluntários e fornecedores comerciais participaram. Foram mais de dois meses de articulação e negociações com todas as partes para garantir acesso seguro (à região).”

Rukban fica a cerca de 300 quilômetros da capital, Damasco, e é uma das últimas áreas de difícil acesso que precisam de ajuda regular da ONU e parceiros. Rotas de abastecimento são frequentemente bloqueadas. Segundo o Programa Mundial de Alimentos (PMA), a maioria dos moradores é de mulheres e crianças que vivem há anos em condições duras.

O porta-voz da agência, Hervé Verhoosel, afirmou que, em meio à pobreza e à falta de bens básicos, muitas famílias não têm acesso a madeira e “acabam coletando lixo e plástico para fazer fogueiras para cozinhar e se aquecer”.

Os preços de alimentos e outros produtos estão “exponencialmente altos”, acrescentou o representante da agência da ONU, e commodities tiveram que ser contrabandeadas para o mercado.

O porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), Andrej Mahecic, acrescentou que, em Rukban, os casamentos precoces são “comuns” para meninas e usados como uma tática de sobrevivência pelas famílias.

“Algumas mulheres estão sujeitas a casamentos em série e algumas nos disseram que haviam recorrido à prostituição como único meio de sobrevivência”, ressaltou o representante.

Mahecic também destacou que muitas mulheres estão “essencialmente aterrorizadas de deixar suas cabanas ou tendas e irem para o lado de fora, pois há sérios riscos de violência sexual, abusos sexuais e assédios”.

Recém-nascidos em risco por causa do inverno

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) alertou para o custo mortal da falta de assistência médica básica em Rukban. “Não há médicos certificados e apenas algumas clínicas com poucos suprimentos”, disse o porta-voz Christophe Boulierac.

“Desde dezembro do ano passado, ao menos oito crianças – a maioria delas recém-nascidas – morreram no acampamento por conta das temperaturas congelantes e da falta de assistência médica.”

De acordo com o UNICEF, 30 dos 118 caminhões do comboio foram carregados com suprimentos da agência. Entre os mantimentos, estão itens de saúde e alimentos para cerca de 20 mil crianças e suas mães, kits de higiene para mais de 40 mil pessoas, kits recreativos, livros escolares e mochilas para mais de 8 mil meninos e meninas.

Após quase oito anos da guerra na Síria, que começou em março de 2011, centenas de milhares de pessoas foram mortas e 6,2 milhões vivem como deslocadas internas dentro do país, de acordo com dados do OCHA. Outros 5,7 milhões de indivíduos fugiram do território sírio em busca de segurança em países da região.

ONU quer apoiar reconstrução pós-guerra

Partes da infraestrutura básica também foram destruídas e vão precisar ser reconstruídas antes que os sírios voltem para casa. Em coletiva de imprensa em Genebra, o enviado especial da ONU para a Síria, Geir Pedersen, disse que as Nações Unidas vão “contribuir definitivamente” com a reconstrução do país, mas isso dependerá do apoio da comunidade de doadores.

“Obviamente, para a Síria sair da crise, precisamos de uma abordagem abrangente”, disse o dirigente.

“E, obviamente, esta abordagem deve fazer com que as pessoas deslocadas internamente voltem para as suas casas, com que os refugiados voltem para as suas casas, mas é claro que há certas exigências para que isto aconteça.”

Pedersen foi questionado sobre a probabilidade de um encontro do Comitê Constitucional em Genebra, em linha com o apelo do Conselho de Segurança da ONU por um processo genuíno, credível e inclusivo para acabar com o conflito. O enviado disse esperar que a reunião seja realizada “o mais rápido possível”.

Uma vez finalizado, o Comitê Constitucional vai abranger três grupos: o governo da Síria, uma delegação ampla da oposição e um grupo que inclui especialistas, sociedade civil, independentes, líderes tribais e mulheres.

“Tivemos boas discussões com as partes relevantes, acho que identificamos os desafios e concordamos sobre como devemos seguir adiante, vejo isto como um sinal muito positivo”, concluiu Pedersen.