ONU: 2,5 bilhões de pessoas não possuem acesso a banheiros; 1 em cada 6 nas regiões em desenvolvimento

Relatório da ONU destaca lacunas em saneamento básico, sobretudo em áreas rurais. Problema prejudica principalmente meninas e mulheres, podendo causar a morte de crianças com menos de cinco anos.

Foto: ONU/Patricia Esteve

Foto: ONU/Patricia Esteve

A ONU apelou nesta quarta-feira (19) às lideranças de regiões em desenvolvimento para que se unam aos funcionários dos governos para defender o fim da defecação ao ar livre, uma prática de bilhões de pessoas em todo o mundo – um sexto dos 5,9 bilhões de habitantes do mundo em desenvolvimento. No total, 2,5 bilhões de pessoas não possuem acesso a banheiros.

Em Nova York, marcando o Dia Mundial dos Banheiros – 19 de novembro –, coordenado pela ONU-Água, o vice-secretário-geral das Nações Unidas, Jan Eliasson, destacou a ameaça à saúde que a falta de acesso ao saneamento representa, bem como os perigos concretos que a defecação ao ar livre coloca para mulheres e meninas.

“Nós sabemos que a vontade política ao mais alto nível é fundamental para enfrentar esses desafios. No entanto, também sabemos que o sucesso em acabar com a defecação ao ar livre vai para além da infraestrutura. Exige a compreensão dos comportamentos, atitudes culturais e normas sociais”, disse Eliasson.

“Ao longo de todas as fases da vida, mulheres e meninas são as maiores vítimas da falta de acesso às instalações sanitárias. As meninas são mais propensas a abandonar a escola se eles tiverem acesso a banheiros seguros e limpos. Mulheres e meninas também podem se arriscar com o assédio e o abuso sexual ao tentar usar sanitários públicos, ou quando procuram um lugar para defecar ao ar livre. O acesso universal ao saneamento tem um papel claro a desempenhar na defesa da segurança das mulheres, em sua dignidade e igualdade”, disse Eliasson.

Em março de 2013, o vice-secretário-geral, em nome do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, lançou a campanha “Agir pelo Saneamento”. Esta, por sua vez, inspirou a campanha “Pelo Fim da Defecação ao Ar Livre” da ONU, criada no início deste ano.

A prática da defecação ao ar livre está profundamente enraizada na pobreza, mas também tem sido associada à cultura e aos costumes em alguns países e sociedades. Na África Subsaariana, onde 25% da população pratica defecação ao ar livre, a diarreia é a terceira maior causa de morte entre crianças com menos de cinco anos de idade.

Estudos estimam que uma criança morre a cada 2,5 minutos por causa de água não potável, saneamento e higiene deficientes. Crianças com diarreia comem menos e são menos capazes de absorver os nutrientes dos alimentos, o que as torna ainda mais suscetíveis a doenças relacionadas com bactérias. As crianças mais vulneráveis à diarreia aguda também não têm acesso a serviços de saúde capazes de salvar vidas.

O recente surto de ebola, por sua vez, colocou os holofotes sobre a questão da defecação ao ar livre na África Ocidental. Na Libéria, a nação mais afetada pelo ebola, cerca de metade de 4,2 milhões de cidadãos do país não usam banheiros; na zona rural de Serra Leoa, o segundo país mais atingido, a estimativa é de 28%.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) publicaram uma orientação conjunta sobre água, saneamento e higiene (WASH, na sigla em inglês) e sua relação com o ebola, incluindo a necessidade de sanitários separados para uso dos doentes e profissionais de saúde em clínicas de ebola.

Estimativas recentes do Programa de Monitoramento Conjunto da OMS e do UNICEF indicam que a defecação ao ar livre foi reduzida quase para a metade nas regiões em desenvolvimento entre 1990 e 2012, uma queda de 31% a 17% nessas populações.

Cerca de 825 milhões de pessoas – 82% dos que praticam defecação ao ar livre – residem em apenas 10 países. Cinco na Ásia: Índia, 597 milhões (47% da população nacional); Indonésia, 54 milhões (21%); Paquistão, 41 milhões (22,5%); Nepal, 11 milhões (40%) e China, 10 milhões (menos de 1%). Outros cinco estão na África: Nigéria, 39 milhões (22%); Etiópia, 34 milhões (36%); Sudão, 17 milhões (45%); Níger, 13 milhões (72%); e Moçambique, 10 milhões (38%).

No resto do mundo, o número de pessoas que praticam a defecação ao ar livre está estimado em 182 milhões. Segundo a ONU, a defecação ao ar livre está diminuindo progressivamente na Ásia e na América Latina e Caribe.

Saiba mais no site do Centro Regional de Informação das Nações Unidas (UNRIC Bruxelas), em http://bit.ly/1t5d4jG