ONG apoia mulheres vivendo com a HIV a alcançar a estabilidade financeira no Quênia

A atual pandemia da COVID-19 preocupa Karambu Ringera, fundadora e presidente da ONG Iniciativas Internacionais pela Paz, que ajuda órfãos, mulheres vivendo com o HIV e sobreviventes de violência a realizarem iniciativas sustentáveis para que alcancem estabilidade e autossuficiência.

Uma das iniciativas da ONG – a Casa Kithoka Amani – abriga 76 crianças e oferece três refeições diárias, mas está fechada desde o início da pandemia do coronavírus. “Sinto que cada vez mais as pessoas precisam criar seus próprios sistemas sustentáveis onde elas estão, para que durante desafios como esse, pelo menos possam ter sua própria alimentação”. Leia o relato do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS).

Karambu Ringera, fundadora e presidente da ONG Iniciativas Internacionais pela Paz. Foto: UNAIDS

A fundadora e presidente da ONG Iniciativas Internacionais pela Paz no Quênia, Karambu Ringera, afirma que a paz não é apenas a ausência de guerra. Para Ringera, “a paz é quando as pessoas têm acesso a recursos que lhes permitem atender às suas necessidades básicas, para que possam viver sua vida com dignidade. Se as pessoas não têm comida nutritiva, se as crianças não vão à escola, se há um conflito, elas não estão em paz. A COVID-19 veio nos lembrar disso”.

Ringera diz que a paz é holística — embora sua organização foque em mulheres que vivem com HIV e crianças órfãos pela AIDS, ela acredita que também está trabalhando pela paz.

Seu trabalho começou no início dos anos 2000, quando Ringera era estudante nos Estados Unidos. Nas férias de verão, quando voltou para sua cidade natal, Meru, no Quênia, conheceu um grupo de mulheres, algumas das quais haviam perdido recentemente seus maridos. A maioria das mulheres não sabia a causa da morte de seus maridos, mas visto que as mortes relacionadas à AIDS no Quênia estavam no auge, Ringera suspeitou do motivo. Ela incentivou as mulheres a descobrirem seu próprio estado sorológico para HIV, para que não seguissem os passos de seus maridos.

Movida pela difícil situação das mulheres que conheceu, onde muitas não tinham condições de enviar seus filhos para a escola ou ter acesso ao tratamento do HIV, quando retornou aos Estados Unidos, Ringera organizou um evento cultural, no qual a comida queniana era servida e as pessoas poderiam aprender sobre a cultura africana. Ela arrecadou US$ 400 — o suficiente para enviar sete crianças para a escola.

Ringera queria ajudar mais crianças no Quênia e, para isso, decidiu contar com a ajuda das próprias mulheres para que elas criassem uma solução. Ringera segue o provérbio que diz que é importante “não apenas dar o peixe às pessoas, mas ensinar a pescar”. Para Ringera, era importante que as mulheres entendessem que elas poderiam se ajudar.

Assim, as mulheres da cidade de Meru decidiram que fabricariam jóias, as quais poderiam ser vendidas em seus eventos culturais de captação de recursos. Ao mesmo tempo, as mulheres começaram a desenvolver outras habilidades, como tecelagem e serviço de fornecimento de refeições coletivas, para que pudessem iniciar seus próprios negócios e se sustentar.

Quase duas décadas depois, Ringera dirige uma organização não governamental que ajuda órfãos, mulheres vivendo com o HIV e sobreviventes de violência a realizarem iniciativas sustentáveis para que alcancem estabilidade e autossuficiência.

No começo, muitas dessas mulheres que trabalham na Iniciativas Internacionais pela Paz, não podiam pagar um uniforme escolar de US$ 3 para seus filhos. Hoje, Ringera está orgulhosa por muitas terem colocado seus filhos na universidade. “As pessoas, mesmo em circunstâncias vulneráveis, podem transformar suas vidas. Temos mulheres, jovens e crianças para mostrar que isso é possível. Precisamos criar intervenções que inspirem as pessoas a salvarem elas mesmas”, afirmou Ringera.

No entanto, a atual pandemia da COVID-19, preocupa Ringera. “Vamos precisar de uma boa estratégia para sobreviver como uma família”, disse. “Desde 2009, quando a Casa das crianças Kithoka Amani (KACH na sigla em inglês) foi aberta, é a primeira vez que fechamos as portas. Fizemos isso imediatamente depois de ouvir as notícias sobre o novo coronavírus”, conta Ringera.

A casa abriga 76 crianças, que precisam ser alimentadas três vezes ao dia. Ringera acha que a susentabilidade é fundamental — ela e sua equipe estão plantando, mantendo galinhas e tentando coletar alimentos para pelo menos três meses. “Sinto que cada vez mais as pessoas precisam criar seus próprios sistemas sustentáveis onde elas estão, para que durante desafios como esse, pelo menos possam ter sua própria alimentação”, concluiu Ringera.