OMS: Vírus zika afeta tecidos nos cérebros de fetos e de humanos, apontam novas evidências

Diretora da agência da ONU destaca que microcefalia é apenas uma das várias anormalidades associadas à infecção durante a gravidez; Margaret Chan também revela que transmissão sexual é mais comum do que se pensava; Comitê recomenda que grávidas não viajem a países afetados. Matéria de Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York.

A diretora-geral da OMS, Margaret Chan, reunida com o Comitê de Emergência sobre o zika e condições neurológicas relacionadas. Foto: OMS

A diretora-geral da OMS, Margaret Chan, reunida com o Comitê de Emergência sobre o zika e condições neurológicas relacionadas. Foto: OMS

A diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou em Genebra as conclusões da reunião realizada esta terça-feira (8) pelo Comitê de Emergência sobre o zika e condições associadas ao vírus.

Margaret Chan foi clara: mais pesquisas foram realizadas desde 1o de fevereiro e, agora, é possível concluir que o vírus afeta tecidos no cérebro e também o tronco cerebral de fetos.

Chan confirmou que o zika foi detectado no líquido amniótico e “evidências mostram que o vírus pode atravessar a placenta e infectar o feto”. Segundo ela, desde que o Comitê de Emergência foi criado, várias pesquisas reforçaram a “associação entre a infecção de zika e a ocorrência de malformação congênita e de desordens neurológicas”.

A chefe da OMS explica que a distribuição geográfica do vírus está se ampliando e o grupo de risco é cada vez maior. Além da picada do mosquito, outro meio de transmissão são as relações sexuais.

Margaret Chan declarou também que “relatos e investigações de vários países sugerem fortemente que a transmissão sexual de zika é mais comum do que se pensava”.

A transmissão local foi confirmada em 31 países da América Latina e Caribe, mas todas as regiões do mundo reportaram “casos importados” de zika. Ela acredita que mais casos serão registrados.

O vírus também já foi detectado no sangue, no tecido cerebral e no fluído cérebro espinhal de fetos após abortos (naturais ou não) ou em natimortos. A chefe da OMS afirma: a “microcefalia é apenas uma das várias anormalidades associadas à infecção de zika durante a gravidez”.

Brasil é o país mais afetado

Outros casos incluem morte do feto, insuficiência placentária, retardo no crescimento do feto e danos ao sistema nervoso central. Até agora, apenas Brasil e Polinésia Francesa documentaram casos de microcefalia, mas a Colômbia está sob forte vigilância.

O aumento dos pacientes com a Síndrome de Guillain-Barré foi registrado em nove países, sendo que em vários casos houve a confirmação da presença do zika. Muitos pacientes precisam ficar na UTI até 51 dias.

A Síndrome foi detectada em crianças e adolescentes, mas é mais comum em adultos, especialmente homens. A diretora da OMS reconhece que todas as informações são “alarmantes”.

Ela entende a preocupação das grávidas que vivem nos países afetados ou que têm viagem programada para essas nações.

Segundo Chan, os especialistas do Comitê de Emergência acreditam que “fortes ações de saúde pública não devem esperar uma prova científica definitiva sobre a associação entre zika e desordens neurológicas”. Por isso, o Comitê de Emergência “recomenda à gravidas não viajarem à áreas afetadas pelo surto de zika”.

No caso de mulheres com parceiros vivendo ou viajando para esses países, a recomendação é para o uso de preservativos ou até mesmo “a abstenção de relações sexuais durante a gravidez”. Ao público em geral, não é necessário evitar viagens a países com zika ou comércio com essas nações.

Acesse o comunicado oficial da OMS, em inglês, clicando aqui, ou em português clicando aqui ou abaixo.

Declaração da OMS sobre a segunda reunião do Comitê de Emergência sobre zika e o aumento observado em distúrbios neurológicos e malformações neonatais, no marco do Regulamento Sanitário Internacional (RSI 2005)

(Acesse o áudio na íntegra, em inglês, clicando aqui)

A segunda reunião do Comitê de Emergências convocada pela diretora-geral no marco do Regulamento Sanitário Internacional (RSI 2005) sobre clusters (aglomerados) de casos de microcefalia e outros distúrbios neurológicos em algumas áreas afetadas pelo vírus zika foi realizada por teleconferência no dia 8 de março de 2016, das 13h às 16h45 (horário da Europa Central).

O Secretariado da OMS informou o Comitê a respeito das ações para implantação das Recomendações Temporárias feitas pela diretora-geral no dia 1 de fevereiro de 2016 e sobre os clusters de microcefalia e Síndrome de Guillain-Barré (SGB), que foram associados temporalmente com transmissão por vírus zika. Foram fornecidos ao Comitê dados adicionais sobre estudos comparativos, de observação e experimentais a respeito da possível associação causal entre a infecção por vírus zika, microcefalia e SGB.

Os seguintes Estados-Membros forneceram informações sobre microcefalia, SGB e outros distúrbios neurológicos ocorridos na presença de transmissão por vírus da zika: Brasil, Cabo Verde, Colômbia, França e Estados Unidos.

O comitê observou as novas informações de Estados-Membros e instituições acadêmicas em relação a registro de casos, séries de casos, um estudo caso-controle (SGB) e um estudo coorte (microcefalia) sobre anomalias congênitas e doenças neurológicas na presença de infecção por vírus zika. Isso reforçou a necessidade de mais trabalho que produza evidências adicionais sobre essa associação e para entender quaisquer inconsistências nos dados dos países. O comitê aconselhou que os clusters de casos microcefalia e outros distúrbios neurológicos continuam a constituir uma emergência de saúde pública de importância internacional (ESPII) e que há evidências crescentes de que exista uma relação causal com o vírus zika.

O comitê forneceu o seguinte conselho à diretora-geral por sua decisão de aceitar a emergência de saúde pública de importância internacional, em conformidade com o RSI (2005):

Microcefalia, outros distúrbios neurológicos e vírus zika

  • Pesquisas sobre a relação entre novos clusters de microcefalia, outros distúrbios neurológicos, incluindo SGB, e vírus zika, devem ser intensificados;
  • Deve ser dada especial atenção para a produção de mais dados sobre sequenciamento genético e efeitos clínicos de diferentes linhagens do vírus zika, estudo de neuropatologia da microcefalia, condução de mais estudos caso-controle e coorte em outros e mais recentemente infectados locais, além de desenvolvimento de modelos animais para pesquisas experimentais;
  • Devem ser acelerados estudos sobre a história natural da infecção pelo vírus zika, incluindo sobre as taxas de infecção assintomática, as implicações da infecção assintomática, particularmente no que diz respeito à gravidez e à persistência de excreção viral;
  • Estudos prospectivos e retrospectivos das taxas de microcefalia e outros distúrbios neurológicos devem ser realizados em outras áreas onde é sabido que houve transmissão por zika, mas não foram observados tais clusters;
  • As pesquisas devem continuar a explorar a possibilidade de outros fatores ou cofatores causais para os observados clusters de microcefalia e outros distúrbios neurológicos;
  • Para facilitar essa pesquisa e garantir os resultados mais rápidos:
    • A vigilância de microcefalia e SGB deve ser padronizada e melhorada, particularmente em áreas conhecidas de transmissão do vírus zika e áreas de risco de transmissão;
    • O trabalho deve começar no desenvolvimento de uma potencial definição de caso para “infecção congênita por zika”;
    • Dados clínicos, virológicos e epidemiológicos relacionados ao aumento das taxas de microcefalia e/ou SGB e transmissão do vírus zika devem ser rapidamente compartilhados com a Organização Mundial de Saúde para facilitar a compreensão internacional destes eventos, orientar o apoio internacional para os esforços de controle e priorizar a investigação e desenvolvimento de produtos.

Vigilância

  • A vigilância e a notificação da infecção pelo vírus Zika deve ser reforçada, com a divulgação de definições de casos padrão e diagnósticos para áreas conhecidas e em risco de transmissão; áreas recentemente infectadas devem tomar as medidas de controle vetorial destacadas abaixo.

Controle vetorial

  • A vigilância de vetores, inclusive a determinação de espécies de mosquitos vetores e a sensibilidade delas a inseticidas, deve ser aprimorada para fortalecer avaliações de risco e medidas de controle de vetores;
  • Medidas de controle vetorial e ações adequadas de proteção pessoal devem ser agressivamente promovidas e implementadas para reduzir o risco de exposição ao vírus zika;
  • Os países devem fortalecer as medidas de controle vetorial no longo prazo e a diretora-geral da OMS deve explorar o uso de mecanismos do RSI, além de considerar levar o tema para a próxima Assembleia Mundial de Saúde, como forma de melhor envolver os países nesta questão.

Comunicação de risco

  • A comunicação de risco deve ser reforçada em países com transmissão do vírus zika para responder às preocupações da população, aumentar a participação da comunidade, melhorar a notificação, e assegurar a aplicação de medidas de controle vetorial e de proteção pessoal;
  • Essas medidas devem ser baseadas em uma avaliação adequada de percepção pública, conhecimento e informação; o impacto das medidas de comunicação de risco deve ser rigorosamente avaliado para orientar a sua adaptação e melhorar o seu impacto;
  • Deve ser dada atenção para a garantia de que as mulheres em idade fértil e em particular as gestantes tenham as informações necessárias e materiais para reduzir o risco de exposição;
  • Informações sobre o risco de transmissão sexual e medidas para reduzir este risco devem estar disponíveis para as pessoas que vivem e retornam de áreas de relatada transmissão do vírus zika.

Cuidados clínicos

  • As mulheres grávidas que tenham sido expostas ao vírus zika devem ser aconselhadas e acompanhadas em caso de desfechos do parto com base na melhor informação disponível e em práticas e políticas nacionais;
  • Em áreas de transmissão conhecida do vírus zika, os serviços de saúde devem estar preparados para possíveis aumentos de síndromes neurológicas e/ou malformações congênitas.

Medidas de viagem

  • Não deve haver restrições gerais sobre viagens ou comércio com países, regiões e/ou territórios com transmissão do vírus zika;
  • As gestantes devem ser aconselhadas a não viajar para áreas de contínuos surtos de vírus zika; mulheres grávidas cujos parceiros sexuais vivem ou viajam para áreas com surtos de vírus zika devem fazer sexo seguro ou se abster de atividades sexuais durante o período da gravidez;
  • Viajantes para áreas com surtos de vírus zika devem receber conselhos atualizados sobre riscos em potencial e medidas adequadas para reduzir a possibilidade de exposição a picadas de mosquito e, ao retornar, devem tomar as medidas adequadas, incluindo o sexo seguro, para reduzir o risco de transmissão continuada;
  • A Organização Mundial da Saúde deve atualizar regularmente suas orientações sobre viagens com a evolução das informações sobre a natureza e duração dos riscos associados à infecção pelo vírus zika;
  • Recomendações padrão da OMS sobre controle de vetores em aeroportos devem ser implementadas de acordo com o RSI (2005). Os países devem considerar a desinfestação de aeronaves

Pesquisa e desenvolvimento de produto

  • O desenvolvimento de novos diagnósticos para infecção pelo vírus zika deve ser priorizado para facilitar as medidas de vigilância e controle e, especialmente, o manejo da gravidez;
  • A pesquisa, o desenvolvimento e a avaliação de novas medidas de controle vetorial devem ser perseguidos com particular urgência.

Os esforços de pesquisa e desenvolvimento também devem ser intensificados para vacinas contra o vírus zika e terapêutica no médio prazo.

Com base neste parecer, a diretora-geral declarou a continuação da emergência de saúde pública de importância internacional. A diretora-geral endossou o conselho do Comitê e o emitiu como Recomendações Temporárias no marco do RSI (2005). A diretora-geral agradeceu aos membros do comitê e assessores por seus conselhos.