OIT e MPT promovem inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho

Realizado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), com apoio da chef Paola Carosella e de seu sócio e empresário Benny Goldenberg, projeto de inclusão de pessoas trans em situação de vulnerabilidade no mercado de trabalho formal concluiu sua segunda edição em São Paulo com resultados relevantes. Leia a reportagem completa.

Este slideshow necessita de JavaScript.

“Janelas e portas abrem e se fecham, há cortinas dentro que se mesclam, muitos tecidos que escondem e revelam. Janelas e portas batem e silenciam, há grades dentro e por fora, aberturas e mínimas chances de fuga. Janelas e portas protegem e iludem, vidros são limpos e escuros, há marcas de mãos perto dos trincos.”

O poema acima remete à história de vida de muitas trans e LGBTs no Brasil, que sofrem transfobia e discriminação da sociedade e da família, afirmou Daniela Delli, antes de declamar os versos de Martha Medeiros para uma plateia reunida no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 2ª Região, em São Paulo, numa manhã de maio.

Expulsa de casa aos 17 anos devido à sua sexualidade, hoje ela trabalha como coordenadora da Casa 1, um espaço de cultura e acolhimento LGBT na capital paulista.

Daniela é uma das 16 mulheres travestis e transexuais que participaram da segunda edição do curso de assistente de cozinha realizado pelo projeto “Empregabilidade de Pessoas Trans – Cozinha & Voz”, que promove a inclusão de pessoas em situação de vulnerabilidade no mercado de trabalho formal.

Trata-se de uma ação conjunta do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A chef de cozinha Paola Carosella atua como coordenadora do curso, que é realizado na entidade de ensino profissionalizante Faculdade Hotec.

Izabelly Mello, de 31 anos, é apaixonada por culinária e não perdeu nenhuma das nove aulas, que cobriram as aptidões básicas do trabalho em uma cozinha de restaurante, como manipulação de resíduos, estocagem de alimentos, técnicas para o preparo de saladas, peixes, frango, carne e legumes, além de limpeza e postura.

“Gostei muito, foi bastante proveitoso”, disse ela, que deseja trabalhar na área. Ela pretende buscar uma colocação no mercado, com o apoio da equipe do projeto.

Lorelay Claro, de 30 anos, ficou particularmente satisfeita com o aspecto prático do curso. “A gente teve muita experiência na cozinha, experiência de como se portar num local de trabalho, saber como trabalhar com outras pessoas, (…) como trabalhar em conjunto para que um único trabalho seja bem sucedido, e isso é muito importante para qualquer outro lugar onde você vá trabalhar”.

Indicada para participar do projeto pela Casa 1, ela contou que já estudou hotelaria e que sonha em fazer faculdade de gastronomia para trabalhar em restaurantes, ou até mesmo montar seu próprio negócio. “É muito importante para nós, mulheres transexuais, conseguir ter essa oportunidade para mostrar o nosso talento, mostrar que a gente consegue fazer qualquer tipo de coisa”, destacou Lorelay.

O projeto também conta com o apoio da Txai Consultoria e Educação e da Casa Poema, que promoveu uma oficina de poesia com a poeta, atriz e jornalista Elisa Lucinda e a atriz e diretora Geovana Pires, para desenvolver a comunicação interpessoal e a autoconfiança das alunas antes do início do curso. “A poesia ajudou muito quem tem um pouco de dificuldade de falar, de se comunicar, de se expressar”, disse Lindsay Lohanne Lopez, de 39 anos.

Formada em design gráfico, Lindsay trabalhou por muito tempo como cabeleireira, além de ser atriz e blogueira. Para ela, a culinária sempre foi uma paixão pessoal. “Profissionalmente eu nunca trabalhei com cozinha, mas sempre cozinhei todo tipo de comida para minha família e meus amigos. Sempre gostei muito da cozinha em geral, é o lugar onde eu me desestresso”. Segundo ela, o curso despertou várias ideias empreendedoras para tentar montar seu próprio negócio.

Durante a cerimônia de formatura no TRT, onde as alunas realizaram um recital de poesia e receberam certificados, a chef Paola Carosella ressaltou: “estamos construindo um projeto que pode parecer muito pequeno, de pequeno impacto, mas queremos que seja assim, porque está sendo construído com qualidade”.

Impacto pequeno, mas profundo

O projeto Cozinha & Voz realizou a primeira edição do curso de assistente de cozinha no final de 2017 e conseguiu encaminhar para o mercado de trabalho cerca de 70% das mulheres travestis e transexuais e homens transexuais que participaram. A iniciativa conta com uma rede de empresas parceiras, como Sodexo, Avon, Arturito, Fitó e Mangiare, que já contrataram formandas.

Um dos destaques da primeira turma foi Yasmin Bispo, de 40 anos, que foi contratada pelo próprio projeto para selecionar e acompanhar as alunas da segunda edição, realizada em abril deste ano. “Era necessário ter uma trans ou travesti que pudesse ter o mesmo diálogo com essas meninas, e para mim tem sido uma experiência enriquecedora”, declarou.

Formada em artes cênicas, Yasmin sempre trabalhou com teatro e dança. Ela contou que há dois anos conseguiu superar o vício em drogas e que conheceu o projeto através do Centro de Acolhida Florescer, o primeiro equipamento público do tipo no Brasil a atender exclusivamente mulheres transexuais e travestis.

“(O curso) me trouxe um pouco mais de perspectiva para a minha própria vida, de saber que eu sou capaz”, explicou Yasmin. “Me ajudou muito com a minha autoestima, com a minha dignidade, com o interesse de poder crescer na vida, pois a sociedade nos tira esse direito, esquecendo que a gente existe, resiste e sonha todos os dias com a oportunidade de trabalho, de respeito, com a quebra de preconceitos e paradigmas que a sociedade impõe”.

Atualmente, Yasmin continua fazendo seu tratamento no Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (CRATOD), e deseja estudar pedagogia ou serviço social para poder avançar no trabalho com o público LGBTQ. “Eu só tenho a agradecer a todas as pessoas e instituições envolvidas no projeto, e também ao projeto Recomeço, ao CRATOD e ao Coletivo Mexa, do qual faço parte. Meu maior objetivo é um dia formar uma ONG para o público LGBTQ”, afirmou ela.

Vanessa Holanda foi uma das colegas de Yasmin na primeira edição do Cozinha & Voz. “Antes do curso, eu não tinha muitas chances de trabalho formal e esperava muito ter uma oportunidade”, disse. Após a formatura, ela foi contratada pela Sodexo, que tem restaurante na Avon. “A resposta da empresa foi extremamente positiva e hoje me sinto muito bem acolhida em meu novo ambiente de trabalho”, salientou.

A presidente da Sodexo no Brasil, Andreia Dutra, ressaltou a contratação de Vanessa por meio do projeto como um indicativo de mudanças na cultura das corporações rumo à maior diversidade. “Acredito que, com mais esta edição (do curso), vamos conseguir sensibilizar outras empresas a aderir ao projeto e se unir na promoção da empregabilidade de uma parcela da população muito talentosa e que ainda é muito excluída”.

Outra formanda da primeira edição, Bia Mattos, foi contratada pelo restaurante Fitó, que só emprega em sua equipe mulheres cis e trans. “Estamos muito contentes em tê-la lá. Dar espaço para a diversidade das formas de ser mulher é fundamental para o Fitó”, afirmou Tomás Foz, um dos sócios do restaurante.

Morena Caymmi, mulher trans, jornalista e fotógrafa, trabalha como anfitriã do Fitó há quatro meses. “Esse é meu primeiro emprego de carteira assinada (…). É muito bom acordar e ir para um lugar onde você não é tratada com outro pronome que não seja ‘ela’, ou outro artigo que não seja ‘a’. Não existe outro nome senão o meu nome social que eu escolhi”.

Olhando para o futuro

Para a chef Paola Carosella, o Cozinha & Voz possui um enorme potencial para se expandir e atender diferentes grupos de pessoas, de diferentes formas, para inseri-las no mercado de trabalho.

“Esse projeto precisa crescer e continuar”, disse. Na formatura da segunda turma do curso, a coordenadora nacional da Coordenadoria Nacional de Promoção de Igualdade de Oportunidade e Eliminação da Discriminação no Trabalho (Coordigualdade) do MPT, Valdirene de Assis, explicou que o Cozinha & Voz é parte de um projeto nacional de empregabilidade para a população LGBTQ e deve ser levado em breve para outros estados e públicos, como os jovens negras e negros.

Participando da mesa de abertura da formatura, o procurador-geral do Trabalho, Ronaldo Fleury, lembrou que a iniciativa atinge um grupo “extremamente excluído e discriminado” da população. Já o diretor da OIT no Brasil, Martin Hanh, destacou a grande visão, determinação e criatividade da iniciativa para abordar o problema da exclusão de pessoas travestis e transexuais do mercado de trabalho devido à discriminação.

“A OIT tem como mandato a promoção do trabalho decente, que é o trabalho em condições de igualdade, liberdade e dignidade humana. Como uma agência da ONU, estamos ligados à Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, que tem a missão de não deixar ninguém para trás”, afirmou Hahn. “Isso nos dá uma responsabilidade fundamental de lutar contra todos os preconceitos que excluem grande parte da população dos direitos fundamentais, como o direito de ser”.