‘O que vimos em Madaya não deveria acontecer em nenhum lugar’, afirma representante da ONU

Carregamento de suprimentos da ONU e da Cruz Vermelha para os habitantes de cidades sitiadas na Síria. Foto: PMA/Hussam Al Saleh

Ao descrever a situação em Madaya, o coordenador humanitário da ONU na Síria afirmou nesta terça-feira (12) que seus habitantes “pareciam ter perdido a esperança de que o mundo se importa com eles”. Yacoub El Hillo acompanhou o primeiro comboio humanitário autorizado a entrar na cidade desde outubro, levando alimentos para cerca de 40 mil pessoas que viviam famintos na localidade, sitiada por forças pró-governo.

Segundo relatos dos representantes da ONU, a situação na localidade é “terrível”, com centenas de pessoas em estado crítico de inanição. As primeiras evacuações começaram nesta terça-feira (12), com uma menina de cinco anos atravessando o bloqueio para ser operada urgentemente na capital, Damasco. No total, 400 pessoas foram transferidas para instalações médicas, em grave risco de vida.

Na cidade, com 42 mil habitantes, um quilo de arroz chegava a custar 300 dólares. Segundo relatos, muitos se alimentavam de sopas de grama e ervas. “Os cercos não podem ser mais tolerados”, disse Hillo. “Muitas pessoas já perderam suas vidas enquanto esperavam. Muitas mais vão morrer se o mundo não agir mais rápido.”

A entrada dos comboios foi fruto de uma negociação complicada entre a ONU, seus parceiros, as forças rebeldes e o governo, apesar da exigência do Conselho de Segurança, há três semanas, de permitir o acesso imediato da ajuda humanitária através de todas as frentes de batalha.

O comboio de 44 caminhões levou itens vitais de saúde, nutrição, utensílios, cobertores e materiais para a construção de abrigos. Outro comboio com 21 caminhões conseguiu levar uma ajuda para 20 mil pessoas em Kafraya e Foah, dois municípios sob o cerco de forças da oposição no nordeste da Síria, perto da fronteira com a Turquia.

A ONU e seus parceiros espera poder enviar um novo comboio nesta quinta-feira (14), incluindo clínicas médicas móveis e centros de emergência de alimentação para crianças “que apresentam um nível muito avançado de desnutrição”, destacou o representante.

Paralelamente a operação de emergência, as agências humanitárias e de desenvolvimento da ONU lançaram o seu apelo para ajudar a população síria. O montante de 7,73 bilhões de dólares possibilitará ajudar a 22,5 milhões de pessoas, incluindo os refugiados em outros países, as comunidades que os hospedam e os deslocados internos.

O representante do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR), Sajjad Malik, pediu mais esforços para ajudar essas comunidades. “Dentro de um mês, eles estarão sem comida e remédios. O que vimos em Madaya não deveria acontecer em nenhum lugar neste século, não deveria estar acontecendo agora”, disse.