O peso de nove anos de conflito sobre os ombros de uma criança síria

O mês de março marca o início do conflito na Síria, que este ano completou nove anos. Durante todos esses anos, milhões de sírios viram suas casas destruídas, perderam seus parentes, se separaram de suas famílias e tiveram suas vidas adiadas.

A guerra obrigou Naamat, uma refugiada de apenas 11 anos que hoje vive na Jordânia, a assumir responsabilidades muito além de sua pouca idade. Leia o relato da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

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Todas as manhãs, depois que sua mãe sai para o trabalho, a síria Naamat, de 11 anos, troca a fralda do irmão mais novo, Ibrahim, e lhe dá uma mamadeira de leite em pó.

Ela então prepara um café da manhã simples com pão, óleo e zaatar repleto de tomilho para compartilhar com seus outros dois irmãos mais novos antes de arrumar suas mochilas e caminhar com eles para pegar o ônibus da escola. Ibrahim fica com uma vizinha.

“Naamat tem apenas 11 anos, mas está vivendo a vida de uma mulher de 30 anos”, diz sua mãe, Fatima. “É por causa da nossa situação”, responde Naamat. “Tenho que ajudar meus pais e meus irmãos. Eles não têm mais ninguém além de mim.”

O mês de março marca o início do conflito na Síria, que este ano completou nove anos. Durante todos esses anos, milhões de sírios viram suas casas destruídas, perderam seus parentes, se separaram de suas famílias e tiveram suas vidas adiadas.

A guerra obrigou Naamat, uma refugiada de apenas 11 anos que hoje vive na Jordânia, a assumir responsabilidades muito além de sua pouca idade.

Sua mãe limpa casas e ganha 5 dinares da Jordânia (7 dólares) por meio dia de trabalho. Mahmoud, o pai de Naamat, está impossibilitado de trabalhar ou cuidar de seus filhos devido aos efeitos físicos e psicológicos de suas experiências na Síria. Com isso, muitas das tarefas domésticas ficam aos cuidados de Naamat.

Mahmoud foi preso em 2011 depois de realizar suas orações de sexta-feira. Fatima desconhecia o paradeiro do marido. Em 2013, ela foi forçada a fugir dos combates em Homs com seus filhos Naamat e Fahed. Primeiro a família deslocou-se até a província de Deraa, no sul da Síria, antes de cruzar a fronteira para a Jordânia.

“Foi a pior noite da minha vida”

“Caminhamos do pôr do sol até o nascer do sol”, lembra Fatima. “Foi a pior noite da minha vida. Estava escuro e podíamos ouvir o som de balas à distância. Estava muito frio e havia neve, e não tínhamos como nos aquecer.”

Na época, Naamat tinha apenas 4 anos, mas ela ainda se lembra da desorientação que sentiu ao chegar ao campo de refugiados de Zaatari, no norte da Jordânia.

Dezenas de outros refugiados sírios vivem no local. “Fiquei surpresa porque morava em uma casa e fomos morar em tendas. Fiquei realmente chocada. Em casa, estávamos sempre quentes e, de repente, me vi em uma barraca, e com frio.”

Fatima se mudou com os filhos para a capital da Jordânia, Amã. Mais ou menos um ano depois, ela reencontrou o marido. “Bateram na porta e quando eu abri, ele estava lá. Pensei que ele estivesse morto.”

Sete anos após sua chegada à Jordânia, a família ainda luta para se manter. O apartamento desgastado perto do centro de Amã, que eles alugam por 100 dinares (140 dólares) por mês, é quase totalmente desprovido de móveis. Os colchões no chão servem sentar e dormir, e a comida raramente dura mais de um dia.

A pequena renda que Fatima recebe nem de longe é o suficiente para fornecer o básico para sua família. Mas, graças aos 140 dinares (197 dólares) que recebe mensalmente da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), e aos vales-alimentação fornecidos pelo Programa Mundial de Alimentos (WFP), Fatima consegue pagar o aluguel, manter os filhos alimentados e arcar com o transporte escolar.

É um cenário semelhante ao da maioria dos mais de 5,5 milhões de refugiados sírios registrados que vivem nos principais países anfitriões da região: Turquia, Líbano, Jordânia, Iraque e Egito.

A proporção de refugiados que vive abaixo da linha da pobreza passa dos 60% em muitos desses países e mais de um terço das crianças refugiadas sírias estão fora da escola. A prolongada crise também colocou uma pressão enorme sobre os recursos das comunidades locais que antes acolhiam os refugiados generosamente.

“Eu não vou me desesperar”

A situação precária que milhões de refugiados enfrentam após nove anos de conflito é o que continua a impulsionar casos de casamento precoce e trabalho infantil. Crianças como Naamat continuam assumindo tarefas domésticas.

No entanto, apesar da responsabilidade atribuída a ela pela situação e da consciência de que essas não são responsabilidades de uma criança de 11 anos, a determinação silenciosa de Naamat a ajudou a se destacar na escola. Ela é a melhor aluna em várias matérias.

“Amo estudar porque sei que é isso que me dará um futuro bonito”, diz. “Perdi parte da minha infância, mas encontro o que resta dela nos estudos e na construção um futuro para mim. Ainda não perdi isso e não vou me desesperar.”

É essa esperança, que vive pelo fato de a Jordânia ter aberto suas escolas e comunidades para refugiados sírios, que mantém Naamat e sua família. Mesmo após nove anos, as comunidades anfitriãs continuam demonstrando uma solidariedade notável.

“Você nunca sente que ela está vulnerável”

Para Fatima, ver a resiliência e o otimismo que Naamat possui dá a ela a esperança de que a família supere sua situação atual.

“A vida foi muito dura para mim e para minha família. Enfrentamos muitos desafios: a dor da guerra e a dor de deixar para trás nossos entes queridos, a situação financeira, tornar-nos refugiados, tantas coisas…”, diz Fátima. “Mas Naamat tem uma personalidade muito forte. Você nunca sente que ela está machucada ou vulnerável.”

Naquela tarde, depois que Fatima voltou do trabalho para assumir as responsabilidades da casa, Naamat saiu para brincar com dois amigos do bairro.

Enquanto pulavam corda, a expressão séria que Naamat usa durante a maior parte do dia desapareceu brevemente e foi substituída por um sorriso de pura alegria.