O general da ONU na linha da frente que desarmou 100 mil combatentes na Libéria

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Daniel Opande esteve à frente das forças das Nações Unidas no primeiro contato com diferentes fações em guerra. A ONU encerrou a missão de paz da Libéria com sucessos nos 15 anos de presença no país da África Ocidental.

Daniel Opande. Foto: ONU

Daniel Opande. Foto: ONU

Mais de 100 mil ex-combatentes foram desarmados como resultado das ações da Missão das Nações Unidas na Libéria, UNMIL. A operação de paz terminou oficialmente no final de março.

O comandante das forças internacionais no processo foi o general Daniel Opande, que falou à ONU News sobre o encerramento da operação. Ele contou que chegou ao país vindo da Serra Leoa, onde a situação havia retornado ao normal, foi instalado um governo funcional e havia paz.

Opande disse que, na Libéria, o cenário era oposto: nada funcionava, o governo estava em colapso, não havia acordo sobre segurança e todo o país estava em tumulto. De acordo com o comandante, as pessoas moviam-se de um lugar para outro em busca de segurança ou comida.

Daniel Opande disse que aproximou vários comandantes de facções em guerra para que estes aceitassem a paz. O último contingente foi de mais de 4,7 mil homens, mas em outubro de 2003 havia 1,5 mil a menos vindos dos vizinhos Nigéria, Benin, Gâmbia, Gana, Guiné-Bissau, Mali, Nigéria, Senegal e Togo.

O general disse que durante o seu mandato tentou estender a mão a várias facções e aproximar-se dos seus líderes, ao contrário de operar a partir da capital Monróvia. Ele defendeu que não se podia esperar que estes fossem discutir como resolver a situação de segurança e foi até eles.

Opande disse que não teve medo de ir para onde quer que os comandantes estivessem. O general revelou que, ao conhecer os ‘generais’ e líderes locais nas áreas remotas, se certificou de que estes percebessem o que se esperava deles para devolver a paz ao país.

Cerimônia de formatura da Polícia Nacional da Libéria para a classe 33, com um número recorde de novas oficiais mulheres – 104 no total. Na capital Monróvia, 2009. Foto: UNMIL/Christopher Herwig

Cerimônia de formatura da Polícia Nacional da Libéria para a classe 33, com um número recorde de novas oficiais mulheres – 104 no total. Na capital Monróvia, 2009. Foto: UNMIL/Christopher Herwig

Quinze anos depois, o fim da missão tem como espelho o sucesso das eleições de 2005/2006. Para Opande, o grande feito nesse pleito foi a eleição de uma liderança voltada para a economia, para a segurança e voltada para as pessoas.

Instado a fazer uma comparação com o conflito do Sudão do Sul, o general disse que não se podia comparar países em conflito. Destacou, entretanto, que se a Libéria passou por 10 anos de conflito civil e pôde se unir e concentrar num futuro melhor, isso é possível no Sudão do Sul.

Desafios à frente

Em visita ao país no final de março (23), a vice-chefe da ONU afirmou ao governo que, embora tenham ocorrido grandes progressos, o caminho a seguir será desafiador.

No lançamento do novo Plano de Desenvolvimento Nacional do país na capital Monróvia, Amina Mohammed, a vice-secretária geral das Nações Unidas, felicitou todos os liberianos pela paz conquistada duramente após 15 anos de conflitos – bem como os progressos feitos durante o período pós-conflito.

Ela destacou, no entanto, os “sérios desafios” por vir. “Quando vejo as mulheres e os homens jovens e as iniciativas para a paz que eles corajosamente levam adiante, às vezes até arriscando suas vidas, estou cheia de orgulho e esperança, mas também com medo”, disse Mohammed, observando a grave crise econômica e o desemprego elevado entre os jovens.

“Não podemos falhar com eles. Precisamos capacitá-los, atender suas necessidades e expectativas e ajudá-los a realizar seus sonhos”, acrescentou.

Elogiando a nova estrutura de desenvolvimento do país, apelidada de ‘Liberia Moment’, Mohammed destacou cinco princípios que devem sustentar o Plano.

Estes incluem a soberania nacional; eliminação da pobreza; melhoria da cobrança de impostos e receitas; fortalecimento do Estado de Direito e fim da dependência da ajuda externa; aumento da transparência; e garantia de meios previsíveis e sustentáveis para o financiamento do desenvolvimento.

Ela também ressaltou a necessidade de consolidar a paz e conter a recaída no conflito, e ao fazê-lo reiterou a importância da implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

Amina Mohammed, a vice-secretária geral das Nações Unidas, em visita à capital Monróvia. Foto: Albert Gonzalez Farran/UNMIL

Amina Mohammed, a vice-secretária geral das Nações Unidas, em visita à capital Monróvia. Foto: Albert Gonzalez Farran/UNMIL

“Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável [ODS] são as melhores ferramentas que temos para prevenir conflitos e devemos promover todos os esforços para alcançá-los sem demora”, disse ela, observando que as Nações Unidas estão prontas para fornecer assessoria, conhecimento e apoio necessários ao governo.

“Nós estaremos com vocês em cada passo do caminho. Este é o nosso compromisso”, disse a vice-secretário geral.

A Libéria passou por duas guerras civis que duraram mais de 14 anos, entre 1989 e 2003. A guerra civil na Libéria causou a morte de quase 250 mil pessoas e levou a um colapso total da lei e da ordem.

A missão da ONU, conhecida como UNMIL, foi estabelecida pelo Conselho de Segurança da ONU em 2003, depois que um acordo de paz foi assinado para pôr fim aos combates.

A missão criou um ambiente de segurança que permitiu que mais de 1 milhão de refugiados e deslocados retornassem a seus lares; apoiou a realização de três eleições presidenciais; e ajudou o governo a estabelecer sua autoridade em todo o país após anos de luta e instabilidade.


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