Número de mortos por minas terrestres triplicou no Afeganistão desde 2012

O número de mortos no Afeganistão por minas terrestres e outros explosivos mais do que triplicou desde 2012, afirmaram as Nações Unidas na quarta-feira (6), pedindo apoio de longo prazo aos sobreviventes.

Dados mais recentes do Serviço de Ação Contra Minas das Nações Unidas (UNMAS) indicam que 1.415 civis afegãos foram mortos ou ficaram feridos em 2018 por minas ou restos explosivos de guerra. Crianças representam oito em cada dez mortos.

Especialista em explosivos realiza busca por minas após detectar pedaço de metal em montanha perto de Cabul, no Afeganistão. Foto: UNMAS/Cengiz Yar

Especialista em explosivos realiza busca por minas após detectar pedaço de metal em montanha perto de Cabul, no Afeganistão. Foto: UNMAS/Cengiz Yar

O número de mortos no Afeganistão por minas terrestres e outros explosivos mais do que triplicou desde 2012, afirmaram as Nações Unidas na quarta-feira (6), pedindo apoio de longo prazo aos sobreviventes.

Dados mais recentes do Serviço de Ação Contra Minas das Nações Unidas (UNMAS) indicam que 1.415 civis afegãos foram mortos ou ficaram feridos em 2018 por minas ou restos explosivos de guerra.

Crianças representam oito em cada dez mortes por restos de explosivos, de acordo com o UNMAS, que participa nesta semana do 22º Encontro de Diretores Nacionais de Ação Contra Minas e Assessores das Nações Unidas, em Genebra.

O serviço da ONU destacou que, desde 1989, mais de 18 milhões de restos explosivos foram removidos, junto a mais de 730 mil minas terrestres, incluindo mais de 750 aparatos explosivos improvisados e 30.145 minas antitanques.

“Ainda estamos na atividade de prevenção e não estamos indo tão bem”, disse o chefe do programa da UNMAS para o Afeganistão, Patrick Fruchet.

“Em 2012, estávamos com cerca de 36 mortes por mês no Afeganistão – número que já era enorme; esse montante saltou ano a ano. Em 2017, houve mais de 150 mortes ao mês”.

O aumento do número de mortos está ligado à “nova disseminação” de armas antipessoais — usadas principalmente para mutilar ou matar infantaria e outro pessoal que não esteja atrás de armaduras — no país, ligadas à intensificação de conflito entre forças do governo e extremistas do Taliban, após 2014.

“Estamos lutando para lidar com aumentos significativos no número de campos minados no Afeganistão”, afirmou Fruchet, destacando que o trabalho do serviço da ONU e de seus parceiros é complicado pelo fato de autoridades controlarem apenas cerca de metade do país.

“Você tem províncias onde as capitais são muito amigáveis, sob controle do governo, e as áreas rurais fora destas capitais não são, e são nestas áreas onde frequentemente trabalhamos”, disse.

O aumento do financiamento é essencial para a tentativa do Afeganistão de se ver livre das minas terrestres até 2023, segundo a UNMAS, destacando que o pedido de 85,1 milhões de dólares feito pelo governo para atividades de remoção só foi cumprido pela metade até agora.

Pedindo maior apoio internacional e conscientização, o fotógrafo e chefe da Fundação Legacy of War, Giles Duley, descreveu o quão importante foi a assistência de longo prazo para sua recuperação, após ter perdido as duas pernas e um braço em uma mina terrestre no país.

Um colega sobrevivente que ele conheceu no Camboja não teve tanta sorte, e passou a ter muitas dificuldades porque ninguém o ajudou a aprender a andar com próteses nas pernas, explicou Duley.

“Na casa dele – ou na casa da irmã, onde ele morava – ficamos lá, bebemos chá e conversamos”, contou.

“Eventualmente, ele me mostrou algumas camas na lateral de sua casa, onde os cachorros dormiam. E apontou para um dos cestos grandes de cachorros e disse ‘esta é minha cama’. Sua irmã era uma mulher maravilhosa, ela estava fazendo o que podia, mas vivia na pobreza, tinha sua própria família, e então seu irmão estava literalmente vivendo como um cão”.

Duley insistiu que, apesar das vastas quantias de dinheiro gastas para ajudar vítimas nos períodos imediatos a um ataque, “um grande vazio” existe em relação às necessidades a longo prazo.

“E é isto que realmente estamos pedindo”, disse. “São as oportunidades para que pessoas feridas em conflito por nenhuma escolha própria, frequentemente crianças que têm uma vida inteira pela frente, recebam apoio para retomar a dignidade e sejam capazes de se cuidar. Isto não é complicado, isto não é difícil. Gastamos milhões salvando vidas, precisamos ajudá-las a ter suas vidas de volta”.

Sem reabilitação de vítimas da guerra, ‘país irá fracassar’

O cirurgião de trauma Shehan Hettiaratchy, da Imperial College, em Londres, destacou os benefícios mais amplos de avaliar com precisão as necessidades de sobreviventes, tanto para indivíduos quanto para suas comunidades.

“O que estamos tentando fazer é caracterizar qual será o peso sobre o sistema de saúde quando o conflito acabar”, disse Hettiaratchy a jornalistas.

“Quanto tempo irá durar? Como será no primeiro ano? Qual a intervenção de saúde necessária para manter estas pessoas cujas vidas foram salvas em níveis altos de função, para que contribuam à sociedade? Porque se não tivermos reabilitação socioeconômica das vítimas da guerra, o país irá fracassar”.

No Afeganistão, sobreviventes de minas terrestres representam uma pequena fração dos quase 3% da população registrados com algum tipo de deficiência, de acordo com o UNMAS.

A médica especialista em explosões Mahpekay Sediqi, que trabalha na Organização Ortopédica de Cabul, ecoou a importância de ter dados mais recentes em mãos.

“Os doadores não têm uma imagem real das necessidades no Afeganistão”, afirmou. “Como dissemos antes, os porta-vozes mencionaram que 2,7% da população do Afeganistão têm deficiência, mas este número é de 2015”.

Nos quase 30 anos de trabalhos da UNMAS no Afeganistão, 30 mil pessoas ficaram feridas ou foram mortas por aparatos explosivos.


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