Número de crianças vivendo na pobreza deve subir 15% no mundo até o fim do ano

As consequências econômicas da pandemia de COVID-19 podem levar até 86 milhões de crianças à pobreza domiciliar até o fim de 2020, um aumento de 15%, de acordo com uma nova análise divulgada na quinta-feira (28) por Save the Children e Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

Para abordar e mitigar o impacto da COVID-19 nas crianças de famílias pobres, as organizações pedem a expansão rápida e em larga escala dos sistemas e programas de proteção social, incluindo transferências de renda, alimentação escolar e benefícios para as crianças.

As irmãs gêmeas Emeline e Eveline lavam as mãos em uma estação pública instalada como medida preventiva contra o coronavírus no Nyabugogo Bus Park, em Ruanda. Foto: Ritzau Scanpix

As irmãs gêmeas Emeline e Eveline lavam as mãos em uma estação pública instalada como medida preventiva contra o coronavírus no Nyabugogo Bus Park, em Ruanda. Foto: Ritzau Scanpix

As consequências econômicas da pandemia de COVID-19 podem levar até 86 milhões de crianças à pobreza domiciliar até o fim de 2020, um aumento de 15%, de acordo com uma nova análise divulgada na quinta-feira (28) por Save the Children e Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

A análise destaca que, sem ações urgentes para proteger as famílias das dificuldades financeiras causadas pela pandemia, o número total de crianças vivendo abaixo da linha de pobreza nacional nos países de baixa e média renda poderia chegar a 672 milhões no final do ano. Quase dois terços dessas crianças vivem na África ao sul do Saara e na Ásia Meridional.

Países de Europa e Ásia Central podem registrar um aumento mais significativo, de até 44% em toda a região. A América Latina e o Caribe deve ter um avanço de 22%.

“A pandemia de coronavírus desencadeou uma crise socioeconômica sem precedentes que está esgotando recursos de famílias em todo o mundo”, disse Henrietta Fore, diretora-executiva do UNICEF.

“A escala e a profundidade das dificuldades financeiras das famílias ameaçam reverter anos de progresso na redução da pobreza infantil e deixar as crianças privadas de serviços essenciais. Sem uma ação combinada, as famílias que mal conseguiam sobreviver poderiam ser empurradas para a pobreza, e as famílias mais pobres poderiam enfrentar níveis de privação que não têm sido vistos há décadas”.

A Save the Children e o UNICEF alertam que o impacto da crise econômica global causada pela pandemia e pelas políticas de contenção relacionadas a ela é duplo. A perda imediata de renda significa que as famílias têm mais dificuldade de adquirir o básico, incluindo comida e água, e estão menos propensas a acessar cuidados de saúde ou educação, correndo mais riscos de casamento infantil, violência, exploração e abuso.

Além disso, quando os Estados promovem contração fiscal, o alcance e a qualidade dos serviços dos quais as famílias dependem também podem diminuir.

Para as famílias mais pobres, a falta de acesso a serviços de assistência social ou medidas compensatórias limita ainda mais sua capacidade de obedecer as medidas de contenção e o distanciamento físico e, portanto, aumenta ainda exposição a infecções.

“Os chocantes impactos da pobreza na pandemia de COVID-19 afetarão duramente as crianças. As crianças são altamente vulneráveis a períodos curtos de fome e desnutrição, que as afetam potencialmente por toda a vida. Se agirmos agora e de maneira decisiva, podemos prevenir e conter a ameaça de pandemia que os países mais pobres e algumas das crianças mais vulneráveis enfrentam. Este relatório deve ser um alerta para o mundo. A pobreza não é inevitável para as crianças”, disse Inger Ashing, CEO da Save the Children International.

Antes da pandemia, dois terços das crianças do mundo não tinham acesso a nenhuma forma de proteção social, tornando impossível às famílias suportar crises financeiras e perpetuando o ciclo vicioso da pobreza entre gerações. Apenas 16% das crianças na África têm proteção social.

Centenas de milhões de crianças vivem em pobreza multidimensional – o que significa que elas não têm acesso a cuidados de saúde, educação, nutrição apropriada ou moradia adequada –, geralmente um reflexo de investimentos desiguais por parte dos governos em serviços sociais.

Para as crianças que vivem em países já afetados por conflitos e violência, o impacto desta crise aumentará ainda mais o risco de instabilidade e de famílias em situação de pobreza.

A região do Oriente Médio e Norte da África, lar do maior número de crianças vulneráveis devido a conflitos, tem a maior taxa de desemprego entre os jovens, enquanto quase metade de todas as crianças da região vive em pobreza multidimensional.

Para abordar e mitigar o impacto da COVID-19 nas crianças de famílias pobres, a Save the Children e o UNICEF pedem a expansão rápida e em larga escala dos sistemas e programas de proteção social, incluindo transferências de renda, alimentação escolar e benefícios para as crianças – investimentos essenciais que tratam das necessidades financeiras imediatas e estabelecem as bases para que os países se prepararem para futuros choques.

Os governos também devem investir em outras formas de proteção social, políticas fiscais, emprego e intervenções no mercado de trabalho para apoiar as famílias. Isso inclui a expansão do acesso universal a serviços de saúde de qualidade e outros serviços; e investir em políticas voltadas para a família, como licença remunerada e assistência à infância.

Desde a chegada da COVID-19, muitos países já ampliaram seus programas de proteção social. Por exemplo:

No Brasil, um auxílio monetário emergencial, cobrindo 50 milhões de pessoas, já está beneficiando os atuais beneficiários do Bolsa Família com transferências mais altas e trabalhadores informais e desempregados com 600 reais. As mulheres chefes de família com filhos (incluindo mães adolescentes) estão recebendo uma transferência dobrada (1,2 mil reais);

Na Indonésia, o programa Kartu Sembako, que fornece assistência mensal em dinheiro para consumo familiar básico, expandiu seu alcance para 20 milhões. A assistência monetária mensal às famílias aumentou de Rp 150 mil para Rp 200 mil;

Na Mongólia, o governo aumentou seu benefício mensal do Programa Dinheiro para Crianças em cinco vezes, passando de 20 mil MNT por mês para 100 mil MNT por um período de seis meses;

Na Argentina, o programa de Auxílio Universal à Criança proporcionou um aumento de 3,1 mil pesos argentinos para seus atuais beneficiários;

Na África do Sul, vários esquemas de proteção social, incluindo o subsídio de apoio à criança que atinge 12,8 milhões de crianças, estão fornecendo complementos adicionais;

Na Geórgia, o programa de Assistência Social Direcionada (TSA) será temporariamente ampliado para fornecer apoio a mais 70 mil famílias; além de fornecer um extra de 100 GEL por mês para 21 mil famílias da TSA com três ou mais filhos por seis meses;

Na Armênia, as famílias elegíveis inscritas no sistema de benefícios familiares receberão um complemento igual a 50% do benefício;

Na Colômbia, o governo criou o Programa de Renda Solidária para fornecer transferências de renda para famílias que atualmente não recebem benefícios de outros programas do governo nacional. Em 21 de maio, mais de 2 milhões de famílias vulneráveis haviam recebido uma transferência de 320 mil pesos por meio de dois pagamentos iguais feitos durante março e maio.

No Peru, o governo está oferecendo bônus de solidariedade às famílias rurais, trabalhadores independentes e famílias vulneráveis, além de um novo vínculo universal para 6,8 milhões de famílias. É necessário foco específico para alcançar as pessoas que vivem em áreas remotas, populações indígenas e migrantes.