Novos confrontos em Mossul devem deslocar mais iraquianos, alerta ACNUR

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Batalha entre governo e Estado Islâmico pelo controle de Mossul teve início em outubro do ano passado e deslocou cerca de 153 mil pessoas. Autoridades reconquistaram o leste da cidade e planejam agora retomar a parte ocidental do local, que é o lar de mais de 750 mil iraquianos. Essa população está presa na região e corre o risco de passar fome, informou neste mês a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Haytham* e sua família vivem no acampamento de Hasansham, administrado pelo ACNUR. Foto: ACNUR/Ivor Prickett

Haytham* e sua família vivem no acampamento de Hasansham, administrado pelo ACNUR. Foto: ACNUR/Ivor Prickett

Enquanto o sol se punha em Mossul, Haytham*, de 44 anos, corria até a margem do rio Tigre. Vivendo na parte oeste da cidade, região então dominada pelo Estado Islâmico, o iraquiano decidiu fugir com a família. Ao anoitecer, ele, a esposa e os dois filhos deixavam o local em um pequeno barco de pesca, conduzido pelo próprio Haytham.

O iraquiano lembra que, enquanto remava, mandava os parentes ficarem deitados para evitar que fossem baleados, caso extremistas os atacassem. Quando já tinha percorrido mais da metade do caminho, a família foi surpreendida por disparos que perfuraram o casco da embarcação. A água começou a entrar no barco.

“Pensei que iríamos morrer”, conta Haytham, que diz ter remado o mais forte que pôde. O esforço salvou a todos, que conseguiram chegar à praia no leste de Mossul. Na margem oposta do rio, outro susto. Forças iraquianas acharam que eles podiam ser inimigos, mas depois correram para protegê-los quando viram que eram uma família.

Na região oriental da cidade, Haytham e os parentes ficaram novamente sob fogo cruzado. Depois que um dos filhos foi atingido de raspão por um estilhaço, a família decidiu buscar abrigo no acampamento de Hasansham, administrado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) na região do Curdistão do Iraque.

“Estou tão feliz que sinto vontade de chorar”, disse o iraquiano ao conversar com jornalistas do organismo internacional logo depois de chegar ao acampamento e ser alojado em uma tenda com a esposa e as crianças.

Drama de Mossul

Haytham e a família estão entre os cerca de 153 mil iraquianos que foram deslocados pelas hostilidades em Mossul, onde forças do governo iniciaram uma batalha contra o Estado Islâmico para reconquistar territórios sob controle dos extremistas. Confrontos tiveram início em 17 de outubro do ano passado. A cidade era o lar de mais de 1 milhão de pessoas.

Segundo estimativas obtidas pela agência da ONU, há mais de 750 mil pessoas ainda presas no oeste de Mossul, região densamente povoada. É esta área que será palco das próximas operações das autoridades contra os terroristas.

O ACNUR acredita que haverá uma onda antecipada de deslocamentos. Com parceiros humanitários, o organismo internacional está planejando ações para prestar assistência da forma mais eficaz possível aos iraquianos que fugirem da cidade.

“Enquanto muitas famílias do leste de Mossul estão retornando para áreas recém-acessíveis, estamos nos preparando para um grande deslocamento potencial vindo do oeste”, disse o representante do ACNUR no Iraque, Bruno Geddo. “Lidar simultaneamente com famílias recém-deslocadas e retornadas irá testar ao máximo a nossa capacidade de resposta.”

No leste, em áreas tornadas acessíveis, o ACNUR ajudou quase 9 mil famílias com itens de emergência. O oeste de Mossul está quase completamente isolado por efetivos armados, e os civis que moram na cidade velha estão ficando sem comida, segundo informações da agência da ONU.

Um quilo de cebola chega a custar mais de 10 dólares e a mesma quantidade de açúcar pode custar 18 dólares. Um único ovo custa um dólar e 20 litros de gás de cozinha são vendidos a 80 dólares, de acordo com vários habitantes contatados em áreas controladas por extremistas.

O rio Tigre é a linha divisória entre os lados oeste e leste de Mossul. Foto: ACNUR/Ivor Prickett

O rio Tigre é a linha divisória entre os lados oeste e leste de Mossul. Foto: ACNUR/Ivor Prickett

Os preços dependem da disponibilidade. Muitas lojas estão vazias e as pessoas não têm dinheiro para pagar pelos produtos, segundo relatos de moradores. Famílias estão queimando seus móveis e usando-os como lenha devido à falta de gás de cozinha. Elas estão comendo principalmente batatas, que podem ser cultivadas localmente e ainda são relativamente baratas. Um quilo custa menos de um dólar.

Apenas um hospital ainda está operando no lado oeste da cidade, segundo iraquianos que vivem lá e conseguiram se comunicar com pessoas de fora. De acordo com testemunhos, a frequência dos ataques aéreos está aumentando e a expectativa é de que novos confrontos ocorram a qualquer momento.

“Queremos que os aviões nos atinjam porque não podemos continuar vivendo essa vida miserável”, disse uma mulher que mora com os dois netos na parte ocidental de Mossul.

ACNUR recebeu menos da metade da verba para assistência; agência pede doações

A resposta de emergência do ACNUR em Mossul conta com menos da metade do valor total solicitado a doadores para atender as demandas existentes. A agência da ONU lançou uma campanha de arrecadação de recursos para cobrir a falta de orçamento. Doações podem ser feitas diretamente aos projetos no Iraque. Acesse http://bit.ly/2kKLNpO.

*Nomes alterados por razões de proteção.


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