Novo Patrimônio Mundial da UNESCO, Cais do Valongo marca presença da herança africana no Brasil

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Apesar deste vestígio recordar as atrocidades do tráfico transatlântico, o Cais do Valongo – localizado na região portuária do Rio de Janeiro – marca a presença da herança africana, que construiu e enriqueceu a sociedade brasileira. Confira nesse vídeo especial do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio).

Nomeado como Patrimônio Mundial pela UNESCO no último dia 9 de julho, o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, foi o maior ponto de desembarque do tráfico transatlântico. Estima-se que, apenas no século 19, entre 500 mil e 900 mil africanos escravizados tenham passado pelo cais.

Em torno do cais, se desenvolveu um complexo escravagista com armazéns, pontos de venda de escravos, mercados, casas comerciais. Apesar deste vestígio recordar as atrocidades do tráfico transatlântico, marca a presença da herança africana, que construiu e enriqueceu a sociedade brasileira.

“Para um bem ser reconhecido como Patrimônio da Humanidade, ele precisa ter um valor universal e excepcional, algo que toda a humanidade considera importante. No Valongo, o valor universal e excepcional é o fato dele ser o único resquício material que trata da chegada de africanos nas Américas”, disse Milton Guran, antropólogo e coordenador da indicação do Cais do Valongo ao título de Patrimônio da Humanidade, em entrevista ao Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio).

Imagem: Debret

Imagem: Debret

A região – que servia para o desembarque dos escravos entre 1774 e 1831 – era o principal ponto onde era recebida e comercializada a população negra escravizada. Depois que D. João VI veio para o Rio, o comércio de escravos na Praça XV passou a causar incômodo. Por isso, foi construído o Cais do Valongo. Antes disso, no entanto, a cidade já era a porta de entrada para africanos trazidos para este lado do Atlântico desde o século XVI.

“Em 1808, quando a família real portuguesa se instalou aqui, o Rio de Janeiro tinha cerca de 70% da população de africanos, entre escravos, escravos libertos e filhos de africanos que foram escravizados. A cidade era majoritariamente negra. Então, a marca da negritude sempre foi muito forte na cidade”, observa Guran.

O Cais do Valongo foi declarado patrimônio nacional em novembro de 2013, quando a UNESCO considerou o local parte da chamada “Rota do Escravo”, projeto criado pela instituição em 2006 para destacar o patrimônio material e imaterial relacionado ao tráfico de escravos no mundo.

O processo de escavação da região – entre janeiro de 2011 e junho de 2012 – reafirmou a necessidade do resgate da história que liga africanos, brasileiros e portugueses. Os artefatos – muitas louças portuguesas, por exemplo –, restos mortais, pedras, conchas, búzios, amuletos africanos: tudo o que foi encontrado sinalizada essa presença africana.

Imagem: Debret

Imagem: Debret

Na apresentação do dossiê, o maior africanólogo de língua portuguesa, Alberto da Costa e Silva, justifica a importância do cais para a humanidade: “O Cais do Valongo merece ser considerado pela UNESCO patrimônio da humanidade porque é o sítio de memória da escravidão mais completo que se conhece. Ele tem importância não apenas para a história brasileira e, portanto, para a nossa vida como nação, mas também para a história do mundo”.

Alberto da Costa e Silva cita o escritor nigeriano Chinua Achebe para destacar: “A história não é boa nem má. A história é”.

E conclui: “Nós somos esta história, com seus momentos luminosos e demorados e terríveis pesadelos, como este que parecia interminável e que nos deixou como cicatrizes profundas monumentos como o Valongo, monumentos vivos, que não precisam de textos a elucidá-los, que são pelo que são, e nos comovem pelas pedras que pisamos e pelas pedras que olhamos, pedras que receberam, depois de medonha viagem, os pés de muitos de nossos antepassados, e que contam um pouco desse longo capítulo trágico e espantoso da história dos homens sobre a face da terra.”

Resistência

O Cais, que integra a região da “Pequena África”, já é parte do roteiro de atracões turísticas do Rio de Janeiro. Com o novo título, ganha ainda mais destaque.

Ao UNIC Rio, o babalawo e doutorando em História Comparada na UFRJ, Ivanir dos Santos, disse que este reconhecimento também vem acompanhado de interesse econômico. Para ele, é preciso que a população da região seja fortalecida para ser parte na continuidade dessa história.

“Temos que observar que este não é apenas o reconhecimento do cais da tragédia, mas do legado civilizatório que os africanos deixaram aqui. Sabemos que aquela região é um local que, historicamente, sempre expulsou os negros”, disse Ivanir.

“Então, temos que mostrar o cais para o mundo, mas também falar da história que continua lutando por justiça e direitos dessa imensa população brasileira, que, em sua maioria, têm seus direitos desrespeitados”, acrescentou.

Segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 54% da população brasileira é negra.

Década Internacional de Afrodescendentes da ONU

Existem aproximadamente 200 milhões de pessoas vivendo nas Américas que se identificam como afrodescendentes. Muitos mais vivem em outros lugares do mundo, fora do continente africano.

Seja como descendentes das vítimas do tráfico transatlântico de escravos ou como migrantes mais recentemente, estas pessoas constituem alguns dos grupos mais pobres e marginalizados. Estudos e pesquisas de órgãos nacionais e internacionais demonstram que pessoas afrodescendentes ainda têm acesso limitado a educação de qualidade, serviços de saúde, moradia e segurança.

Nesse contexto, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o período entre 2015 e 2024 como a Década Internacional de Afrodescendentes.

A resolução cita a necessidade de reforçar a cooperação nacional, regional e internacional em relação ao pleno aproveitamento dos direitos econômicos, sociais, culturais, civis e políticos de pessoas de afrodescendentes, bem como sua participação plena e igualitária em todos os aspectos da sociedade.

Saiba mais sobre a Década em decada-afro-onu.org.

(Foto de capa do vídeo: evento de lavagem do Cais do Valongo, em 2015. Crédito da foto: Milton Guran)


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